A língua eslovena (em esloveno: slovenščina ou slovenski jezik) é uma língua da família indo-europeia que pertence ao grupo de línguas eslavas meridionais. É a língua oficial da Eslovênia e também uma das 24 línguas oficiais da União Europeia, onde encontram-se a maior parte dos seus 2,5 milhões de falantes.
Possui status de língua minoritária reconhecida na Áustria, Itália e Hungria, onde é presença significativa nas regiões fronteiriças ao redor do território esloveno, nas quais vivem populações que ainda mantêm vivas sua língua e cultura.
Devido à grande variedade de dialetos presentes na língua e pelas suas diferenças com a norma-padrão, o esloveno pode ser considerado uma língua com diglossia. Esse fenômeno, presente em outras línguas como o árabe, faz com que os falantes aprendam a norma culta (Zborni jezik) para ser usada em áreas como educação e literatura, raramente sendo aprendida como língua materna.
Além disso, há também uma linguagem coloquial padrão (Pogovorni jezik), usada pelos moradores escolarizados de grandes cidades para facilitar a comunicação entre si e difere da norma-padrão em fonologia, morfologia, sintaxe e vocabulário. Apesar de se tratar de uma versão oficial da língua, sofre com variações em certa extensão, a depender de onde é falada. O coloquial oficial na capital, Liubliana, difere do coloquial em outras cidades eslovenas como Maribor ou Koper.
O esloveno é uma das poucas línguas eslavas que, além do sorábio, falado no sudeste da Alemanha, e do dialeto casúbio, no norte da Polônia, conseguiu padronizar e preservar a variação de número dual no nível da língua literária. As outras línguas eslavas perderam parcialmente ou totalmente seu uso.
Etimologia
A etimologia dos etnônimos slovenščina e slovenski jezik está relacionada ao nome pátrio Slovenija (Eslovênia). É muito provável que os nomes de Eslovênia e Eslováquia tenham se originado como forma de autodesignação, com ambos os nomes significando "terra dos eslavos", tendo seus nomes variados por razões geográficas e linguísticas.
Já a palavra "eslavo" não possui uma origem bem aceita pela linguística. Uma das teorias existentes se origina na palavra proto-eslava slovo, que pode ser traduzida para algo próximo a "palavra" ou "fala", sugerindo originalmente a ideia de que eslavos são “pessoas que falam (uma língua comum)”.
Outra teoria considerada é de que se origine do nome Slav, oriundo do hidrônimo Sala (rio Zala), sendo esse um rio no qual viviam na época de sua catequização.
Assim, Slovenija, acompanhada do sufixo ščina, que funciona de forma semelhante ao sufixo “-ês/-ense” em português, formam a primeira palavra. Já slovenski jezik pode ser traduzida para língua (jezik) eslovena (slovenski).
Distribuição A língua eslovena é falada por cerca de 2.5 milhões de pessoas ao redor da Europa e por sua diáspora em todo mundo. No continente europeu, o território da língua eslovena e seus dialetos inclui a Eslovênia e áreas adjacentes de Hungria, Áustria e Itália, nas quais possuem status de língua minoritária reconhecida. Praticamente todos os 2,1 milhões de cidadãos da República da Eslovênia falam a língua. Na Hungría, o esloveno está restrito ao vale do rio Rába (Hung. Vendvidék; Sln. Porabje) com aproximadamente 5.000 falantes nativos. Na Áustria, o esloveno é principalmente falado na região da Caríntia (Germ. Kärnten) e no sul da região da Estíria (Germ. Steiermark) por aproximadamente 50.000 pessoas. Já na Itália, é falado por cerca de 80.000 pessoas no nordeste do país, na região Friuli-Venezia Giulia (Sln. Beneška Slovenija).
