Hesíodo (, transl. Hēsíodos) foi um poeta oral grego da Antiguidade, geralmente tido como tendo estado em atividade entre 750 e 650 a.C. Sua poesia é a primeira feita na Europa na qual o poeta vê a si mesmo como um tópico, um indivíduo com um papel distinto a desempenhar.J. P. Barron e P. E. Easterling, "Hesiod", in The Cambridge History of Classical Literature: Greek Literature, P. Easterling e B. Knox (ed.), Cambridge University Press (1985), p. 92 Autores antigos creditavam a ele e a Homero a instituição dos costumes religiosos gregos,Andrewes, Antony. Greek Society, Pelican Books (1971), p. 254–5 e os acadêmicos modernos referem-se a ele como uma das principais fontes para a religião grega, as técnicas agriculturais, o pensamento econômico (chegou a ser referido, por vezes, como o primeiro economista),Rothbard, Murray N., Economic Thought Before Adam Smith: Austrian Perspective on the History of Economic Thought, Vol. 1, Cheltenham, UK, Edward Elgar Publishing Ltd, 1995, p. 8; Gordan, Barry J., Economic analysis before Adam Smith: Hesiod to Lessius (1975), p. 3; Brockway, George P., The End of Economic Man: An Introduction to Humanistic Economics, 4ª edição (2001), p 128. a astronomia grega arcaica e o estudo do tempo.

Hesíodo utilizou diversos estilos do verso tradicional, incluindo a poesia gnômica, hínica, genealógica e narrativa, porém não foi capaz de dominar todas com a mesma fluência; as comparações com Homero costumam lhe ser desfavoráveis. Nas palavras de um estudioso moderno de sua obra, "é como se um artesão, com seus dedos grandes e desajeitados, estivesse imitando, paciente e fascinadamente, a costura delicada de um alfaiate profissional".M. West, Hesiod: Theogony, p. 72-3

Biografia As datas precisas de sua vida são uma questão contestada nos círculos acadêmicos, e foram abordadas na seção Datas.

A narrativa épica não permitia a poetas como Homero qualquer oportunidade para revelações pessoais, porém a obra existente de Hesíodo abrange também poemas didáticos, e nestes o autor desviou-se de sua trajetória para compartilhar com o público alguns detalhes de sua vida, incluindo três referências explícias, no Trabalhos e Dias, além de em algumas passagens da Teogonia, que permitem que algumas inferências sejam feitas. No primeiro, o leitor fica sabendo que o pai de Hesíodo era originário de Cime, na Eólia, litoral da Ásia Menor, ao sul da ilha de Lesbos, e atravessou o mar para fixar-se num vilarejo, nas proximidades de Téspias, na Beócia, chamada Ascra, "uma aldeia amaldiçoada, cruel no inverno, penosa no verão, jamais agradável" (Trabalhos, l. 640). O patrimônio de Hesíodo no local, um pequeno pedaço de terra no sopé do Monte Hélicon, foi responsável por processos judiciais com seu irmão, Perses, que parece ter inicialmente se apossado indevidamente da parte devida a Hesíodo graças a autoridades (ou "reis") corruptos, porém mais tarde acabou ficando pobre e sobrevivendo às custas do poeta, mais precavido (Trabalhos l. 35, 396). Ao contrário de seu pai, Hesíodo evitava viagens marítimas, embora tenha cruzado certa vez o estreito que separa a Grécia continental da ilha de Eubeia para participar nos ritos fúnebres de um certo Átamas de Cálcis, onde conquistou um tripé após participar de uma competição de canto.Griffin, Jasper. "Greek Myth and Hesiod", The Oxford History of the Classical World, J. Boardman, J. Griffin e O. Murray (eds), Oxford University Press (1986), p. 88, 95 Também descreveu um encontro entre ele próprio e as Musas, no Monte Hélicon, onde ele havia levado suas ovelhas para pastar, quando as deusas lhe presentearam com um ramo de louros, símbolo de autoridade poética (Teogonia, ll. 22–35). Por mais fantasioso que isto pareça, o relato levou estudiosos antigos e modernos a deduzir a partir dele que Hesíodo não era capaz de tocar a lira, ou não havia sido treinado profissionalmente para tocá-la, do contrário ele teria recebido um instrumento de presente no lugar do cajado.

