275px|miniatura|Projeção azimutal do Oceano Ártico e do Polo Norte. O mapa também mostra os paralelos 75° N e 60° N. 275px|miniatura|Estação de pesquisa temporária de uma expedição germano-suíça sobre o gelo marinho no Polo Norte geográfico. Perfurações realizadas no local de pouso, a 90° N, mostraram espessura média do gelo de 2,5 m em 16 de abril de 1990. 275px|miniatura|Esta crista de pressão no Polo Norte tem cerca de 1 km de comprimento e se formou entre duas placas de gelo plurianual.
O Polo Norte, também chamado Polo Norte Geográfico ou Polo Norte Terrestre, é o ponto do Hemisfério Norte onde o eixo de rotação da Terra encontra sua superfície. Também é chamado Polo Norte verdadeiro para distingui-lo do Polo Norte Magnético.
O Polo Norte é, por definição, o ponto mais setentrional da Terra e fica no antípoda do Polo Sul. Define a latitude geodésica de 90° norte e a direção do norte verdadeiro. No Polo Norte, todas as direções apontam para o sul. Todas as linhas de longitude convergem no local, de modo que sua longitude pode receber qualquer valor. Nenhum fuso horário foi atribuído ao Polo Norte, por isso qualquer horário pode ser adotado como hora local. Em pequenos círculos de latitude, o sentido anti-horário corresponde ao leste e o sentido horário, ao oeste. O Polo Norte fica no centro do Hemisfério Norte. A terra mais próxima costuma ser apontada como a Ilha Kaffeklubben, ao largo da costa norte da Groenlândia, a cerca de 700 km, embora bancos de cascalho possivelmente semipermanentes fiquem um pouco mais perto. O assentamento permanentemente habitado mais próximo é Alert, na Ilha Ellesmere, Canadá, a 817 km do Polo.
Enquanto o Polo Sul fica sobre a massa continental da Antártida, o Polo Norte está no meio do Oceano Ártico, em águas quase permanentemente cobertas por gelo marinho em constante movimento. A profundidade do mar no Polo Norte foi medida em 4.261 m pelo submersível russo Mir em 2007, durante a Arktika 2007, e em 4.087 m pelo USS Nautilus em 1958. Isso torna impraticável a construção de uma estação permanente no Polo Norte, ao contrário do que ocorre no Polo Sul. A União Soviética, e depois a Rússia, montou estações tripuladas à deriva quase todos os anos desde 1937, algumas das quais passaram sobre o Polo ou muito perto dele. Desde 2002, um grupo de russos também instala anualmente a base privada Barneo perto do Polo. Ela funciona durante algumas semanas no início da primavera. Estudos publicados nos anos 2000 previram que o Polo Norte poderia ficar sem gelo sazonalmente em consequência da redução do gelo do Ártico, com estimativas que variavam de 2016Black, Richard (8 de abril de 2001). New warning on Arctic sea ice melt. BBC.Ljunggren, David (5 de março de 2009). Arctic summer ice could vanish by 2013: expert. Reuters. até o fim do século XXI ou depois.
As tentativas de chegar ao Polo Norte começaram no fim do século XIX, e o recorde de "Farthest North" foi superado repetidas vezes. A primeira expedição incontestável a alcançar o Polo Norte foi a do dirigível Norge, que sobrevoou a região em 1926 com 16 pessoas a bordo, entre elas o chefe da expedição, Roald Amundsen. Três expedições anteriores, lideradas por Frederick Cook em 1908, por terra, Robert Peary em 1909, por terra, e Richard E. Byrd em 1926, por ar, chegaram a ser aceitas como tendo alcançado o Polo. Análises posteriores dos dados das três expedições lançaram dúvidas sobre suas alegações.
Os primeiros indivíduos com chegada verificada ao Polo Norte a pé foram os 24 integrantes de um grupo soviético em 1948, parte da expedição ártica Sever-2, de Aleksandr Kuznetsov. Eles voaram até as proximidades do Polo e percorreram a etapa final a pé. A primeira expedição inteiramente terrestre cuja chegada foi confirmada ocorreu em 1968, quando Ralph Plaisted, Walt Pederson, Gerry Pitzl e Jean-Luc Bombardier chegaram ao Polo em motos de neve, com apoio aéreo.
