thumb|upright=1.2|Cupido e PsiquêGalleria degli UffiziCópia romana de um original helenístico A história do amor na Roma Antiga apresenta uma característica ambígua, pois os romanos, que se auto-intitulavam conquistadores do mundo e que demonstrava geralmente uma natureza séria, dissimulava em si um vasto sentimento de ternura, mais exigente do que eles mesmos permitiriam confessar. Esse amor estava presente em suas lendas, na sua religião e em suas relações conjugais e extraconjugais.

Etimologia

O termo amor vem do verbo no infinitivo amare, que em latim significa ser o amante ou a amante de alguém Grimal, 2005: 138.. Esse verbo “amar” vem de "gostar de”, do indo-europeu AM-A-, que gerou palavras relacionadas ao crescimento de uma criança pequena, como “mãe”, “mamar”, “mama”, etc.

O amor nas lendas thumb|left|upright=1.0|Altar com Rômulo e Remo sendo amamentados pela loba A história da cidade de Roma, segundo suas lendas, começa com um romance. Segundo Virgílio, na montanha Ida, na Frígia, distante da península Itálica, Afrodite, a deusa grega do amor, teria se apaixonado por Anquises, sobrinho do rei de Troia Virgílio, 2002: 72.. Utilizando-se de suas artimanhas sedutoras, a deusa, na figura de uma mortal, une-se ao homem. Satisfeita, a deusa revela sua identidade a anuncia que lhe dará um filho. Esse semideus, seria conhecido como Eneias, um dos sobreviventes da Queda de Troia, que partiria em viagem por um novo lar, carregando seu pai idoso nos ombros, junto com seu filho e outras pessoas da cidade. Eles chegam ao Lácio e o filho de Eneias, Ascânio, sobe o rio Tibre e funda a cidade de Alba Longa.

Séculos posteriores, outro caso de amor foi fundamental para o nascimento de Roma segundo as lendas. Reia Sílvia era filha do rei de Alba Longa, Numitor. Porém, esse rei foi destronado pelo irmão, Amúlio, que condenou a jovem sobrinha à virgindade de uma sacerdotisa vestal, o que apagaria a linhagem do rei legítimo Grimal, 2011: 10.. Entretanto, apesar dessa preocupação, o destino quis que Reia conhecesse o amor. O deus da guerra, Marte, a teria visto às margens de um rio e se apaixonara pela jovem. Dessa união, nasceriam dois gêmeos, Rômulo e Remo.

Rapto das Sabinas

thumb|upright=1.2|O Rapto das SabinasGiambolognaLoggia dei Lanzi, Florença Rômulo fundara a cidade de Roma, mas uma cidade precisava de habitantes e também prosperarOs principais relatos sobre esses acontecimentos lendários está em Tito Lívio, História de Roma, livro I, 10 e em Plutarco, Vida de Rômulo.. Na região vizinha, havia aldeias com mulheres livres, mas os pais delas não se mostraram desejosos em concedê-las em casamento a esses recém chegados, cujo passado era inquietante e não possuíam nomes conhecidos. Rômulo e seus companheiros tiveram então que se utilizar da violência para ter esposas. Convidaram os habitantes das aldeias próximas para assistirem aos jogos em honra aos deuses, que se realizariam na cidade. Com elas distraídas, os companheiros de Rômulo puderam raptar todas as moças presentes e as arrastaram a força. Os pais, quando se deram conta do feito, tiveram que regressar às suas casas para preparar a vingança, pois tinham ido ao evento desarmados Grimal, 2005: 30.. As filhas permaneceram em Roma, onde foram distribuídas entre os principais cidadãos. Rômulo interveio, as sabinas não seriam consideradas como escravas, mas sim como legítimas esposas e esperava-se que elas aceitassem a união voluntariamente. Receberiam todas as honras e os privilégios possíveis, seriam poupadas de qualquer trabalho servil, não teriam outra tarefa além de cuidarem dos filhos e fiarem a lã. Segundo os relatos (que parecem ser duvidosos), elas não resistiram a essa mistura de eloquência e ternura, e se acalmaram.

