Repolho é uma banda brasileira de Chapecó, estado de Santa Catarina, fundada por Demétrio e Roberto Panarotto em 1991. O trabalho segue na linha do rock alternativo, misturando referenciais de diferentes estilos da música popular e com forte ênfase em um humor escrachado, mas inteligente e questionador. Principalmente a ela deve-se a renovação da cena roqueira na região do oeste catarinense e a inserção de Santa Catarina no mapa do pop brasileiro. Sua formação mudou várias vezes nas partes de baixo e bateria, e sua produção inclui quatro álbuns, intitulados Repolho Volume 1, 2, 3 e 4, três demo-tapes, participação em coletâneas, alguns videoclips e um filme de curta-metragem. Um projeto paralelo, integrado pelos irmãos Panarotto e convidados especiais, produziu três CDs: 2Violão e 1Balde, Chamando Chuva e Parangolés ... ou Bergamotiando. A Repolho conquistou um grande público para um grupo alternativo e independente, e recebeu elogios entusiasmados de vários músicos e críticos de destaque no país.

História

A banda iniciou as suas atividades no ano de 1991 por iniciativa dos irmãos Demétrio e Roberto Panarotto, que se responsabilizavam pelos vocais e guitarra, com Paulo de Nadal ("Girino") no baixo e Anderson Birde Gambatto ("Passarinho") na bateria. Ao longo dos anos a banda mudaria sua composição várias vezes para cobrir as partes de baixo e bateria, permanecendo continuamente os irmãos Panarotto na liderança e na definição dos seus rumos estéticos. Na primeira metade da década de 90 foram gravadas três demo tapes: Chapô a Galeria em 1993, Repolho e a Horta da Alegria em 1994, e Campo e Lavôra em 1995.

O primeiro CD foi lançado em 1997, produzido por Marcelo Birck e Thomas Dreher, e intitulado Repolho Vol. 1, com a participação de Marcio Grobogopatel (Ultramen) e Luciano Zanatta. Logo após o baixista Girino se retirou, mudando-se para Curitiba. A mudança originou também uma certa reorientação no trabalho, abrindo-se a perspectiva de gravar músicas até então deixadas de lado. No segundo CD, Repolho Vol.2, gravado entre 1998 e 1999 e lançado em 2001, contou novamente com a produção de Marcelo Birck em treze das dezessete faixas, as outras quatro foram produzidas por Edu K. Participaram Flávio Basso (Júpiter Maçã), Bilu da Gaita e Eric Follmann. O Vol.2 foi bem recebido no eixo Rio-São Paulo e chamou a atenção para o rock catarinense.Britto, Marco. "Aumenta que isso é roque!". In: Zero — Informativo do Curso de Jornalismo da UFSC, 2004; XIX (5):15

Em 2004, a banda lançou um compacto duplo em vinil com quatro faixas temáticas, intitulado Sorria, Meu Bem!. No mesmo ano, os irmãos Panarotto lançaram um trabalho paralelo, o CD Banda Repolho Apresenta: Irmãos Panarotto em "2Violão e 1Balde", produzido por Birck, que se desviou um pouco do estilo a que estavam acostumados, apresentando uma proposta mais densa e investigativa e explorando com mais intensidade os recursos eletrônicos."Irmãos Panarotto Chamando chuva (Independente, 2012)". Disco Furado, 12/01/2013 O disco foi bastante elogiado, chegando a aparecer em algumas listas de melhores álbuns de 2004."Senhor F Discos distribui EP da banda Repolho". Terra, 18/05/2005 Hermano Vianna, em matéria na Revista Trip, declarou:

"Geralmente não gosto de música engraçada. É igual piada: não funciona na segunda audição. Daí meu espanto de já ter escutado este 2Violão e 1Balde várias vezes, compulsivamente, e ter chegado, sem mais nem menos, à conclusão seriíssima de que é um dos melhores discos da história do pop nacional. Diretamente de Chapecó, oeste profundo de Santa Catarina, os irmãos Panarotto desconstroem o punk, o iê-iê-iê, o funk carioca, o folclore gauchesco, tudo sob o comando da produção pós-eletroacústica do meu ídolo Marcelo Birck. O resultado: iluminação estética e eternas gargalhadas".Vianna, Hermano. "Piada de Bom Gosto". In: Revista Trip, 2004 (121)

