Um ano é uma unidade de tempo que, em seu sentido mais comum, acompanha a volta da Terra em torno do Sol e a repetição das estações. O ano civil, usado para ordenar datas no calendário, tem 365 dias nos anos comuns e 366 nos anos bissextos. Esse ajuste mantém o calendário próximo do ciclo natural, que não contém um número inteiro de dias.A fração que sobra a cada ano se acumula. Sem dias bissextos, as datas se afastariam pouco a pouco das estações.
Na astronomia, a duração depende do ponto usado como referência, e o ano trópico segue o ciclo das estações, com cerca de 365 dias e 6 horas. O ano sideral mede a órbita terrestre em relação às estrelas e é cerca de 20 minutos mais longo.A Terra completa o mesmo movimento, mas a duração medida muda porque o equinócio e as estrelas não permanecem alinhados entre si. Outras definições acompanham o periélio, os nodos da órbita da Lua ou o reaparecimento de uma estrela no céu.
A inclinação axial da Terra faz com que a luz solar e a duração do dia mudem no decorrer do ano. Em regiões temperadas e subárticas, esse ciclo costuma ser dividido em primavera, verão, outono e inverno. Nos trópicos sazonais, a divisão mais perceptível ocorre entre a estação das chuvas e a estação seca.
A mesma palavra também designa doze ciclos das fases da Lua, períodos fiscais e letivos, ciclos sazonais dos seres vivos e a órbita de outros astros. Um ano em Marte, por exemplo, dura aproximadamente 1,88 ano terrestre. Em escalas muito maiores, nomes como Grande Ano e ano galáctico designam ciclos de milhares ou milhões de anos.
Ano, órbita e estações
miniatura|esquerda|upright=1.15|alt=Animação da Terra em pontos sucessivos de sua órbita, com o eixo inclinado na mesma direção.|Durante a órbita da Terra, a inclinação de seu eixo faz cada hemisfério receber quantidades diferentes de luz ao longo do ano.
Como a Terra completa uma volta em torno do Sol em pouco mais de 365 dias, sem que essa duração corresponda a um número inteiro de dias, um calendário solar precisa aproximar o ciclo contínuo usando dias inteiros. Ajustes periódicos, como os anos bissextos, compensam a fração que sobra.
Enquanto a Terra percorre sua órbita, seu eixo de rotação permanece inclinado cerca de 23° em relação ao plano orbital. Essa inclinação muda a duração da iluminação e o ângulo com que a luz solar chega a cada hemisfério no decorrer do ano. O mesmo solstício inicia o verão em um hemisfério e o inverno no outro, e os equinócios ficam entre esses extremos.
Como solstícios e equinócios correspondem a posições específicas do percurso anual, o retorno das estações pode ser acompanhado por um intervalo médio chamado ano trópico. Uma medição feita em relação às estrelas produz o ano sideral, ligeiramente mais longo, e outras referências dão origem a outras definições astronômicas de ano.
Etimologia miniatura|upright=0.85|alt=Inscrição latina com as palavras Foelix Hic Novus Annus.|A palavra latina annus está na origem de "ano" e de termos como "anual" e "aniversário". A palavra portuguesa ano vem do latim annus, termo que tem cognatos como o gótico aþn, documentado no dativo plural aþnam, e é relacionado à forma protoindo-europeia reconstruída *h₂et-no-.O asterisco antes de uma palavra antiga informa que ela foi reconstruída pelos linguistas e não foi encontrada diretamente em um texto. Na gramática latina, annus é um substantivo masculino da segunda declinação. Annum é o acusativo singular, annī pode ser o genitivo singular ou o nominativo plural, e annō pode ser o dativo ou o ablativo singular.
Outra família antiga parte da palavra grega , "ano", cognata do latim vetus, "velho", e da forma protoindo-europeia reconstruída *wetos-. A ela pertencem o sânscrito vatsara, "ano", e vatsa, "bezerro", o latim vitulus, também "bezerro", e o inglês wether, "carneiro castrado".
