A língua turca (em turco: ) é uma língua falada, como língua materna, por cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo, principalmente na Turquia, mas também no norte do Chipre, na Bulgária e, em menor número, na Grécia, Arménia, Romênia e Macedônia do Norte. O turco também é falado por milhões de imigrantes na União Europeia e na América.
Classificação O turco integra o ramo das línguas turcomanas (ou túrquicas) que faz parte do grupo Oguz, o qual também inclui as línguas azeri e gagauz, da família das línguas altaicas. As línguas oguzes do sub-grupo sudoeste túrquico são mais de 50 ainda vivas na Europa oriental, Ásia central e Sibéria.
O turco corresponde a cerca de 40% dos falantes do grupo túrquico. Suas características, tais como a harmonia das vogais, a aglutinação, a ausência de gêneros, estão presentes nas famílias túrquica e altaica.
Distribuição geográfica O turco é falado na Turquia como língua nativa e por minorias em outros 35 países, em geral aqueles que pertenceram ao Império Otomano, como a Bulgária, a Grécia (na Trácia ocidental), a Romênia, a Macedônia do Norte, Sérvia, e Chipre.
Há mais de dois milhões de turcos na Alemanha, há também significativas comunidades turcas na França, Países Baixos, Áustria, Bélgica, Suíça, Reino unido. Em função da assimilação cultural dessas comunidades aos países onde vivem, nem todos os imigrantes que são turcos étnicos falam o turco com a mesma fluência dos que ficaram na Turquia.
Na Turquia, cerca de 85 milhões de pessoas (92% da população) falam o idioma turco. No mundo, os falantes de turco são da ordem de 76 milhões. Os 4,5 milhões de Curdos, com seu próprio idioma, fazem parte da população da Turquia. Essas e outras minorias linguísticas na Turquia são, em sua maior parte, bilingues.
Status oficial O turco, ou osmandi, é a língua oficial da Turquia e o idioma de fato da República Turca de Chipre do Norte. É, ademais, uma das línguas oficiais de Chipre, um dos idiomas oficiais ou nacionais da Bulgária, no distrito de Prizren em Kosovo e em algumas municipalidades na Macedônia do Norte. O órgão regulatório do idioma turco é o Türk Dil Kurumu ou TDK ("Instituição da Língua Turca") da Turquia, fundado em 1932 por Kemal Atatürk como Türk Dili Tetkik Cemiyeti ("Sociedade para a Pesquisa da Língua Turca"). Essa sociedade foi influenciada pela ideologia do "purismo linguístico" e suas funções primárias foram substituir palavras de origem estrangeira, e construções gramaticais idem, por equivalentes de origem turca. Essas mudanças, junto com a adoção de um novo alfabeto turco, baseado no latino, deu-se em 1928. O TDK se tornou um órgão independente em 1951, devendo ser presidido pelo Ministro da Educação. Voltou a ser um órgão submisso ao governo após a promulgação da nova Constituição de 1982, em função do golpe de estado de 1980.
Dialetos O turco de Istambul é a linguagem padrão e oficial da Turquia. Mesmo com o nivelamento dialetal provido pelo "Sistema de Educação Turco" desde 1930 e pelos "Mídia" de massa, persistem variações de dialetos. Estudiosos da Turquia, de forma acadêmica, referem-se aos dialetos turcos como ağız ou şive, gerando ambiguidade em relação ao conceito linguístico de "sotaques", que também são denominados por essas duas palavras. Há projetos de investigação dos dialetos turcos em diversas universidades no país e também estudos na "Associação da Língua Turca". Os trabalhos estão próximos de sua publicação, como um "atlas" de todos os dialetos da língua turca.