Algumas outras comunidades significativas de eslovenos na Europa são: Nas regiões de fronteira com o nordeste da Croácia, algumas comunidades de eslovenos são encontradas, totalizando 7.729 pessoas. Há aproximadamente 14.000 eslovenos vivendo em diferentes partes da Suíça, a maioria na região leste, de língua alemã (cantões de Zurique, St. Gallen, Aargau e Thurgau). A maioria emigrou nos últimos anos, tratando-se, em sua maioria, de jovens com formação superior que decidiram se mudar para a Suíça por motivos econômicos. Estima-se que existam cerca de 20.000 eslovenos ou descendentes de eslovenos vivendo na França. Migraram por razões econômicas, principalmente do período anterior à Segunda Guerra Mundial, e em parte das décadas de 1960 e 1970. Estão concentrados principalmente na região leste da França (Merlebach, Aumetz), onde são mais ativos. Também existem comunidades maiores de eslovenos em Paris, Nice, Marselha e outras cidades.
Aproximadamente 50.000 eslovenos vivem atualmente na Alemanha. Metade deles reside no sul do país, nos estados da Baviera e Baden-Württemberg, enquanto a outra metade vive nos 14 estados restantes.
A diáspora europeia ao longo dos séculos XIX e XX fez com que diversos países da América recebessem povos oriundos da região, incluindo os eslovenos. Os Estados Unidos foram o principal destino, recebendo cerca de 300.000 imigrantes. Nos dias atuais, a cidade estadunidense de Cleveland é considerada a maior cidade eslovena fora do país, tendo mais de 50.000 residentes descendentes de eslovenos. Apesar de muitos terem perdido suas origens, a língua ainda é preservada por parte da comunidade, com uma rádio de polca eslovena, criada por Tony Petkovsek, existindo há mais de 60 anos.
Dialetos
A língua eslovena possui uma extensa variedade de dialetos em relação com seu número de falantes. Ao todo, quarenta e quatro dialetos e subdialetos são registrados e agrupados em sete bases de dialetos principais, que são identificados pelo nome da região nas quais são faladas. As regiões são: Caríntia (Koroško), Litoral (Primorsko), Rovte (Rovtarsko), Baixa Carníola (Dolenjsko), Alta Carníola (Gorenjsko), Estíria (Štajersko), e Panônia (Panonsko), cujas delimitações são feitas de acordo com a configuração topográfica do território esloveno. Além disso, quatro dialetos de origem heterogênea funcionam de forma separada dessa classificação. O cladograma a seguir apresenta essa divisão, identificando cada dialeto catalogado da língua eslovena:
Tal aspecto dialetal foi consequência direta do povoamento e do território da atual Eslovênia, com suas barreiras geográficas e rotas de transporte. No passado, era incomum cruzar montanhas e colinas altas, e poucos se deslocavam com frequência para as cidades, não tendo contato regular com os moradores de outras áreas, permanecendo em suas vilas e criando comunidades linguísticas distintas das vizinhas. Assim, a língua eslovena começou a se diferenciar por todo o território esloveno e adquiriu novos dialetos. Como exemplos, os montes Triglav e Karavanke, no oeste da Eslovênia, separam os dialetos da Caríntia, da Alta Carniola, Rovte e do Litoral. Os pântanos de Liubliana separam os dialetos da Alta e da Baixa Carniola, e o rio Sava serve de fronteira entre os dialetos da Estíria e da Baixa Carmiola.
Línguas relacionadas O esloveno é uma língua eslava, sendo por consequência parte da família indo-europeia e é pertencente ao subgrupo das línguas eslavas meridionais. Dessa forma, possui maior proximidade com as outras línguas que fazem parte de seu subgrupo, como o macedônio e o búlgaro, além de idiomas da antiga Iugoslávia, como o sérvio, o bósnio, o montenegrino e o croata.
O cladograma a seguir demonstra a posição do esloveno dentro do grupo das línguas eslavas:
Dentre essas línguas, o croata é geralmente considerado o mais semelhante ao esloveno. Em particular, seu dialeto kajkaviano é apontado como a variante mais próxima da língua eslovena, sendo, em certos aspectos, considerado linguisticamente mais próximo do esloveno do que das demais variantes do próprio croata.
Isso é explicado por um fenômeno conhecido como continuum dialetal, que faz com que dialetos vizinhos se mesclem por conta da proximidade geográfica, enquanto dialetos mais distantes se afastam e sua inteligibilidade diminui.
