Goldfinger é um romance de espionagem escrito pelo autor britânico Ian Fleming e o sétimo livro da série James Bond. A história acompanha o agente secreto britânico James Bond enquanto investiga as atividades de contrabando de ouro de Auric Goldfinger, quem o Serviço Secreto suspeita de ter conexões com a SMERSH, a agência de contraespionagem soviética.

Fleming escreveu o romance nos primeiros meses de 1958 em sua propriedade Goldeneye na Jamaica. Ele nomeou o vilão homônimo do livro a partir do arquiteto Ernő Goldfinger, que ameaçou processá-lo depois de saber sobre o uso, com a questão sendo resolvida fora dos tribunais; Fleming na verdade provavelmente baseou o personagem no empresário estadunidense do ouro Charles W. Engelhard Jr.. O autor desenvolveu melhor o personagem de Bond no livro, apresentando-o como um indivíduo bem mais complexo do que nos romances anteriores, salientando o tema de Bond como uma figura semelhante a São Jorge.

Goldfinger foi publicado no Reino Unido em março de 1959 pela editora Jonathan Cape, alcançando o topo das listas de mais vendidos. Foi de forma geral bem recebido pela crítica especializada e comparado favoravelmente às obras de H. C. McNeile e John Buchan. O romance foi serializado no jornal Daily Express em 1959 e depois adaptado como uma tira em quadrinhos entre 1960 a 1961. Foi adaptado em 1964 como o terceiro filme da série cinematográfica de James Bond, sendo estrelado por Sean Connery. Foi adaptado novamente em 2010 como um rádio-drama na BBC Radio 4, tendo Toby Stephens no papel de Bond.

Enredo O agente secreto britânico James Bond, enquanto espera um voo em Miami nos Estados Unidos, encontra com Junius Du Pont, um empresário estadunidense e um antigo conhecido seu. Du Pont pede para Bond observar Auric Goldfinger, com quem Du Pont está jogando canasta, a fim de descobrir se ele está trapaceando. Bond logo percebe que Goldfinger está usando sua assistente Jill Masterton para espionar as cartas de Du Pont. Bond chantageia Goldfinger para que admita sua culpa e pague de volta o dinheiro de Du Pont; Bond também tem um breve caso com Masterton. Ele volta para Londres e seu chefe, M, o encarrega de descobrir como Goldfinger está contrabandeando ouro para fora do Reino Unido. M suspeita que há uma conexão com a SMERSH e que esta está financiando suas operações no ocidente com esse ouro.

Bond arma um modo de jogar golfe contra Goldfinger, com este tentando vencer a partida trapaceando de novo, mas Bond consegue ser mais esperto e se sai vencedor. Ele também conhece Oddjob, o faz-tudo coreano de Goldfinger. Bond segue Goldfinger até a Suíça, descobrindo que a blindagem do carro deste é na verdade feita de ouro branco fundido em painéis. Quando o carro chega em uma determinada fábrica suíça, o ouro é transformado em assentos de avião e colocado em aeronaves de uma linha aérea em que Goldfinger tem uma participação significativa. O ouro é finalmente vendido na Índia com grande margem de lucro. Bond consegue frustrar uma tentativa de assassinato contra Goldfinger realizada por Tilly Masterton, irmã de Jill, que queria se vingar da morte de Jill: Goldfinger a pintou de ouro, matando-a. Bond e Tilly tentam escapar, mas são capturados.

thumb|240px|esquerda|O Depósito de Ouro dos Estados Unidos em Fort Knox Bond é torturado por Oddjob, mas não revela o que descobriu. Ele se oferece para trabalhar com Goldfinger, um ardil que este primeiro recusa mas depois aceita. Bond e Tilly são levados para um armazém em Nova Iorque, onde são colocados para trabalhar como secretários durante um encontro entre Goldfinger e criminosos recrutados para a "Operação Grand Slam": o roubo do ouro do Depósito de Ouro dos Estados Unidos em Fort Knox. Um dos líderes criminosos se recusa a participar e é morto por Oddjob. Bond descobre que parte da operação também inclui a morte dos habitantes de Fort Knox por meio do envenenamento do suprimento de água. Ele envia uma mensagem escondida que torce para ser encontrada e repassada à Agência Pinkerton, onde seu amigo Felix Leiter trabalha.

