Manuel José de Araújo Porto-Alegre,Pela grafia original do nome, Manoel Joze de Araujo Porto-alegre. primeiro e único barão de Santo Ângelo (Rio Pardo, 29 de novembro de 1806 – Lisboa, 30 de dezembro de 1879), foi um escritor, político, jornalista, pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor e diplomata brasileiro.
Um dos mais expressivos e versáteis intelectuais brasileiros dos meados do século XIX, viu-se colocado entre a memória da colônia e a emergência do império independente, e dividido entre o débito cultural para com a Europa e a necessidade de cultivar a brasilidade. No plano estético, tendo recebido uma formação neoclássica, abriu-se para outras influências e se tornou um dos primeiros românticos brasileiros. Compartilhou dos pensamentos e anseios de um influente grupo de intelectuais e políticos agregados em torno do imperador e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que estavam redesenhando o projeto da nação e concebendo meios de fazê-la progredir. Neste projeto, a reinterpretação da história nacional e o cultivo das artes e ofícios teriam um papel de relevo.
Porto-Alegre transitou nos mais altos escalões e foi uma figura ativa nessa evolução política, cultural e institucional como teórico, articulista, organizador, administrador, pesquisador e professor. Discípulo favorito de Debret (um dos principais membros da Missão Artística Francesa), foi uma das figuras centrais na conceituação e estabilização do sistema de ensino artístico acadêmico, sendo professor e diretor da Academia Imperial de Belas Artes. Em sua produção destaca-se sua volumosa obra escrita, contemplando vários campos, incluindo literatura, filosofia, história, teologia, linguística, arqueologia e belas artes. Também deixou um pequeno legado em pintura e projetou alguns edifícios.
Biografia Era filho do comerciante Francisco José de Araújo e de Francisca Antônia Viana. Seu nome de batismo era Manuel José de Araújo, modificado para Pitangueira por espírito nativista, quando da Independência e, mais tarde, chegando à forma definitiva: Manuel de Araújo Porto-Alegre.<ref>Alguns biógrafos utilizam a grafia Manuel de Araújo Porto-alegre.</ref> Perdeu o pai com cinco anos, e sua mãe casou com o comerciante Antônio José Teixeira de Macedo, que providenciou a primeira educação do menino. Aprendeu latim, francês, filosofia, geometria e álgebra. Começou a trabalhar como ourives, onde logo se destacou pelo seu refinado gosto artístico.Porto-Alegre, Achylles. Homens Illustres do Rio Grande do Sul. Livraria Selbach, Porto Alegre, 1917.
Porto-Alegre estudou pintura inicialmente com o francês François Thér e com os cenógrafos Manuel José Gentil e João de Deus. Mudou para o Rio de Janeiro em janeiro de 1827, para matricular-se na Real Academia Militar. Estando, porém, a escola fechada, em férias, e como tinha noções de pintura e desenho, matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes, na qual foi aluno de Jean Baptiste Debret. Estudou filosofia com o padre Francisco José Policarpo, anatomia e a fisiologia com o Dr. Cláudio Luís da Costa, e dissecou no Hospital de Santa Clara para o estudo do corpo humano. Em 1830 recebeu prêmios em pintura, arquitetura e escultura no primeiro Salão oficial da Academia. Um retrato que havia feito do imperador causou tão boa impressão que Porto-Alegre foi requisitado para retratar todos o membros da família imperial, mas a encomenda foi abortada pela abdicação de D. Pedro em abril de 1831.
Em 25 de julho de 1831, graças a uma subscrição de Evaristo da Veiga, do senador Soledade e outros amigos, Porto-Alegre viajou para Paris, em companhia de seu mestre Debret, que deixava definitivamente o Brasil. Na Europa, estudou na Escola de Belas Artes de Paris. Foi aluno de Antoine-Jean Gros em pintura histórica e de François Debret em arquitetura.Cavalcanti, Nireu Oliveira. "Araújo Porto Alegre e o patrimônio arquitetônico do Rio De Janeiro". In: Museologia e Patrimônio, 2008; I (1) Em 1833 obteve a 3ª Medalha no Salão da Escola, mas passou privações quando seu principal financiador quebrou, tendo que deixar a aula de Gros e as lições de modelo vivo. Foi socorrido pelo Conselheiro Rocha com uma pensão de cento e quarenta francos mensais. Amigo de François Debret, irmão de seu mestre, manteve contatos com seu círculo, onde estavam figuras como Rossini, Auber, Cherubini e Almeida Garrett.
Chegando a Paris seu amigo Luís de Vasconcelos, recebeu dele uma oferta de vinte mil francos para acabar os seus estudos na Itália, mas só aceitou quatro mil, pois o Conselheiro Rocha lhe providenciou casa e comida em Roma. Partiu em 4 de outubro de 1834, junto com seu amigo, o poeta Gonçalves de Magalhães. Na Itália visitou muitas cidades e estudou com o antiquário Antonio Nibby. Viajou para a Inglaterra, Países Baixos e Bélgica com Gonçalves de Magalhães. Voltou para o Rio de Janeiro em maio de 1837 depois de saber da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. Mandou buscar sua mãe e se estabeleceu. No ano seguinte, em 14 de outubro de 1838, casou-se com Ana Paulina Delamare. Passou a desenvolver atividades variadas como professor de desenho, poeta, crítico e historiador de arte, área na qual é considerado como fundador da disciplina no Brasil. Foi professor de pintura histórica na Academia Imperial de 1837 a 1848.