Definição precisa
Acreditava-se que o eixo de rotação da Terra, e por consequência a posição do Polo Norte, permanecesse fixo em relação à superfície terrestre até o século XVIII, quando o matemático Leonhard Euler previu que o eixo poderia oscilar ligeiramente. Por volta do início do século XX, astrônomos perceberam uma pequena "variação de latitude" aparente, determinada para um ponto fixo da Terra pela observação das estrelas. Parte dessa variação podia ser atribuída ao deslocamento do Polo pela superfície terrestre por alguns metros. Esse movimento tem componentes periódicos e um componente irregular. O componente com período de cerca de 435 dias corresponde à oscilação prevista por Euler e recebeu o nome de oscilação de Chandler, em referência a seu descobridor. O ponto exato em que o eixo da Terra cruza a superfície em determinado instante é chamado "polo instantâneo". Como esse ponto se desloca, ele não pode definir um Polo Norte ou Polo Sul fixo quando é necessária precisão da ordem de metros.
É conveniente vincular o sistema de coordenadas terrestres, formado por latitude, longitude e elevação ou orografia, a formas fixas da superfície. A tectônica de placas e a isostasia, porém, impedem a existência de um sistema em que todos os acidentes geográficos permaneçam imóveis. O Serviço Internacional de Rotação da Terra e Sistemas de Referência e a União Astronômica Internacional definiram o Sistema Internacional de Referência Terrestre para esse fim.
Na geodesia de alta precisão, o polo instantâneo é medido em relação ao Sistema Internacional de Referência Terrestre, ou ITRS. O sistema define a origem, a escala, a orientação e sua evolução temporal, e é materializado pelo Quadro Internacional de Referência Terrestre a partir das posições e velocidades de estações observadas por técnicas geodésicas. O movimento do polo em relação ao ITRS é fornecido separadamente entre os parâmetros de orientação da Terra.
A redistribuição de massa na superfície e no interior da Terra também desloca o eixo de rotação. Estudos da NASA relacionam sua deriva de longo prazo durante o século XX à perda recente de massa de gelo, sobretudo na Groenlândia, ao ajuste isostático após a última glaciação e à convecção do manto. Por volta de 2000, a direção da deriva sofreu uma mudança acentuada para leste. A redistribuição de água entre os continentes e os oceanos, inclusive pela perda de gelo e pela redução de águas subterrâneas, responde por grande parte dessa mudança observada no início do século XXI.
Exploração
Antes de 1900 miniatura|300px|Mapa do Polo Norte feito por Gerardo Mercator em 1595. miniatura|Mapa do Polo Norte de C. G. Zorgdrager, de 1720. miniatura|esquerda|O navio Fram, de Nansen, preso no gelo do Ártico.
Já no século XVI, muitas pessoas aceitavam corretamente que o Polo Norte ficava em um mar, chamado no século XIX de Mar Polar Aberto. Esperava-se que fosse possível atravessar a região por aberturas entre as placas de gelo em épocas favoráveis do ano. Expedições partiram em busca dessa passagem, em geral usando navios baleeiros, comuns nas altas latitudes setentrionais.
Uma das primeiras expedições organizadas com o objetivo explícito de alcançar o Polo Norte foi a do oficial naval britânico William Edward Parry, que chegou à latitude 82°45′ N em 1827. Em 1871, a expedição Polaris, tentativa norte-americana de chegar ao Polo sob o comando de Charles Francis Hall, terminou em desastre. Outra tentativa da Marinha Real Britânica, parte da Expedição Ártica Britânica e comandada por Albert Hastings Markham, alcançou a latitude recorde de 83°20′26″ N em maio de 1876 antes de recuar. Uma expedição comandada pelo oficial da Marinha dos Estados Unidos George W. De Long, entre 1879 e 1881, terminou tragicamente depois que o navio USS Jeannette foi esmagado pelo gelo. Mais da metade da tripulação morreu, entre eles De Long.
