Argélia (; em árabe argelino e tamazigue: , transl.: Dzayer, , transl.: Djazaïr ou , transl.: Ldzayer; , transl.: Lezzayer; , ), oficialmente República Argelina Democrática e Popular, é um país da África do Norte que faz parte do Magrebe. Sua capital é Argel, no norte do país, sendo a cidade mais populosa na costa do Mediterrâneo. Com uma superfície de , é o maior país da bacia do Mediterrâneo e o mais extenso de todo continente africano, após a divisão entre o Sudão e o Sudão do Sul. Partilha as suas fronteiras terrestres ao nordeste com a Tunísia, a leste com a Líbia, ao sul com o Níger e o Mali, a sudoeste com a Mauritânia e o território contestado do Saara Ocidental, e ao oeste com Marrocos.
A nação possui uma rica história, tendo conhecido muitos impérios e dinastias, incluindo os antigos númidas, fenícios, romanos, vândalos, bizantinos, omíadas, abássidas, idríssidas, aglábidas, rustâmidas, fatímidas, zíridas, hamádidas, almorávidas, almóadas, otomanos e o império colonial francês. Berberes são geralmente considerados os primeiros habitantes da Argélia. Após a conquista árabe do Norte da África, a maioria dos habitantes nativos foram arabizados. Assim, embora a maioria dos argelinos são berberes na origem, se identificam na identidade árabe. No geral, argelinos são uma mistura de berberes com alguns elementos adicionais de árabes, turcos, africanos subsarianos e andalusinos (muçulmanos ibéricos emigraram após a Reconquista).
A Argélia é tida como uma potência regional e média. O país fornece grandes quantidades de gás natural para a Europa, e as exportações de energia são um dos principais contribuintes na economia argelina. De acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Argélia tem a 17ª maior reserva de petróleo do mundo e a segunda maior da África, ao mesmo tempo que tem a 9ª maior reserva de gás natural no mundo. Sonatrach, a empresa nacional de petróleo, é a maior empresa na África. A Argélia tem uma das maiores forças armadas na África e um dos maiores orçamentos de defesa no continente. A maioria das armas da Argélia são importadas da Rússia, com quem mantém uma aliança próxima.
O país é membro da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Africana (UA) e da Liga Árabe praticamente depois de sua independência, em 1962, e integra a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) desde 1969. Em fevereiro de 1989, a Argélia participou com os outros estados magrebinos, para a criação da União do Maghreb Árabe. A Constituição argelina define "o islã, os árabes e os berberes" como "componentes fundamentais" da identidade do povo argelino, e o país como "terra do islã, parte integrante do Grande Magreb, do Mediterrâneo e da África".
História
Pré-história e Antiguidade
thumb|esquerda|Anfiteatro romano em Djémila thumb|esquerda|Arco de Trajano em Timgad Na região de Ain Hanech (Província de Saïda), foram encontrados remanescentes precoces () de ocupação de hominídeos na África do Norte. Neandertais fabricantes de ferramentas produziam machados de mão nos estilos levallois e musteriense semelhantes aos do Levante por volta de
A Argélia é habitada por berberes desde pelo menos A partir de , os cartagineses passaram a exercer influência sobre os berberes ao instalarem assentamentos ao longo da costa. Os primeiros reinos berberes começaram a surgir, destacando-se o Reino da Numídia, e aproveitaram a oportunidade oferecida pelas guerras púnicas para se tornarem independentes de Cartago.
Sua independência, no entanto, não durou muito já que em eles foram anexados por Roma, então uma república. Com a queda do Império Romano do Ocidente os berberes tornaram-se independentes outra vez retomando o controle da maior parte do seu antigo território, com exceção de algumas zonas que foram ocupadas pelos Vândalos que por sua vez foram expulsos pelos bizantinos. Com sua vitória o Império Bizantino manteve, ainda que com dificuldades, o domínio sobre a parte leste do país até a chegada dos árabes no .