Repolho Vol.3, produzido a partir de uma parceria entre os irmãos Dreher e os irmãos Panarotto, teve suas gravações iniciadas em 2004, sendo lançado em 2006, contando com a participação de Wander Wildner, Júpiter Maçã, Diego Medina, Leandro Blessmann e alguns dos integrantes das bandas Os Massa e Jeans. Michel Marcon e Ricardo Bellei, que entraram na banda entraram em 2001, fizeram o baixo e a bateria do Vol.3. De acordo com o portal Whiplash, que elogiou o grupo como "um dos mais cultuados e importantes da história do rock independente nacional", o Vol.3 se revelou o trabalho mais maduro e bem acabado até a data:

"Apesar dos grandes clássicos do Repolho — como "Juvenal", "Lilico" e "Paulo Balanço" — estarem nos primeiros trabalhos, as canções de Vol. 3 mantém um nível elevado do início ao fim. Se pode notar desde influências da poesia concreta & tropicalismo (como em "Ah! É!" com suas referência ao Tom Zé, entre outras), mangue beat (em "Dotô Paxeco"), punk (com Wander Wildner em Os desafinados também amam e em todo o espírito independente de 'faça você mesmo'), benga music (em "Benga na Alemanha"), vinhetas comerciais de brinquedos antigos (em "Lá Lé Li Ló Lú") e, claro, o bom e velho (e velho, e velho, e velho) Róque Em Rou. Um destaque é "Em Etapu", composição cascavellética exclusiva de Flávio Basso".

As gravações do Repolho Vol.4 começaram em 2007 em Porto Alegre, em parceria com Osmarmotta, banda que também participou em algumas faixas e assinou a gravação e mixagem. A masterização ficou por conta de Thomas Dreher. Contém regravações e quatro músicas novas. O disco foi lançado em 2009, sendo considerado por Marcos Espíndola, do Clic RBS, como um trabalho "que subverte o preconceito com relação ao conceito de 'tosquice'. É o suprassumo da sempre bem-vinda irreverência de uma das mais conscientes bandas independentes do país".Espíndola, Marcos. "Pura explosão". Clic RBS, 19/10/2009 Alexandre Matias, jornalista e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte, uniu-se a Espíndola nos elogios, considerando o Vol.4 "um dos melhores discos de 2009".Matias, Alexandre. "Ópera Rock Colona". Trabalho Sujo, 22/10/2009

Neste ínterim, em 2008 surgiu um curta-metragem, Tchuco, Baúco e Sporcatione, produzido pela Vinil Filmes, com direção de Chico Caprario e edição de Marco Martins, mostrando uma viagem dos irmãos Panarotto por vários países da Europa, fazendo esquetes. Com 16 minutos de duração, estreou em 30 de janeiro em Florianópolis.Alão, Alícia. "Curta Tchuco, Baúco e Sporcatione estréia hoje na Capital". Frente em Defesa da Cultura Catarinense, 30/01/2008"Estréia hoje o filme 'Tchuco, Baúco e Sporcatione', dos Irmãos Panarotto". Senhor F, s/d. A produtora apresentou o filme humoristicamente, de acordo com seu conteúdo, como "Muito mais do que uma viagem. Um filme. Uma grande produção, gravada em vídeo, fitas recicláveis, câmera amador, em cenários naturais respeitando todas as falhas possíveis e inimagináveis. Dois irmãos que se encontram em uma estação de trem fantasma. Só o tempo poderá explicar".Vinil Filmes. Trailer Tchuco Baúco e Sporcatione, 18/01/2008 Segundo Demétrio Panarotto, "usamos as músicas para dialogar com as imagens, é mais do que um videoclipe. É uma experimentação de linguagens, do cinema com a música e desta com a literatura, a publicidade, o texto. Está tudo vinculado a uma estrutura, uma não é mera ilustração da outra".