No caso do croata kajkaviano, por estar presente em regiões de fronteira com o território esloveno, há marcas significativas da influência do continuum dialetal, como pode ser visto na tabela abaixo:
+Quadro comparativo analisando continuum dialetalCroataDialeto KajkavianoEslovenoPortuguêsštokajkajquenoćnočnočnoitebiobilbileragranicamejamejafronteiračovjekmošmoškihomemcrnčrnčrnpretocrijevočrevočrěvo/čriěvointestino
História Por volta do século VI d.C., os eslavos passaram a se estabelecer nas áreas a leste dos Alpes, após os lombardos deixarem a região. Migrações a sul fizeram com que se assentassem por boa parte da península balcânica, estabelecendo sua língua, nomeada atualmente como protoeslavo, pela região. Com o passar dos séculos, o protoeslavo foi logo se dissolvendo em outras línguas, dentre elas o esloveno, algo provavelmente ocorrido entre os séculos IX e X.
A área na qual o esloveno era falado inicialmente compreendia, a oeste, o rio Tagliamento e o Golfo de Trieste, territórios no nordeste da atual Itália, a cidade de Linz e os subúrbios de Viena, a norte, e o lago Balaton, na parte ocidental da atual Hungria, a leste. Nos séculos seguintes, invasões estrangeiras contribuíram para o isolamento dos eslovenos em relação aos demais ramos da família eslava e a redução da sua área de fala.
Ao longo do século VIII, povos bávaros e francos passaram a controlar a parte norte da Panônia, promovendo um significativo influxo de população germânica na região correspondente à atual Áustria. Com o tempo, esses grupos ultrapassaram numericamente os eslavos locais, o que resultou na interrupção do contato direto entre os eslovenos e os povos eslavos ocidentais, como os tchecos e os eslovacos. No final século IX, a invasão húngara na Panônia e seu assentamento nas regiões do lago Balaton cortaram completamente o contato entre eslovenos e povos eslavos orientais.
Apesar disso, por possuírem ancestral comum, cognatos entre o esloveno e outras línguas eslavas ocidentais e orientais ainda são comuns, como é o caso das palavras a seguir:
+CognatosPortuguêsPalavra eslovenaCognatoLíngua do cognatoirmãobratbratpolonêságuavodavoda (вода)russonoitenočnoch (ночь)russoestrelazvezdahviezdaeslovacodentezobzub (зуб)bielorrusso, russo, polonêsnomeimeimya (имя)russomãorokarukachecocidademestomiastopolonês
As regiões habitadas pelos eslovenos passaram a ser gradualmente incorporadas ao Sacro Império Romano-Germânico durante a Idade Média. Posteriormente, muitos desses territórios passaram ao domínio da dinastia Habsburgo, permanecendo sob sua autoridade por vários séculos. Esse contexto político e cultural favoreceu uma forte influência alemã, especialmente entre as elites urbanas e administrativas, o que levou a um processo prolongado de germanização ao longo da Idade Média e da Idade Moderna.
A partir do século XVI, é possível identificar a língua como esloveno moderno. O início desse período foi marcado por intensa dialetização, causada por um processo de redução vocálica que mudou drasticamente a morfologia e estrutura de formação de palavras da língua falada. No final do século XVIII, novas tendências unificadoras surgiram no esloveno moderno. A ampliação das bases dialetais da língua escrita contribuiu para o desenvolvimento do esloveno culto, que, por sua vez, começou a exercer alguma influência na evolução dos dialetos em meados do século seguinte.
De 1809 a 1814, grande parte das terras eslovenas foi incorporada às Províncias Ilírias do Império Francês de Napoleão. A ocupação francesa teve um profundo impacto na política e na cultura da região. Os franceses incentivaram a iniciativa local e favoreceram o uso do esloveno como língua oficial. Muitas dessas mudanças não sobreviveram ao retorno ao domínio dos Habsburgos, mas o período contribuiu significativamente para a autoconsciência nacional dos eslovenos e despertou em alguns intelectuais um ideal que enfatizava os interesses políticos e culturais comuns dos eslavos do sul. Movido por esse ideal, a primeira gramática da língua eslovena foi publicada em 1808.