São onze os dialetos do turco, além do padrão Istambul:
Rumeliano é falado pelos imigrantes da Rumélia, inclui os dialetos distritais de Deliorman, Dinler, Adakale, influenciados pela “União Linguística Balcânica”. Kıbrıs é o turco cipriota. Edirne é o dialeto de Edirne. 'Ege é falado nas costas do Mar Egeu e em Antalya. As tribos nômades Yörük do Mediterrâneo e dos Bálcãs têm seu próprio dialeto. Güneydoğu ou goynuk é falado ao sudoeste, a leste de Mersin. Doğu é o dialeto da Anatólia oriental, com um “continuum” com os dialetos Azeri, por exemplo em carapapaque. Orta Anadolu na Anatólia Central. Karadeniz no leste, ao longo do Mar Negro, inclui o Trabzon influenciado pelo grego em sons e sintaxe. Kastamonu é falado em Kastamonu e arredores. Hemşince é falado pelos Hamshenis do oeste, em Rize e sofreu influência da Língua armênia. Karamanlıca é o dialeto turco da Grécia, onde é chamado Kαραμανλήδικα (Karamanlidika).
História Esse idioma é originário da Ásia Central na área da Mongólia e Sibéria, com os primeiros registros escritos datando de cerca de 800. No ocidente houve a expansão da influência da variante Otomana (que precedeu a atual) da língua turca durante o período de dominação do Império Otomano. Com as reformas de Kemal Atatürk no início da república turca, veio em 1928 a substituição do alfabeto otomano por uma variante fonética do alfabeto latino. Mais recentemente, a recém fundada “Associação da Língua Turca” iniciou outra reforma para eliminar as palavras de origem persa e árabe, substituindo as mesmas por palavras de origem turca.
Turco antigo As escritas mais antigas do idioma turco estão na atual Mongólia. São inscrições Bugut no alfabeto sogdiano nos primeiros Goturcos na segunda metade do ;
Registros mais recentes são duas monumentais inscrições, mais pedras menores, descobertas em escavações de arqueólogos russos no período de 1889 e 1893 numa extensa área do vale de Orkhon. Essas peças foram erigidas em honra do príncipe Kul Tigin e de seu irmão, o imperador Bilge Khan, por volta de 732 a 735 e continham inscrições “runiformes”, o que se denominou “Runas Túrquicas” ou Alfabeto de Orkhon, por sua similaridade com as runas de línguas germânicas.
Turco oguz A língua turca não descende de forma direta do túrquico antigo das inscrições de Orcom. Seria mais exatamente uma língua do ramo oguz. Na expansão turca na primeira metade da Idade Média, entre os séculos VI e XI, a dinastia Seljúcida de turcos oguzes trouxe seu idioma, o túrquico oguz, o ancestral direto da língua turca atual, para a Anatólia (). Nesse século Mamude Alcasgari, linguista do Canato Caracânida, publicou o primeiro dicionário da língua e um mapa da distribuição geográfica dos falantes das línguas túrquicas, o “Compêndio dos Dialetos Túrquicos” (em Otomano Divânü Lügati't-Türk).
Turco AntigoTürk Oğuz beğleri, budun, eşidin; üze Kök Tengri basmasar, asra yir telinmeser, Türk budun, ilinin, törünün kim artatı(r)? Turco Moderno Türk Oğuz beyleri, ulus, işitin; üzeride Gök Tanrı basmasa, altta yer delinmese, Türk ulusu, ülkeni, töreni kim atar?
Turco otomano
Por volta de 950, com a adoção do credo muçulmano pelos Khanatos Kara-Khanid e pelos Seljúcidas, ambos antecessores culturais do Império otomano, a linguagem administrativa dessas nações adquiriu muitas palavras da língua árabe e da língua persa. A literatura otomana foi também muito influenciada na poesia pela métrica e pela incorporação de mais palavras persas. Assim, a linguagem oficial e a literatura do Império otomano (1299–1922) era uma mistura de turco, persa e árabe, chamada Turco otomano e que diferia muito da linguagem falada pelo povo, no dia-a-dia.
Reforma – Turco moderno Com a fundação da República da Turquia e a reforma da escrita, estabeleceu-se em 1932 a TDK – “Associação da língua turca” patrocinada por Mustafa Kemal Atatürk, com missão de conduzir as pesquisas sobre a língua. Também foram substituídas palavras estrangeiras (persas e árabes). Com a exclusão dessas palavras, a Associação eliminou centenas de termos de origem externa, enquanto que as novas palavras que as substituíram derivavam de raízes túrquicas, voltando a existir palavras dos primórdios da cultura turca.