A Operação Grand Slam começa e é revelado que Leiter recebeu a mensagem. Uma batalha se inicia e Tilly é morta por Oddjob. Goldfinger, Oddjob e os líderes criminosos escapam. Bond é drogado antes de seu voo para casa e ao acordar descobre que foi capturado por Goldfinger, que sequestrou o avião e matou todos os criminosos, exceto Pussy Galore, líder de uma gangue de ladras lésbicas. Bond consegue quebrar uma das janelas e causar uma despressurização que suga Oddjob para fora, em seguida matando Goldfinger. O avião faz um pouso de emergência no mar perto do Canadá e todos são resgatados por um navio de guerra.

Antecedentes e escrita thumb|240px|Goldeneye, onde Fleming escreveu todos os romances de James Bond O autor britânico Ian Fleming já tinha em janeiro de 1958 publicado cinco romances de Bond anualmente desde 1953: Casino Royale, Live and Let Die, Moonraker, Diamonds Are Forever e From Russia, with Love. Um sexto livro, Dr. No, estava sendo editado e preparado para publicação. Nesse mesmo mês Fleming viajou para sua propriedade Goldeneye na Jamaica para escrever um novo livro que se tornaria Goldfinger. Ele seguiu sua prática de escrita usual, que ele posteriormente detalhou em um artigo para a revista Books and Bookmen: "Eu escrevo por cerca de três horas pela manhã ... e faço outra hora de trabalho entre seis e sete da noite. Nunca corrijo nada ou volto atrás para ver o que escrevi ... Pela minha fórmula, você escreve duas palavras por dia". Fleming voltou para Londres no Reino Unido em março com um manuscrito de 270 páginas, o mais longo que já tinha escrito até então. Ele inicialmente deu ao manuscrito o título de The Richest Man in the World; poucas alterações foram feitas na história antes da publicação.

Fleming há muito era fascinado por ouro. Era um colecionador de dobrões espanhóis, tendo chegado a encomendar da Royal Typewriter Company um máquina de escrever banhada a ouro, porém ele nunca chegou a realmente usá-la para escrever suas histórias; Fleming escrevia com uma caneta esferográfica com ponta dourada e incluiu o roubo ou obtenção de ouro em vários de seus livros. Ele procurou reforçar seu conhecimento sobre ouro para escrever Goldfinger ao enviar um questionário para um especialista da Venerável Companhia de Ourives, uma das empresas de libré na Cidade de Londres que ensaia metais preciosos para pureza, indagando sobre as propriedades do ouro e funcionamento da indústria, incluindo sobre contrabando.

O autor originalmente concebeu a cena do jogo de cartas como um conto separado, mas acabou usando-o como um modo de fazer Bond e Goldfinger se conhecerem. O arquiteto Ernő Goldfinger ameaçou processar Fleming por conta do uso de seu nome no livro. O romance nessa altura já tinha sido impresso mas não publicado, com Fleming ameaçando adicionar uma errata mudando o nome para Goldprick e explicar o motivo. A questão foi resolvida fora dos tribunais depois da editora Jonathan Cape ter pago os custos legais de Ernő e concordado em garantir que o nome Auric sempre fosse usado junto com Goldfinger, também lhe enviando seis cópias do livro.

Fleming achou que Goldfinger tinha sido seu romance de Bond mais fácil de ter sido escrito, porém também achou que tinha esgotado completamente suas inspirações para enredos. Ele escreveu para seu amigo e autor William Plomer, quem revisou todos os romances de Bond, que Goldfinger seria "o último fólio completo de Bond... Apesar de que talvez eu consiga pensar alguns episódios para ele no futuro, nunca mais serei capaz de lhe dar palavras de novo".