Houve uma guerra entre romanos e os pais das sabinas raptadas. Mas foram as próprias moças que intervieram em favor de uma trégua entre os pais e os recentes maridos Grimal, 2011: 25-26.. A trégua que se estabeleceu seguiu um tratado formal. Os dois povos se uniram em um só, transferindo o poder para Roma.

Lucrécia

thumb|upright=1.2|esquerda|O Suicídio de LucréciaJörg Breu, o Velho, 1528 Há ainda mais uma lenda amorosa na Roma Monárquica. Tito Lívio relata que Sexto Tarquínio, filho do rei Tarquínio, o Soberbo, encontrava-se no acampamento militar com outros jovens nobres e discutiam sobre as virtudes das esposas que tinham deixado em casa Grimal,2005: 37.. Decidiram voltar à cidade e espioná-las para saber qual era a mais virtuosa então. A esposa do príncipe se encontrava em casa dando uma festa com as amigas Grimal, 2011: 33.. Somente a esposa de Lúcio Tarquínio Colatino, Lucrécia, encontrava-se sozinha em casa fiando a lã entre suas servas. Na visão dos romanos dos primeiros tempos, muito conservadores, a esposa ideal era a dona de casa e mãe exemplar, uma matrona. Sexto Tarquínio, invejoso e vingativo, decide então violar a jovem Lucrécia à força. Ela envia mensagens ao pai e ao marido depois do ocorrido e conta-lhes a história de sua desonra. Desesperada, ela enfia uma faca no próprio coração Grimal, 2005: 38..

O povo romano, indignado com esta violência, depôs o rei Grimal, 2011: 34., criando a República. A violação de Lucrécia não foi a causa acidental para a expulsão dos reis, mas esta ocorreu na verdade por causa de um poder monárquico sem limites, que fazia com que os reis se sentissem acima das leis, e o que cada um tem mais de sagrado, o amor da sua mulher e a santidade do lar. Mas a história de Lucrécia tem um significado. A jovem, símbolo da fidelidade conjugal, recusa a ouvir a voz do pai e do marido, que desculpam o que ela chama de "sua falta". O seu corpo fora desonrado, o seu sangue, manchado Grimal, 2005: 39.. Para a visão dos romanos, este corpo deveria perecer, ainda que a alma fosse pura. Lucrécia se torna a partir de então, pela honra de sua pudicícia, o ideal máximo de virtude feminina em Roma.

O amor em Vênus thumb|upright=1.2|VênusIvan Vitali, Museu Estatal Russo, São Petersburgo Para os romanos, a deusa Vênus personificava a sedução feminina, simbolizava o poder misterioso, religioso e mágico que habitava na pessoa e no corpo da mulher. A deusa possuía atribuições equivalentes às de Afrodite no panteão grego, mas para os romanos Vênus significava “nascida da espuma do mar” Grimal, 2005: 48.. Mitologicamente, ela nasceu em uma concha. Em outra versão, é filha de Júpiter e Dione, considerada esposa de Vulcano Grimal, 2005: 49., o deus manco das forjas, mas mantinha uma relação amorosa com Marte, e, por ter nascido das espumas do mar, havia quem acreditasse que esta também era uma deusa dos mares e da navegação.

Era uma divindade considerada inquietante e durante um longo período, a Roma dos primeiros tempos não lhe tinha dedicado nenhum templo. Os patrícios, preocupados em manter a ordem e os bons costumes, olhavam com suspeitas para essa deusa geradora de perturbações e paixão Grimal, 2005: 50.. Vênus era perigosa e os magistrados encarregados de fiscalizar a religião estavam convencidos disso. O primeiro templo que lhe é dedicado na cidade, em 295 a.C., foi construído para impedir uma possível cólera da deusa.

Vênus tendia a ser patrona de tudo o que é feliz, luxuriante e jovem. Os romanos consagraram à deusa o mês de abril, aquele em que se inicia a primavera Grimal, 2005: 54.. Realizavam também a consagração dos seus templos e a sua festa anual nos dias das "Vinalia", que eram, ao mesmo tempo, os da festa do vinho. No , Vênus tinha inúmeros fiéis que lhe pediam o sucesso em vários empreendimentos, não somente no amor, mas também nos jogos, nos negócios e no exército. A proteção de Vênus representava uma garantia de felicidade e sucesso, motivo pelo qual Júlio César a adotara como progenitora da gente (família) dos Júlios Grimal, 2005: 55.. Graças a proteção da deusa, César trazia para Roma a certeza de felicidade. Por isso, antes de ter se apoderado do poder, decidira criar um templo no centro de seu novo fórum, para aquela a quem chamava de mãe.

