A obra São João Batista no Cárcere foi um quadro religioso pintado por Victor Meirelles em 1852 a pedido da Academia Imperial de Belas Artes para concorrer ao 7º Prêmio de Viagem Internacional.* A pintura que lhe rendeu oito anos no exterior, é feita de óleo sobre tela, uma técnica que surgiu na Europa no fim da Idade Média como arte doméstica e tornou-se um símbolo das obras modernas.*Com dimensões de 88,7 por 105,9 cm, esta produção neoclássica contrastou com as pinturas que Meirelles realizava até então: paisagens urbanas de sua cidade natal, Desterro. A obra funcionou como um instrumento de evangelização em uma época em que o pintor identificado com a Monarquia trabalhava para a corte portuguesa ajudando no processo de civilização brasileiro por meio de imagens-arquétipo.
Dessa forma, a pintura segue os valores tradicionais arraigados da Academia* e a composição estética retrata o evento da forma mais fidedigna possível aos fatos, atentando-se ao cenário e personagem,* fazendo uma releitura do movimento clássico que retomava os ideais greco-romanos: perfeição, harmonia, rigor e ordem.* O artista brasileiro aproximava seus trabalhos da produção europeia: sistematizando padrões de beleza utilizando racionalmente as formas e proporções geométricas* e repleta de detalhes.*http://www.fernandoboppre.net/wordpress/wp-content/uploads/2009/01/victormeirelles_aspartes_dc_fernandocboppre.pdf
Sabe-se que Meirelles parcelava sua pintura para melhor agir sobre ela, podendo focar nos detalhes de cada elemento do quadro, oferecendo volume e perspectiva. Seguindo a visão neoclássica, o catarinense baseava-se nas partes para posteriormente constituir o todo. Os estudos prévios anatômicos realizados pelo artista são refletidos na imagem por meio de uma representação verossímil do corpo de São João Batista.* Devido o seu grau de perfeição, quando professor, desenvolveu uma metodologia para desenhar: envolvendo representações geométricas das formas tradicionais (triângulo, retângulo, círculo, trapezoide, oval) que permitiam aos iniciantes brincarem com suas construções testando diferentes esquemas de composições, posições de cada componente na tela e escalas de cores.http://www.eba.ufrj.br/pintura/pesquisas/docentes/monique/2.pdf
É perceptível a idealização do traços na pintura em questão: corpo viril e expressão serena. Nesta obra em análise, há destaque para São João Batista com o uso de efeito luz e sombra. Em um estudo realizado acerca dos 26 anos em que Meirelles pintou, constatou-se que a grande maioria de suas obras, assim como esta, é uma ilustração de um indivíduo sozinho, em posições cotidianas, sem cenários, com a paleta de cores variando entre os tons terrosos e neutros, realçando os quesitos: perspectivas, anatomias, formas e sombras.*
Victor Meirelles O retratista, professor e pintor*https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/89850/247607.pdf?sequence=1&isAllowed=y Victor Meirelles de Lima nasceu em 18 de agosto de 1832 em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis em Santa Catarina, uma região calma, mas importante geograficamente pelo quesito fronteira.* Filho do comerciante português Antônio Meirelles de Lima e da brasileira Maria Conceição Prazeres, foi um artista acadêmico representante do neoclassicismo com alguns traços do romantismo que pintava sobre a história brasileira por meio de retratos de heróis e fatos famosos.* A favor da Monarquia, Meirelles viveu na transição entre este período e a República e manteve-se artista da corte até o fim do Império. Considera-se que o retratista teve 5 fases artísticas ao longo da vida relacionadas com o seu deslocamento físico: fase catarinense (1832-1846), escolar (1847-1853), Prêmio de Viagem (1853-1861), plenitude (1861-1890) e fase final (1890-1903). O professor catarinense faleceu aos 71 anos em 20 de fevereiro de 1903 no Rio de Janeiro, um domingo de carnaval, por motivos de saúde deixando a esposa Rosália, que veio a óbito no final do mesmo ano.