Em 2011 o site Os Armênios relançou a discografia completa,"Repolho: "Vol.3" é relançado para download". Whiplash, 15/08/2011 e seus 20 anos de carreira foram comemorados em show promovido pela Unochapecó, dentro do projeto Unocultural – Ano 2."Evento ocorre neste sábado, em comemoração aos 20 anos de grupo". Unochapecó, 17/11/2011 No ano seguinte os irmãos Panarotto lançaram outro trabalho paralelo, Chamando Chuva, que havia sido gravado em Porto Alegre em janeiro de 2010, com produção de Birck. Tem canções curtas e se desenvolve na mesma linha de 2Violão e 1Balde. Em 2018 surgiu Parangolés, bricolagens e outras criatividades que aprendemos nas aulas de arte ou Bergamotiando, CD dos Irmãos Panarotto lançado pelo 180 Selo Fonográfico.Frantz, Ricardo. "Parangolés - Novo disco dos Irmãos Panarotto". Tetraktys, Wikidot, dez/2018

Obra

A música tem uma base de rock/pop rock, com acréscimo de regionalismos, elementos experimentais e de outras vertentes populares, com apresentações performáticas onde o humor é uma constante, um humor que Eduardo Ferreira, escrevendo para o portal Cidadão Cultura, qualificou de "cáustico e exagerado, quase trash, inventivo e extremamente indócil. [...] Os caras escracham pra valer, com singular maestria". Ferreira, Eduardo. "Demétrio Panarotto de Santa Catarina é cidadão cultura". Cidadão Cultura, 02/09/2016 Suas letras são repletas de piadas, trocadilhos, quebras de continuidade, nonsense, surpresas, significados dúbios, expressões idiomáticas típicas de Chapecó e das colônias rurais catarinenses, em geral enfatizando a irreverência, mas também muitas vezes fazendo uma crítica social e de costumes, que nem sempre é percebida imediatamente entre tanto humor. Ao cantar não raro carregam propositalmente no sotaque regional, que tem forte influência dos colonizadores italianos.Spessatto, Marizzet Bortolanza. Marcas da história: características dialetais dos imigrantes italianos na fala Chapecó. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina, 2001, pp. 10-11"O maravilhoso legado da banda Repolho". Mundo 47, 07/04/2010"Faixa Bônus". Correio do Povo, 20/11/2013 Por outro lado, não hesitam apresentar em alguns momentos uma veia romântica, em geral exagerada e de caráter brega, explorando a tradição das músicas de "dor-de-cotovelo", sem que isso anule a autenticidade do sentimento.Mendes, Marcelo. "No Embalo do Helicóptero". In: Elebue, 2010; (50)

Em entrevista para Fernando Rosa, editor da Senhor F, que considerou seus discos "uma espécie de crônica de Chapecó", Roberto Panarotto descreveu o pano de fundo que alimenta sua estética:

"A gente define isso, que tu chamou de crônica, como 'colonagem cibernética'. As novas tecnologias sempre aliadas ao dia-a-dia de uma cidade do interior. E se for pensar que Chapecó é interior de Santa Catarina, e que Santa Catarina é interior do Brasil, e o Brasil é uma espécie de interior do mundo, vivemos num eterno interior. Tem os que assumem de verdade a estética da 'colonagem cibernética' ou então as 'crônicas interioranas' e tem os que renegam isso. Temos a consciência que no fundo somos todos 'colonos' querendo parecer 'gente grande'. E não que ser 'gente grande' seja melhor do que ser 'colono'. A 'Colonagem Cibernética' é um equilíbrio dos dois. Um nirvana rural espiritual. Acho que, neste momento, devido as circunstâncias, é inevitável a citação de Star Wars; mas, quem sabe, esse equilíbrio, a que me refiro, vem da força das grandes capitais na relação com a força que vem do 'interior'."

Demétrio Panarotto acrescentou:

"Vale lembrar que alguns escritores consagrados eternizaram cidades fictícias. Nós não precisamos criar uma ficção, pois a realidade (da nossa cidade) nos dá todos os subsídios! E se engana quem pensa que a 'crônica' é apenas de uma cidade do interior. É muito mais do que isso, ou seja, uma 'crônica' do Brasil através do olhar de uma cidade interiorana. E, é claro que as músicas [...] revelam situações e histórias não apenas locais. Mas deixa no folclore prá não magoar ninguém. [...] Estamos deslocados histórica e geograficamente, mas nem por isso estamos deslocados das coisas que estão acontecendo no mundo. Reafirmamos novamente, é a brincadeira da 'Colonagem Cibernética': independente da onde nós estivermos, procuramos nos conectar com o mundo. E, talvez (de novo) seja por isso que a nossa relação com esses centros citados se estabeleça a partir de um grande respeito. Respeitamos todas as informações (nem por isso aceitamos todas), processamos e as devolvemos a partir desta ótica deslocada em forma daquilo que consideramos música".