Domínio otomano e francês
thumb|esquerda|Mapa da Argélia francesa do A Argélia foi anexada ao Império Otomano por Khair-ad-Don e seu irmão Aruj que estabeleceram as atuais fronteiras argelinas ao norte e fizeram da costa uma importante base de corsários. As atividades dos corsários atingiram seu pico por volta do . Ataques constantes a navios norte-americanos no mediterrâneo resultaram na primeira e segunda guerras berberes. Sob o pretexto de falta de respeito para com seu cônsul, a França invade a Argélia em 1830. A forte resistência de personalidades locais e da população dificultou a tarefa da França, que só no obtém o completo controle do país.
Mesmo antes da obtenção efetiva desse controle, a França já havia tornado a Argélia parte integrante de seu território, uma situação que só acabaria com o colapso da Quarta República. Milhares de colonizadores da França, Itália, Espanha e Malta se mudaram para a Argélia para cultivar as planícies costeiras e morar nas melhores partes das cidades argelinas, beneficiando-se do confisco de terras populares realizado pelo governo francês. Pessoas de descendência europeia (conhecidos como pieds-noirs, ou pés pretos), assim como judeus argelinos eram considerados cidadãos franceses, enquanto que a maioria da população muçulmana argelina não era coberta pelas leis francesas, não tinha cidadania francesa e não tinha direito a voto.
Independência
thumb|esquerda|Rua de Argel em 1960, durante a guerra da independência
A crise social chegou ao seu limite, com índices de analfabetismo subindo cada vez mais enquanto que a tomada de terras desapropriou boa parte da população nativa. A Argélia foi obrigada a enfrentar uma guerra prolongada de libertação em virtude da resistência dos colonos franceses, que dominam as melhores terras. Em 1947, a França estende a cidadania francesa aos argelinos e permite o acesso dos muçulmanos aos postos governamentais, mas os franceses da Argélia resistem a qualquer concessão aos nativos. Nesse mesmo ano é fundada a Frente de Libertação Nacional (FLN), para organizar a luta pela independência. Uma campanha de atentados antiárabes (1950-1953) desencadeada por colonos direitistas, tem como reação da FLN uma onda de atentados nas cidades e guerra de guerrilha no campo. Em 1958, rebeldes exilados fundam no Cairo um governo provisório republicano. A intervenção de tropas de elite da metrópole (Legião Estrangeira e paraquedistas) amplia a guerra. Ações terroristas, tortura e deportações caracterizam a ação militar da França. Os nacionalistas e oficiais de ultradireita dão um golpe militar na Argélia em 1958.
No ano seguinte o presidente francês, Charles de Gaulle, concede autodeterminação aos argelinos. Mas a guerra se intensifica em 1961, pela entrada em ação da organização terrorista de direita OAS (Organização do Exército Secreto), comandada pelo general Salan, um dos protagonistas do golpe de 1958. Ao terrorismo da OAS a FLN responde com mais terrorismo. Nesse mesmo ano fracassam as negociações franco-argelinas, por discordâncias em torno do aproveitamento do petróleo descoberto em 1945. Em 1962 é acertado o Armistício de Evian, com o reconhecimento da independência argelina pela França em troca de garantias aos franceses na Argélia. A República Popular Democrática da Argélia é proclamada após eleições em que a FLN apresenta-se como partido único. Ben Bella torna-se presidente.
A guerra de independência da Argélia fez 400 mil mortos, maioritariamente civis argelinos, para uma população de 10 milhões de habitantes. Entre um e dois milhões de pessoas foram detidas à força pelo exército francês em campos destinados a isolar a FLN da população.YAZBEK, Mustafa. A Revolução Argelina. São Paulo: Unesp, 2010, pp. 95.