Vida artística Victor Meirelles, em 1843, iniciou seu estudo das línguas francês e latim com o padre Joaquim Gomes d'Oliveira, assim como de filosofia.* Em relação à arte, seu estudo começou em 1945, lecionado pelo engenheiro e imigrante argentino Marciano Moreno, que havia sido contratado por seus pais uma vez que a cidade natal não possuía escolas voltadas para as artes plásticas. O conteúdo se fundamentava sobre os desenhos geométricos.
Ainda menino, com apenas 14 anos de idade e gosto pela arte, enviou duas pinturas autorais à direção da Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) que foram selecionadas para a Exposição Geral da organização que ocorreu em dezembro de 1846. Com tal reconhecimento, o garoto foi convidado a estudar nesta famosa escola da época que reunia jovens promessas do universo das artes plásticas. Como a Academia ficava no Rio de Janeiro, ele se mudou para a cidade em 1847 com o apoio de alguns amigos da família e do Conselheiro Jerônimo Francisco Coelho que arcaram com as despesas da viagem* e matriculou-se na escola onde realizou os seus primeiros trabalhos acadêmicos. Lá suas obras passaram a ter caráter histórico visando à construção de uma identidade nacional.
Em 1849, Meirelles se inscreveu na matéria de pintura histórica a qual cursou por 3 anos tendo como mestre o pintor José Correia de Lima. Em 1852, o pintor concorreu ao 7º Prêmio de Viagem ao Exterior apresentando a obra em questão São João Batista no Cárcere, a qual lhe rendeu a vitória e o prêmio de uma viagem a Europa no ano seguinte subsidiada pelo governo brasileiro, decolando para a Itália em 10 de abril de 1853. Nos 8 anos que permaneceu no exterior, teve contato com Tommaso Minardi (1787-1871), Nicola Consoni (1814-1884) em Roma - onde permaneceu por quatro anos* - e Leon Cogniet (1794-1880), Andrea Gastaldi (1810-1889) em Paris por meio das aulas na École Superiéure des Beaux-Arts (Escola Superior de Belas Artes) - onde ficou até 1861.* Neste período em que o artista esteve na Europa, a pintura resumia-se em duas tendências: Neoclassicismo - retomada da arte greco-romana seguindo padrões de clareza, proporção e equilíbrio e Romantismo - ruptura com o racionalismo iluminista.
Influenciado, principalmente, pelo primeiro movimento, Victor Meirelles enviou ao Brasil trabalhos próprios de desenhos e pintura a óleo para comprovar sua aplicação nos estudos. Regressou à pátria em 1861 onde, após um ano, foi eleito professor de pintura histórica e paisagem da Academia. De 1869 a 1872, o artista fez dois quadros famosos Passagem de Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1872, expôs a Batalha dos Guararapes durante a Exposição Geral de Belas Artes. Tais obras citadas acima produzidas no regime de D. Pedro II reforçaram a ideia de uma identidade nacional. Por fim, em 1886, ele decide focar na pintura de panoramas pintando 3: O Panorama do Rio de Janeiro junto de H. Langerock, A Entrada da Esquadra legal no Porto do Rio de Janeiro e Descobrimento do Brasil, adotando no país uma modernidade relacionada às Exposições Universais.