O autor deu poucas informações sobre datas dentro de suas obras, mas dois escritores identificaram linhas do tempo diferentes a partir de eventos e situações relatados dentro da série James Bond como um todo: John Griswold e Henry Chancellor, ambos os quais escreveram livros analisando as obras à pedido da Ian Fleming Publications. Chancellor colocou os eventos de Goldfinger em 1957, já Griswold foi mais preciso e considerou que a história se passa entre o final de abril e início de junho daquele ano.

Desenvolvimento Inspirações Fleming baseou alguns pontos do livro em eventos que leu a respeito. A morte de uma dançarina europeia antes da Primeira Guerra Mundial por supostamente cobrir seu corpo com tinta foi um desses, enquanto a despressurização do avião foi um elemento que o autor tinha a intenção de usar em outro lugar, mas acabou incluindo em Goldfinger. Alguns anos antes um avião tinha despressurizado sobre o Líbano e um passageiro foi sugado para fora pela janela; Fleming não se sentia confortável viajando de avião e faz nota do acidente para usá-lo. O autor se apropriou de nomes de pessoas que ele conhecia, assim como fez em várias de suas obras. O sobrenome de sir John Masterman, um agente do Serviço de Segurança Britânico que administrou o Sistema Double Cross durante a Segunda Guerra Mundial, foi usado como a base para as irmãs Masterton. Alfred Whiting, o professional de golfe do Royal St George's Golf Club, se tornou Alfred Blacking, enquanto o próprio clube se tornou o Royal St Mark's para a partida entre Bond e Goldfinger.

Fleming participou em junho de 1957 do torneio de golfe Bowmaker Pro-Am no Berkshire Golf Club, onde fez dupla com Peter Thomson, o vencedor do Aberto Britânico; muito do que ele viu foi colocado na partida de Bond e Goldfinger. Blanche Blackwell, uma das vizinhas de Fleming na Jamaica e depois sua amante, foi a modelo para Pussy Galore, porém o nome "Pussy" veio de "Pussy" Deakin, anteriormente Livia Stela, uma agente do Executivo de Operações Especiais e amiga da esposa de Fleming.

John Blackwell, primo de Blanche e parceiro de golfe de Fleming, também era primo por casamento de Ernő Goldfinger, quem ele não gostava; foi Blackwell quem lembrou Fleming sobre o nome. O autor também não gostava de Goldfinger, quem, ele achava, tinha destruído edifícios vitorianos e os substituído com seus projetos modernistas, particularmente um terraço na residência do próprio Goldfinger em 2 Willow Road em Hampstead. Blackwell teve o seu nome usado para um traficante de heroína no início do livro.

Há algumas similaridades entre Ernő e Auric Goldfinger: ambos eram imigrantes judeus oriundos do Leste Europeu que foram viver no Reino Unido em meados da década de 1930, além dos dois serem marxistas. Por outro lado, os Goldfingers real e ficcional eram fisicamente muito diferentes. Segundo o historiador Henry Chancellor, o provável modelo para Auric Goldfinger foi o empresário estadunidense do ouro Charles W. Engelhard Jr., quem Fleming conheceu em 1949. Engelhard tinha um negócio já estabelecido, a Precious Metals Development Company, que contornou inúmeras restrições à exportação, vendendo lingotes de ouro diretamente para Hong Kong.

Personagens O personagem de Bond foi melhor desenvolvido em Goldfinger do que nos romances anteriores; o historiador cultural Jeremy Black considerou que Bond "foi apresentado como um personagem mais complexo". O autor Raymond Benson, que posteriormente escreveu vários romances de Bond, enxergou Goldfinger como um romance de transição, deixando o personagem mais humano do que nos livros anteriores e mais preocupado com o que Benson chamou de "as armadilhas mortais da vida". Isto se manifesta logo no primeiro capítulo do romance enquanto Bond está no aeroporto de Miami pensando sobre como recentemente lutou e matou um bandido mexicano. Benson também achou que o personagem estava desenvolvendo algum senso de humor em Goldfinger, por exemplo ao verbalmente abusar de Oddjob para sua própria diversão.