Geografia thumb|Imagem de satélite da Argélia
A Argélia tem duas regiões geográficas principais, a região norte e a região do deserto do Saara, na região ao sul do país. A região norte é formada por quatro zonas: uma pequena faixa de planície acompanhando a costa do Mediterrâneo; a região da cadeia de montanhas do Atlas, que possuem um clima mediterrâneo e solo fértil abundante; a região semiárida e parcamente povoada dos xotes, o qual contém lagos salgados (xotes) e onde se localizam em maior número os criadores de ovelhas e cabras; e a região das montanhas do Atlas do Saara, uma série de montanhas e massivos, também sendo uma região semiárida e usada essencialmente como pastagem. O rio Chelife é o maior do país. A maior parte da região árida do Saara é coberta com cascalhos e pedras, com pouca vegetação; há também grandes áreas de dunas de areia no norte e no leste. Alguns oásis importantes são: Touggourt, Biskra, Chenachane, In Zize, e Tin Rerhoh.
O norte argelino está sujeito a sismos, os quais, como em 1954, 1980 e 2003, podem causar grande devastação. A maior parte da área costeira da Argélia é acidentada, por vezes mesmo montanhosa, e há poucos bons portos. A área imediatamente a sul da costa, conhecida como o Tell, é fértil. Mais para sul situam-se os montes Atlas e o deserto do Saara. Argel, Oran e Constantina são as principais cidades.
Clima thumb|Mapa da Argélia de acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger Grande parte da Argélia apresenta clima árido e quente. O país é atingido pelo siroco, um vento quente e carregado de pó e areia, especialmente comum no verão. Nesta região, as temperaturas do deserto do meio-dia podem ser quentes durante todo o ano. Depois do pôr do sol, no entanto, o ar claro e seco permite a rápida perda de calor e as noites são frias, registrando-se dias com enorme amplitude térmica. Apenas na costa norte do país o clima é mediterrâneo, mais suave. Os invernos nas áreas montanhosas também podem ser rigorosos.
A precipitação é bastante abundante ao longo da parte costeira da Cordilheira do Atlas, variando de 400 a 670 milímetros (mm) por ano, aumentando de oeste para leste. A precipitação é mais forte na parte norte do leste do país, onde atinge até em alguns anos. Mais para o interior, as chuvas são menos abundantes. A Argélia também tem dunas de areia entre montanhas. Entre elas, no verão, quando os ventos são fortes, as temperaturas podem chegar a até 43 °C.
Biodiversidade A vegetação variada da Argélia inclui regiões litorâneas, montanhosas e gramíneas como o deserto, que apoiam uma grande variedade de vida selvagem. Muitas das criaturas que compõem a vida selvagem argelina vivem em estreita proximidade com a civilização. Os animais mais comumente vistos incluem os javalis, chacais e gazelas, embora não seja incomum detectar fenecos e jerboas. A Argélia também tem uma pequena população africana de leopardo-africano e de guepardo-do-noroeste-africano, mas raramente são vistos. Uma espécie de cervo, o Cervus elaphus barbarus, habita as densas florestas úmidas nas áreas do nordeste do país. thumb|esquerda|Cedro em Aurés
Uma variedade de espécies de aves torna o país uma atração para observadores de pássaros. O macaco-de-gibraltar é o único macaco nativo. As serpentes, os lagartos-monitor e de vários répteis podem ser encontrados atrás de roedores nas regiões semiáridas. Muitos animais estão agora extintos, como o leão-do-atlas, o urso-do-atlas e o crocodilo-do-oeste-africano."Crocodiles in the Sahara Desert: An Update of Distribution, Habitats and Population Status for Conservation Planning in Mauritania". PLOS ONE. 25 February 2011.
No norte, uma parte da flora nativa inclui maquis, oliveiras, carvalhos, cedros e outras coníferas. As regiões de montanha contêm grandes florestas de pinheiro-de-alepo, zimbro e carvalho verde, além de algumas árvores caducifólias. Figueiras, eucaliptos, agaves e várias palmeiras crescem nas áreas mais quentes. A vinha é nativa da costa. Na região do Saara, alguns oásis têm palmeiras. Acacias com azeitonas selvagens são a flora predominante no restante do Sahara.
Demografia thumb|Densidade populacional por província em 2008