Obras Dentre as obras de Victor Meirelles, incluem:
1846: Vista da face ocidental do Lago do Palácio da cidade do Desterro (aquarela sobre papel) 1856: Busto Clássico (carvão sobre papel); Academia masculina (grafite e crayon sobre papel); Degolação de São João Batista (óleo sobre tela); Flagelação de Cristo (óleo sobre tela) 1857-58: O Naufrágio da Medusa 1858: A Bacante (óleo sobre tela) 1860: Primeira Missa no Brasil (óleo sobre tela) 1864: Estudo para Questão Christie (óleo sobre tela) 1866: Moema (óleo sobre tela) 1868-70: Passagem de Humaitá (óleo sobre madeira) 1875: Juramento da Princesa Isabel (óleo sobre tela) 1879: Batalha dos Guararapes (óleo sobre tela) 1882-1883: Combate Naval do Riachuelo (óleo sobre tela)
Outros trabalhos Victor Meirelles também redigiu um texto “II Exposição Nacional” sobre a presença da fotografia no evento que ocorreu em 1866 na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro relato sobre esta máquina escrita no Brasil e, possivelmente, na língua portuguesa alega o importante papel da fotografia para as artes e ciências, estando a serviço destas.
O Museu Nacional de Belas Artes/IPHAN localizado no Rio de Janeiro conta com cerca de mil obras de Meirelles desde estudos realizados pelo pintor até seus desenhos sobre o papel e as pinturas.
O Museu Victor Meirelles foi aberto em 1952 no centro de Florianópolis,* após ser tombada como Patrimônio Histórico Nacional, no local que havia sido a moradia do catarinense. O pontapé inicial se deu durante a Semana de Arte Moderna de 1922 a fim de proteger e preservar patrimônios nacionais. Depois de 1994, o lugar tornou-se um centro cultural com diversos projetos como “Museu vai à escola/Escola vai ao Museu”, o qual diz respeito aos alunos de ensinos públicos. Atrelado ao Instituto Brasileiro de Museus do Ministério da Cultura, o estabelecimento persiste há mais de 55 anos expondo as coleções do artista assim como apresentações culturais no local com o cenário preservado da casa do artista construída entre os séculos XVIII e XIX.
Contexto histórico No contexto da Europa Ocidental, precederam o ano em que Victor Meirelles pintou São João Batista no Cárcere (1852):
Revolução Industrial na Inglaterra: movimento econômico iniciado ao final do século XVIII que se estendeu até 1840 o qual mostrou a força autônoma da tecnologia e criou uma massa de trabalhadores especializados em uma função e assalariados. No Brasil, a Revolução Industrial só ocorreu em 1930 durante a gestão de Getúlio Vargas. Revolução Francesa: movimento político de 1789 que envolveu desde as camadas mais vulneráveis à elite da sociedade seguindo os princípios iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. Publicação do Manifesto Comunista de Marx e Engels: em 1848 a doutrina socialista foi apresentada pelos sociólogos criticando o funcionamento capitalista e sugerindo uma revolução proletária.
Já no contexto do Brasil, precederam o ano em que Victor Meirelles pintou São João Batista no Cárcere (1852):
Independência do Brasil: proclamada por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822 no intuito de se reafirmar para os cidadãos brasileiros, já que a Monarquia estava perdendo forças. Constituição Brasileira de 1824: imposta pelo imperador aumentou o descontentamento da população em relação à Monarquia que somados a crises do açúcar e algodão fizeram D. Pedro I abdicar do trono e retornar para Portugal. Período Regencial: entre 1831 e 1840 com inúmeras rebeliões - Cabanagem no Pará, Balaiada no Maranhão, Farroupilha no Rio Grande do Sul, Sabinada e Malês na Bahia que exemplificam a instabilidade e insatisfação em relação ao governo. Segundo Reinado: com o golpe da maioridade em 1840, D. Pedro II assumiu o trono com a permanência de revoltas contra a corte, como a Revolução Praieira em Pernambuco.
Academia Imperial de Belas Artes
Criada em 1826 por Dom João VI e fundada por artistas franceses, a Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) marcou o desenvolvimento neoclássico no Brasil,* baseando-se na Academia Francesa.* Dessa forma, a influência iluminista objetivava civilizar a cidade por olhares europeus - tanto dos franceses quanto da elite monárquica portuguesa, ou seja, usar a arte com a função pedagógica por meio da criação de símbolos e alegorias.