Com essa mudança súbita e forçada na língua, passou a haver grandes divergências entre os vocabulários de jovens e idosos. As gerações anteriores aos anos 40 usavam termos antigos originados do árabe e do persa e os mais jovens preferiam as novas formas de expressão. Ironicamente, o próprio Atatürk, em seu monumental discurso (Nutuk) à Grande Assembleia do Parlamento Nacional da Turquia, em 1927, falou numa linguagem em estilo otomano. Este discurso histórico soava tão estranho a ouvintes de épocas posteriores, que precisou de ser por três vezes "traduzido" para o turco moderno: em 1963, em 1986 e em 1995. Existe um caráter político nos debates sobre a linguagem turca, com grupos conservadores forçando o uso da língua no estilo otomano, arcaico, na imprensa e no dia-a-dia.
A TDK continuou nas últimas décadas a criar novas palavras turcas para expressar novos conceitos e tecnologias à medida que tais termos, vindos em especial da língua inglesa, precisam entrar no vocabulário. Algumas dessas palavras, em especial no que se refere à informática, logo tiveram boa aceitação por todos. Porém, a TDK por vezes foi criticada por seus termos criados serem controversos e artificiais. Nas primeiras tentativas houve casos como 'bölem (partido político), que substituiu o antigo 'fırka e que falhou na aceitação popular, sendo substituído pela palavra parti). Algumas palavras vindas do turco antigo adquiriram novo significado: betik (antigamente “livro”) é usada hoje como “linguagem de computador”.
Muitos das novas palavras derivadas do turco antigo que foram incorporadas à língua pelo TDK coexistem com as otomanas correspondentes. Isso ocorre quando um termo anterior sofre mudança em seu significado. Exemplo:dert, que veio do persa dard (درد "dor"), passou a ser usado como "problema" ou "perturbação”em turco moderno e, para dor, veio o termo antigo recuperado ağrı (dor física). Em outros casos, como acontece na língua inglesa onde coexistem palavras originadas das línguas latinas e das línguas germânicas com o mesmo significado, há palavras antigas e novas da língua turca que coexistem. Dentre as palavras substituídas estão muitos termos de geometria, pontos cardeais, nomes dos meses e outros. Ver a seguir alguns exemplos:
Turco otomano Turco moderno Em Português Comentáriosmüselles üçgen triângulo Composto por üç ("três") e da palavra muito antiga gen ("tensão", "lado")tayyare uçak avião do verbo uçmak ("voar"). Foi proposto inicialmente para "aeroporto".nispet oran relação (fração) a palavra antiga, nesse caso, convive com a nova. A palavra nova (do turco bem antigo) vem de or- (cortar).şimal kuzey norte do turco antigo kuz ("lugar frio e escuro", "sombras").Teşrini-evvel Ekim outubro ekim significava "o ato de plantar", refere-se à plantação de cereais no outono.
Gramática Tal como o finlandês e o húngaro, o turco possui harmonia vocálica, é uma língua aglutinativa e não apresenta gênero gramátical. A sintaxe é, em geral, Sujeito Objeto Verbo (SOV), como em japonês e em latim, diferentemente do português. O turco também usa a distinção T-V: formas plurais na segunda pessoa podem ser usadas para indivíduos como um sinal de respeito.
A língua turca é aglutinativa e usa muitos afixos, em especial sufixos. Uma palavra pode ter muitos afixos, podendo assim criar outra palavra; verbos podem ser gerados a partir de substantivos e substantivos a partir de raízes verbais. Os prefixos que vieram das raízes nativas sílabas aliterativas são usados como adjetivos ou advérbios. Exemplos: sımsıcak ("fervendo quente" < sıcak) ou masmavi ("azul brilhante" < mavi), onde o prefixo evidenciado é modelado sobre a primeira sílaba do adjetivo ou advérbio simples, substituindo de m, p, r, s pela última consoante da sílaba. O prefixo retém a primeira vogal da forma-base e faz uma forma reversa de harmonia de vogais.