Vênus já não era apenas um símbolo carnal, mas reconhecida como um princípio cósmico, gerador de vida. Ela transforma-se na própria natureza, na doçura de viver e de amar. O poder de Vênus sobre as pessoas, no Império Romano, tornava-se cada vez maior Grimal, 2005: 57.. Segundo Pierre Grimal, o amor já não era apenas uma lei da vida, era uma promessa, uma garantia de imortalidade. A divinização do amor não é fruto da imaginação humana, mas uma convicção profunda de muitas pessoas. Assim canta o poeta Tibulo:

Amor e sexualidade

thumb|left|upright=1.2|Imagem de um falo. A inscrição significa: "Aqui mora a felicidade." O tema da sexualidade foi primeiro abordado por Michel Foucault, que problematiza essa questão confrontando-a com a moral contemporânea. De acordo com o contexto social do mundo moderno, o papel do homem e da mulher na sociedade seria paralelo aos papéis dos dois gêneros no mundo greco-romano. Neste caso, os gêneros não são caracterizados em um aspecto biológico, mas sim pelo caráter social Blanshaard, 2007: 328.. Para os estudiosos de cultura contemporânea, o sexo não seria uma ação natural, e sim uma construção de cada época. Portanto, significa que o conceito de sexo muda de acordo com a convenção de cada sociedade. Sendo assim, o que é convenção seria considerado natural e adequado porque assim como "praticamente toda configuração imaginável de prazer pode ser institucionalizada como convenção." WINKLER, 1990: 171

Para os estudos de sexualidade na Roma antiga, os historiadores se juntam a estudiosos de outras áreas como a Arqueologia e a Antropologia para analisar os grafites e afrescos encontrados no sítio arqueológico de Pompeia - que eram manifestações populares feitas nas paredes da cidade SANFELICE, 2010: 174. - devido ao fato desse tipo de fonte ser a única disponível aos pesquisadores para os estudos dessa áreaSANFELICE,2010: 167-190. .

Um aspecto importante para o estudo da sexualidade em Roma é a ligação entre o sexo e a religião. Um exemplo dessa ligação é a origem dos deuses que geralmente nascem do casamento e do ato sexual entre outros deuses. Essa também é a origem dos fundadores da cidade de Roma, Rômulo e Remo. Um outro exemplo disso é a representação do falo, símbolo amplamente encontrado em escavações feitas em imagens e objetos, que, na visão dos romanos, é um símbolo relacionado à fertilidade e procriação, portanto era usado em amuletos para boa sorte e contra maus espíritosSANFELICE, 2010: 172..

thumb|rigth|upright=1.2|Afresco em Pompeia Os grafites encontrados em Pompeia tratam dos mais variados temas como menções a práticas sexuais, declarações de amor, manifestação de ciúmes etc.. Como os documentos escritos encontrados se referem mais a assuntos oficiais como política, economia e guerra, essas manifestações são as principais fontes disponíveis para os estudos de assuntos do cotidiano romano, como a própria sexualidadeSANFELICE, 2010: 168.. Porém, esses grafites se encontram em locais nos quais qualquer um poderia vê-los, portanto, é possível considerar a sexualidade como um fenômeno cultural e não apenas restrito à esfera da vida separada, mas sim parte de todas as outras esferas como a política, religião ou a economia SANFELICE, 2010: 176.

De acordo com Pedro Paulo Funari, Júlio César era um exemplo sobre isso: ele era considerado um grande conquistador de mulheres, teve duas esposas, Cornélia e Pompeia, e teve amantes conhecidas, como Servília e Cleópatra. O mesmo César, contudo, tinha a fama de ser "esposa de todos os homens e marido de todas as mulheres" Funari, 2002: 88.. Seria mais apropriado considerar que o condenável na sociedade romana era o fato de fazer-se passar por alguém do outro sexo, e não o de manter relações com pessoas do mesmo sexo, seja de forma ativa ou passiva.

Amor e casamento