Alguns estudiosos enxergaram em Perses uma criação literária, um recurso utilizado para a moralização desenvolvida por Hesíodo nos Trabalhos e Dias, porém também existem argumentos contrários a esta teoria.Evelyn-White, Hugh G. Hesiod, The Homeric Hymns and Homerica (Cambridge: Harvard Press, 1964), volume 57, Loeb Classical Library, pp. xivf. Era muito comum, por exemplo, em obras voltadas à instrução moral, utilizar-se de uma ambientação imaginária, como forma de conquistar a atenção do público, porém é difícil imaginar como Hesíodo poderia ter viajado por toda a região rural entretendo as pessoas com uma narrativa sobre si próprio se ela fosse notoriamente fictícia.Griffin, Jasper. 'Greek Myth and Hesiod' in The Oxford History of the Classical World, J. Boardman, J. Griffin e O. Murray (ed.), Oxford University Press (1986), p. 95 O professor americano de Estudos Clássicos Gregory Nagy, por outro lado, vê tanto no nome Persēs ("destruidor": πέρθω, perthō) quanto em Hēsiodos ("aquele que emite a voz": ἵημι, hiēmi + αὐδή, audē) nomes fictícios de personas poéticas.Nagy, Gregory. Greek Mythology and Poetics (Cornell 1990), p. 36–82. thumb|Hesíodo e a Musa, de Gustave Moreau. O poeta é representado aqui com uma lira, o que contradiz o relato apresentado pelo próprio Hesíodo, no qual o presente foi um ramo de louros. Parece pouco comum que o pai de Hesíodo tenha migrado da Ásia Menor para a Grécia continental, percorrendo o caminho oposto ao da maior parte dos deslocamentos coloniais ocorridos no período; o próprio Hesíodo não apresenta qualquer explicação para o fato. Por volta de 750 a.C., no entanto, ou pouco mais tarde, ocorreu uma migração de mercadores marítimos de sua pátria, Cime, na Ásia Menor, para Cumas, na Campânia (uma colônia que Cime partilhava com os eubeus), e talvez sua mudança para o oeste tenha tido a ver com isto, já que Eubeia não fica longe da Beócia, onde ele acabou por se fixar com sua família.Barron, J.P. e Easterling, P.E. 'Hesiod', in The Cambridge History of Classical Literature: Greek Literature, P. Easterling e B. Knox (ed.), Cambridge University Press (1985), p. 93 A associação com Cime pela família poderia explicar sua familiaridade com mitos orientais, evidente em seus poemas, embora o mundo grego já pudesse àquela altura ter desenvolvido suas próprias versões daqueles mitos.Burn, A. R. The Pelican History of Greece, p. 77

Apesar das reclamações de Hesíodo a respeito de sua pobreza, a vida na fazenda de seu pai pode não ter sido excessivamente desconfortável a se julgar pela sua obra, especialmente Trabalhos e Dias, já que ele descreve as rotinas de proprietários de terra prósperos, e não de camponeses. Seu fazendeiro emprega um amigo (l. 370) bem como servos (ll. 502, 573, 597, 608, 766), um arador enérgico e responsável já de idade avançada (ll. 469–71), um escravo jovem para cobrir as sementes (ll. 441–6), uma criada para cuidar da casa (ll. 405, 602) e grupos de bois e mulas (ll. 405, 607f.).Barron, J. P. e Easterling, P. E. 'Hesiod', in The Cambridge History of Classical Literature: Greek Literature, P. Easterling e B. Knox (ed.), Cambridge University Press (1985), p. 93–4 Um acadêmico moderno sugeriu que Hesíodo teria aprendido sobre geografia geral, especialmente o catálogo de rios citado na Teogonia (ll. 337–45), ao ouvir os relatos de seu pai sobre suas próprias viagens como comerciante.West, M. L. Hesiod: Theogony, Oxford University Press (1966), p. 41–2 O pai provavelmente falava no dialeto eólio de Cime, porém Hesíodo provavelmente cresceu falando o dialeto beócio local. Sua poesia, no entanto, apresenta alguns eolismos, enquanto não tem quaisquer palavras de origem beócia, já que ele compunha suas obras utilizando o principal dialeto literário da época, o dialeto jônio.West, M. L. Hesiod: Theogony, Oxford University Press (1966), p. 90–1