Em 1840 foi nomeado pintor da Câmara Imperial e foi responsável pelos trabalhos de decoração para a coroação do imperador D. Pedro II e seu casamento com D. Teresa Cristina. De 1848 a 1858 lecionou arquitetura na Academia Militar. Como arquiteto executou diversos projetos no Rio de Janeiro, dos quais destacam-se intervenções no Paço Imperial e na Alfândega, e projetos para o Banco do Brasil, a Escola de Medicina, um teatro no Rio, um mercado em Niterói, e a Capela de Nossa Senhora das Neves, além de levantar a planta da cidade do Rio.
Foi vereador no Rio de Janeiro, destacando-se em seu mandato a proposta de criação de escolas industriais para a educação de operários. Estava entre os fundadores do Conservatório Dramático e da Academia de Ópera Lírica,Veríssimo, José. História da Literatura Brasileira. Fundação Biblioteca Nacional, 1915, pp. 98-99 foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e diretor da Academia Imperial de Belas Artes em 1854. Como diretor da Academia promoveu a ampliação da área construída, anexando o Conservatório de Música e a Pinacoteca, além de estabelecer uma série de reformas no seu currículo e seus métodos de ensino. Sua atuação não foi pacífica, encontrando muitas resistências e sendo prejudicado pela carência de recursos.
Ressentido com os atritos em que se envolvera no campo das artes, em 1857 renunciou à direção da Academia e no ano seguinte à cadeira na Academia Militar, iniciando sua carreira diplomática, primeiramente na Prússia, em Berlim (1859), depois em Dresden (1860), onde preparou a edição de Brasilianas, e Lisboa, onde chegou em 1866, sendo nomeado cônsul geral em 1867. Sua atividade diplomática contribuiu para que o Brasil criasse na Europa a imagem de um país dirigido por homens cultos e interessados em seu desenvolvimento. Para Antonio Alexandre Bispo, Porto-Alegre "foi um dos grandes nomes no contexto da história do Império na Europa". Em 1867 participou da organização da seção brasileira na Exposição Universal de Paris, e em 1871 recebeu D. Pedro em Lisboa.
Em 1873 fez uma breve visita ao Brasil e secretariou a delegação brasileira na Exposição Universal de Viena. Em 1874, por seus serviços ao Império, foi agraciado por D. Pedro II com o título nobiliárquico de barão de Santo Ângelo. O seu brasão utiliza as mesmas armas do ramo nobre português da família Araújo,Armorial Lusitano.Arquivo Nobiliárquico Brasileiro. da qual Porto-Alegre descendia. Todos os descendentes do barão de Santo Ângelo não utilizam mais o sobrenome Araújo, vindo a adotar Porto-Alegre como sobrenome.
Em 1877, estando em viagem de Roma para Florença, teve um ataque de "congestão cerebral". Recolhido a Lisboa, pouco depois teve o segundo, ficando paralítico do lado direito e perdendo a fala, que nunca recuperou. Faleceu em 30 de dezembro de 1879.
Em 1865, exercendo função diplomática em Dresden, escreveu uma carta a seu amigo Joaquim Manuel de Macedo, que era professor dos filhos da princesa Isabel de Bragança, na qual ele se declara espírita e fala de suas psicografias recebidas do Plano Espiritual, revelando que a princesa Isabel, católica, lhe perguntou "quem é meu espírito protetor?". A carta se encontra arquivada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e contém 12 páginas manuscritas, correspondência esta que foi publicada na íntegra, com análise circunstanciada, no livro Barão de Santo Ângelo, O Espírita da Corte, de autoria do jornalista Paulo Roberto Viola. Segundo Viola, Porto-Alegre manteve em segredo sua crença para não ser prejudicado em sua carreira, pois a ocupação de cargos públicos exigia juramento de fidelidade ao Catolicismo, então religião oficial do país."ABI celebra Araújo Porto-Alegre". Associação Brasileira de Imprensa, 19/11/2009
Com Ana Paulina Delamare teve os filhos:Laytano, Dante de. Guia Histórico de Rio Pardo. Prefeitura Municipal de Rio Pardo, 1979, 2ª ed., pp. 201-205
Paulo (1842-?), engenheiro de minas e diplomata. Carlota (1846-1918), casada com o pintor Pedro Américo. Paulina (1852-1925), casada com Paul Faulhaber, ajudante de ordens do rei da Saxônia. Inácio Francisco (1854-1900), professor do Instituto Nacional de Música Ana. Manuel, diplomata. Maria Francisca, morta na infância. Maria Luiza, morta na infância.
Arte, história e a construção da nação
Aluno dos neoclássicos Debret e Grandjean de Montigny, no entanto estudou também no atelier de Antoine-Jean Gros e frequentou o Instituto Histórico de Paris, deixando-se influenciar por esses círculos, que reuniam grande parte da geração romântica parisiense, interessando-se por filosofias idealistas, historicistas e ecléticas. Era um apreciador do gótico e desde seu retorno ao país se envolveu no processo de fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Incentivado por Debret, passou a pesquisar os arquivos das igrejas fluminenses em busca de documentos que pudessem embasar seu projeto de escrever uma história da arte brasileira do período colonial. A palestra sobre a arte colonial que publicou em 1832 no Journal de l'Institute Historique, sob o título de "Etat des Beaux Arts au Brésil", inaugurou a reflexão teórica sobre arte no país. Na mesma revista publicou em 1839 o "Resumo da história da literatura, das ciências e das artes no Brasil", escrito em conjunto com Gonçalves de Magalhães e Torres Homem, já publicado na Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil de Debret. Este e o artigo "Memória sobre a Antiga Escola de Pintura Fluminense", que publicou em 1841 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, são os primeiros ensaios sobre a história das belas artes brasileiras.Lima, Valéria Alves Esteves. "História da arte e identidade nacional: dialogando com Araújo Porto-alegre". In: XI Encontro de História da Arte. Unicamp, 2015