Em muitas línguas, os anos podem ser contados por estações, com expressões equivalentes a "verões", "invernos" ou "colheitas". O caractere chinês 年, "ano", tinha originalmente o sentido de "colheita", e suas formas antigas combinam a imagem do cereal com a de uma pessoa carregando a colheita. Nas línguas germânicas, os anos também foram contados por invernos. Nas línguas eslavas, formas derivadas de lěto, "verão", podem significar anos, ao lado de palavras derivadas de godŭ, "período de tempo".
O ano na Antiguidade
Calendários egípcios e Tales miniatura|esquerda|upright=0.75|alt=Inscrição em pedra com colunas de hieróglifos e números de dias.|O calendário egípcio dividia o ano em doze meses de trinta dias e cinco dias suplementares. No Antigo Egito, o ano civil tinha 365 dias, repartidos em doze meses de trinta dias e cinco dias suplementares. Essa organização acompanhava a cheia, o crescimento das plantas e a colheita, mas não acrescentava regularmente a fração de quase um quarto de dia que falta para completar o ano solar. Por isso, as datas do calendário se deslocavam pouco a pouco em relação às estações.
Diógenes Laércio atribuiu a Tales de Mileto a determinação do percurso do Sol entre os solstícios e a divisão do ano em 365 dias. Tradução de R. D. Hicks, livro I, seções 24 e 27. Como os egípcios já usavam um ano de 365 dias, não se sabe qual método Tales teria empregado para chegar a esse valor, e a ideia de que o tenha aprendido no Egito permanece uma hipótese.
Sólon e a contagem dos meses miniatura|upright=0.7|alt=Busto de mármore de um homem barbado, com o nome Sólon na base.|As regras atribuídas a Sólon organizavam a contagem do mês lunar ateniense, não a duração do ano solar. Os relatos sobre Sólon tratam da maneira como os meses eram contados em Atenas, e não de uma medição do ano solar. Diógenes Laércio atribuiu a ele a adoção do mês lunar pelos atenienses. Tradução de R. D. Hicks, livro I, seções 58–59. Plutarco atribuiu a Sólon o nome "Velho e Novo" para o dia de passagem entre dois meses, associado à conjunção do Sol e da Lua. Em seu relato, o dia seguinte iniciava o novo mês, enquanto os últimos dias do mês anterior eram contados de trás para a frente. Tradução de Bernadotte Perrin, seção 25.3–4.
Como doze meses lunares não completam um ano solar, os calendários lunissolares precisavam acrescentar periodicamente um mês extra. No século V a.C., Meton usou a aproximação de 235 meses lunares para dezenove anos solares, relação que ficou conhecida como ciclo metônico.
Hiparco e a duração do ano trópico miniatura|esquerda|upright=0.65|alt=Gravura de um astrônomo sentado junto a instrumentos e uma esfera armilar.|Hiparco comparou observações de equinócios e solstícios para calcular a duração do ano trópico. No século II a.C., Hiparco comparou dois retornos diferentes do Sol, um à mesma posição em relação às estrelas e outro ao equinócio. Esses intervalos correspondem ao ano sideral e ao ano trópico, e seus cálculos estavam relacionados à descoberta da precessão dos equinócios.
Para o ano trópico, Hiparco usou 365¼ dias menos 1/300 de dia, o equivalente a 365 dias, 5 horas, 55 minutos e 12 segundos.Um quarto de dia corresponde a seis horas. A subtração de 1/300 de dia reduz esse total em 4 minutos e 48 segundos. Ele podia comparar esse valor com suas próprias medições de equinócios e solstícios e com observações anteriores atribuídas a Aristarco e Meton. Noel Swerdlow propôs que o valor tenha sido obtido primeiro a partir de dados babilônicos e depois comparado com as observações gregas.
Calendários e ajuste do ano
Para transformar ciclos astronômicos em datas, um calendário precisa trabalhar com dias inteiros mesmo que o ano solar não termine depois de um número inteiro de dias ou de meses lunares.Uma volta da Terra ao redor do Sol e um ciclo de fases da Lua terminam entre duas mudanças de data, não exatamente à meia-noite. A intercalação acrescenta dias ou meses em determinados momentos para impedir que o calendário se afaste do ciclo que procura acompanhar.