Em abril de 1895, os exploradores noruegueses Fridtjof Nansen e Hjalmar Johansen partiram em esquis em direção ao Polo depois de deixar o Fram, navio de Nansen preso no gelo. A dupla chegou à latitude 86°14′ N, abandonou a tentativa e rumou para o sul, chegando depois à Terra de Francisco José.
Em 1897, o engenheiro sueco Salomon August Andrée e dois companheiros tentaram alcançar o Polo Norte no balão de hidrogênio Örnen, "Águia", mas desceram cerca de 300 km ao norte de Kvitøya, extremo nordeste do arquipélago de Svalbard. Eles caminharam até Kvitøya e morreram ali três meses depois da queda. Em 1930, os restos da expedição foram encontrados pela expedição norueguesa Bratvaag.
O explorador italiano Luigi Amedeo, duque dos Abruzos, e o capitão Umberto Cagni, da Marinha Real Italiana, Regia Marina, partiram da Noruega em 1899 a bordo do baleeiro convertido Stella Polare, "Estrela Polar". Em 11 de março de 1900, Cagni conduziu um grupo pelo gelo e atingiu 86°34′ N em 25 de abril, superando em 35 a 40 km o resultado obtido por Nansen em 1895. Cagni conseguiu retornar ao acampamento com dificuldade e permaneceu ali até 23 de junho. Em 16 de agosto, o Stella Polare deixou a Ilha Rudolf em direção ao sul, e a expedição voltou à Noruega.
1900–1940 miniatura|Grupo de trenós de Peary no local que alegava ser o Polo Norte, em 1909. Da esquerda para a direita: Ooqueah, Ootah, Henson, Egingwah e Seeglo.
O explorador norte-americano Frederick Cook afirmou ter chegado ao Polo Norte em 21 de abril de 1908 com dois homens inuítes, Ahwelah e Etukishook, mas não conseguiu apresentar provas convincentes e sua alegação não é amplamente aceita.
Por muitos anos, a conquista do Polo Norte foi atribuída ao engenheiro da Marinha dos Estados Unidos Robert Peary, que afirmou ter chegado ao Polo em 6 de abril de 1909 acompanhado por Matthew Henson e quatro inuítes, Ootah, Seeglo, Egingwah e Ooqueah. A alegação de Peary permanece muito contestada. Os integrantes que o acompanharam na etapa final da viagem não tinham treinamento em navegação e não puderam confirmar de forma independente os cálculos que sustentavam a posição alcançada.
miniatura|Apesar das dúvidas levantadas posteriormente por historiadores, Peary e sua equipe receberam da imprensa da época o crédito pela descoberta do Polo Norte.
As distâncias e velocidades que Peary afirmou ter percorrido depois que o último grupo de apoio voltou são vistas com ceticismo porque chegavam a quase três vezes o ritmo mantido antes dessa etapa. O relato de Peary sobre a ida e a volta pelo trajeto direto, única estratégia compatível com o tempo disponível, também diverge do relato de Henson, que mencionou desvios sinuosos para evitar cristas de pressão e canais de água aberta entre placas de gelo.
O explorador britânico Wally Herbert, que antes apoiava a alegação de Peary, examinou os registros da viagem em 1989 e encontrou discrepâncias nos dados de navegação. Concluiu que Peary não havia chegado ao Polo. A posição favorável a Peary ganhou novo argumento em 2005, quando o explorador britânico Tom Avery e quatro companheiros reproduziram o trecho de ida da viagem usando réplicas de trenós de madeira e equipes de cães esquimós canadenses. Chegaram ao Polo Norte em 36 dias e 22 horas, quase cinco horas menos do que Peary alegara. A marcha de cinco dias mais rápida de Avery cobriu cerca de 167 km, ainda muito abaixo dos 250 km alegados por Peary. Avery escreveu que sua admiração por Peary, Henson e os quatro inuítes havia aumentado depois da viagem e que ficara mais convencido de que Peary chegara ao Polo.Tom Avery website. Consultado em maio de 2007.