É provável que Hesíodo tenha escrito seus poemas, ou os ditado, e não os apresentado oralmente, como faziam os rapsodos; do contrário, o estilo acentuadamente pessoal que emerge de seus poemas teria seguramente sido diluído através da transmissão oral de um rapsodo a outro. Se ele de fato escreveu ou ditou suas obras, provavelmente o fez para ajudar a memorizá-los, ou porque ele não tinha confiança na sua capacidade de produzir poemas de improviso, como costumavam fazer os rapsodos com mais treinamento. Certamente não foi visando a qualquer tipo de fama ou posteridade, já que os poetas de seu tempo não conheciam esta noção. Alguns estudiosos suspeitam, no entanto, da presença de alterações em grande escala no texto, e a atribuem à transmissão oral.West, M. L. Hesiod: Theogony, Oxford University Press (1966), p. 40–1, 47–8 Hesíodo pode ter escrito seus versos durante períodos de ócio na sua fazenda, na primavera, antes da colheita de maio, ou no meio do inverno.Burns, A. R. The Pelican History of Greece, p. 77

A característica pessoal por trás dos poemas é pouco apropriada ao tipo de "afastamento aristocrático" que um rapsodo deveria ter; seu estilo foi descrito como "argumentativo, desconfiado, ironicamente bem-humorado, frugal, apreciador de provérbios, temeroso quanto às mulheres".Griffin, Jasper. 'Greek Myth and Hesiod' in The Oxford History of the Classical World, O.U.P (1986), p. 88 Há quem o considere um misógino do mesmo quilate de outro poeta que viveu posteriormente, Semônides.Barron, J. P. e Easterling, P. E.'Hesiod' in The Cambridge History of Classical Literature: Greek Literature, P. Easterling e B. Knox (ed.), Cambridge University Press (1985), p. 99 Assemelha-se a Sólon em sua preocupação com a questão do bem contra o mal, e "como um deus justo e onipotente pode permitir que o injusto floresça nesta vida." Lembra Aristófanes em sua rejeição do herói idealizado da literatura épica, preferindo em seu lugar uma visão idealizada do fazendeiro.Andrewes, Antony. Greek Society, Pelican Books (1971), p. 218–19, 262 No entanto, o fato de que ele podia fazer elogios a reis na Teogonia (ll. 80ff, 430, 434) e ao mesmo tempo denunciá-los como corruptos em Trabalhos e Dias sugere que ele tinha a capacidade de escrever de acordo com o público que ele visava atingir.West, M. L. Hesiod: Theogony, Oxford University Press (1966), p. 44

As diversas lendas que se acumularam ao longo do tempo a respeito de Hesíodo foram registradas em diferentes fontes: a história "A Competição de Poesia (Ἀγών, Agōn) de Homero e Hesíodo";Traduzida para o inglês por Evelyn-White, Hesiod, p. 565–597. uma vita de Hesíodo, de autoria do gramático bizantino João Tzetzes; o verbete sobre Hesíodo na Suda; duas passagens e alguns comentários na obra de Pausânias (IX, 31.3–6 e 38.3–4); uma passagem na Moralia, de Plutarco (162b).

Duas tradições diferentes, porém arcaicas, registram o local da sepultura de Hesíodo. Uma, do tempo de Tucídides e registrada por Plutarco, pela Suda e por João Tzetzes, afirma que o oráculo de Delfos teria avisado Hesíodo que ele morreria em Nemeia, e por isso ele fugiu para a Lócrida, onde foi morto no templo local dedicado a Zeus Nemeu e enterrado ali. Esta tradição segue uma convenção irônica familiar: o oráculo acaba prevendo corretamente a despeito da tentativa da vítima de escapar de seu destino. A outra tradição, mencionada pela primeira vez num epigrama de Quérsias de Orcômeno, e escrita no século VII a.C. (pouco mais de um século depois da morte de Hesíodo) afirma que ele estaria sepultado em Orcômeno, uma cidade da Beócia. De acordo com a Constituição de Orcômeno, de Aristóteles, quando os téspios atacaram Ascra, seus habitantes procuraram refúgio em Orcômeno onde, seguindo o conselho de um oráculo, eles juntaram as cinzas de Hesíodo e colocaram-nas num local de honra dentro de sua ágora, próximo ao túmulo de Mínias, seu fundador epônimo. Posteriormente passaram a considerar Hesíodo também como o "fundador de seu lar" (οἰκιστής, oikistēs). Escritores posteriores tentaram harmonizar os dois relatos.

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