Ano civil
miniatura|alt=Agenda aberta no dia 29 de fevereiro de 2008, seguido pelo dia 1 de março.|O 29 de fevereiro mantém o ano civil próximo do ciclo das estações sem alterar a duração dos demais meses.
Um ano civil organiza os dias dentro de um calendário e, nos calendários solares, procura ficar próximo da duração da órbita da Terra. Os calendários gregoriano, juliano e persa usam anos comuns de 365 dias e anos bissextos de 366. No calendário gregoriano, 97 anos de cada ciclo de 400 são bissextos, o que dá uma média de 365,2425 dias.Esse número é a média de um ciclo completo de 400 anos. Nenhum ano civil isolado tem 365,2425 dias.
Nos calendários lunissolares, usados tradicionalmente em partes da Ásia, doze meses lunares formam a base do ano, mas um décimo terceiro mês é acrescentado aproximadamente a cada três anos para manter o calendário próximo do ciclo solar. O calendário islâmico, por sua vez, tem sempre doze meses lunares e não tenta acompanhar o ano solar.
Início e fim do ano Um ano de calendário precisa de uma primeira data para que os dias possam ser ordenados dentro dele, e essa escolha depende do calendário usado. No calendário gregoriano, cada ano começa em 1.º de janeiro e termina em 31 de dezembro. Na tradição juliana, Júlio César também fixou 1.º de janeiro como início do ano, embora 1.º de março, 25 de março e 25 de dezembro tenham sido usados em diferentes épocas e lugares da Europa.
No calendário persa, o Noruz abre o ano no dia determinado pelo equinócio de março. A palavra "ano" pode, por isso, indicar um intervalo de duração parecida mesmo quando a data que separa um ano do seguinte não é a mesma.
Calendário juliano miniatura|upright=0.75|alt=Busto de mármore de Júlio César.|A reforma atribuída a Júlio César estabeleceu um ciclo regular de três anos comuns e um bissexto. No calendário juliano, três anos comuns de 365 dias são seguidos por um ano bissexto de 366, de modo que a duração média do ano é de 365,25 dias. O dia extra entra em fevereiro e recebe o nome de dia bissexto.
Calendário juliano revisado miniatura|upright=1.1|alt=Gráfico com as datas do equinócio de março no calendário juliano revisado durante milênios.|A regra de intercalação do calendário juliano revisado mantém o equinócio de março perto das mesmas datas por milhares de anos. O calendário juliano revisado, proposto em 1923 e adotado por algumas igrejas ortodoxas, distribui 218 anos bissextos em cada período de 900 anos. A média resultante é de 365,2422222 dias, muito próxima dos 365,24219 dias do ano trópico médio perto da época 2000, com erro relativo de cerca de 9 × 10−8.A notação 9 × 10−8 equivale a cerca de nove partes em cem milhões. A partir de 2800, os calendários gregoriano e juliano revisado passarão a diferir por um dia.
Calendário gregoriano miniatura|esquerda|upright=0.8|alt=Primeira página da bula Inter gravissimas, com texto latino e uma inicial ornamentada.|A reforma gregoriana alterou a regra dos anos bissextos para reduzir o deslocamento do calendário em relação ao equinócio de março. O calendário gregoriano foi ajustado para manter o equinócio de março em 21 de março ou pouco antes, acompanhando de perto o intervalo entre equinócios de março sucessivos. Como 97 de cada 400 anos são bissextos, seu ano médio tem 365,2425 dias. Perto da época 2000, essa média difere do ano trópico médio de 365,242189 dias em menos de uma parte por milhão, cerca de 9 × 10−7.Uma parte por milhão é a diferença de uma unidade em um milhão, equivalente a 0,0001%. A aproximação é ainda mais próxima do ano entre equinócios de março, com cerca de 365,242374 dias.
Em Portugal, Filipe I promulgou em 20 de setembro de 1582 a lei de adoção do calendário gregoriano.
Outros calendários
miniatura|upright=1.15|alt=Diagrama circular dos dezenove anos do ciclo metônico, com sete anos de treze meses.|O ciclo metônico distribui sete meses intercalares em dezenove anos para aproximar os ciclos lunar e solar.