Nascido William Stewart 'Jock' Young (Midlothian, 4 de março de 1942 - Nova Iorque, 16 de novembro de 2013), Jock Young foi um sociólogo e criminologista. É considerado um dos principais pensadores britânicos da criminologia.

Biografia Obra e vida Anos de formação Young nasceu em Midlothian, na Escócia. Sua família mudou para Aldershot quando ele tinha cinco anos. Lá, passou seus anos de formação. Definida por um subúrbio sedentário e um poderio militar, Aldershot teve relevante influência para o corpo de pesquisa de Young, caracterizado por uma oposição de longa data à conformidade cultural da classe média e com as ideologias associadas com o poder estatal e o imperialismo. Tão encravado era o militarismo local que sua escola impunha o comparecimento obrigatório com uniforme da ‘Força Cadete’. O regimento esmagador não foi bem aceito por Young que se rebelou e, juntamente com um conjunto heterogêneo de opositores conscientes e testemunhas de Jeová, formou um grupo antifascista e pró campanha pelo desarmamento nuclear, visando se opor ao que eles enxergavam como a institucionalização militar da escola. Esta foi a entrada para uma campanha que seria defendida ao longo da vida, que visava combater a opressão estrutural e a cultura imperialista.

Estudos: sua passagem à sociologia Young era um brilhante estudante, destacando-se particularmente nas chamadas ‘ciências duras’. Sua intenção era estudar bioquímica na University College London. Porém, por um desvio que o levou à instituição Regent Street Polytechnic, ele conheceu e foi inspirado por Steve Box, um criminologista marxista. Encorajado por Box, Young transferiu seus estudos para a sociologia e se matriculou na London School of Economics (LSE), em 1962.

Início da carreira No entanto, a vida inicial na LSE foi extremamente decepcionante para Young."Palpavelmente chato, um mortífero lugar fabiano" Hayward, Maruna e Mooney,2010, Fifty Key Thinkers in Criminology , era como o estudioso descrevia o ambiente. Apesar das frustrações sentidas na LSE, durante o curso do seu PhD, as coisas mudaram. A última metade dos anos 60 foi uma era marcada por protestos estudantis, o que logo influenciou muitos na LSE, levando à aproximação destes com o radicalismo. "De repente havia manifestações pacíficas em todos os lugares, demonstrações feitas por trotskistas e situacionistas. O mundo inteiro parecia estar virando de cabeça para baixo" Hayward, Maruna e Mooney,2010, Fifty Key Thinkers in Criminology , lembra Young. Desta maneira, a faculdade de Sociologia também foi alvo de transformação. O orientador de doutorado de Young, Terry Morris, juntamente com um pequeno grupo de estudantes (incluindo os subsequentes expositores da Criminologia britânica: David Downes, Frances Heidensohn e Paul Rock) se ocuparam de importar para a sociologia britânica alguns conceitos americanos como interacionismo simbólico e a teoria do etiquetamento social (labelling approach). Tal trabalho teve grande influência em Young; porém, havia algo mais importante ocorrendo fora das salas da universidade: a revolução da contracultura. National Deviancy Conference (NDC) Com o contexto da contracultura, os tempos eram impetuosos. R.D. Laing promulgava sua mensagem antipsiquiátrica, os Rolling Stones estavam firmes no seu trabalho de chocar o mundo britânico que havia se estabelecido no pós-guerra. Segundo Young, tal sensibilidade proveniente da contracultura foi o que desencadeou a primeira conferência nacional sobre desvio, ocorrida em 1968. A NCD foi uma série de conferências interdisciplinares (era bianual, sendo que, às vezes, ocorria quatro vezes ao longo do ano) baseadas em torno da pesquisa emergente no campo da ‘sociologia do desvio’. Marcada por postura anti-institucional e altamente crítica da criminologia ortodoxa, atraia nomes de estudiosos da cultura como Phil Cohen, Stuart Hall, Paul Willis e Dick Hebdige e feministas da ‘Segunda Onda’ como Mary McIntosh e Angela McRobbie. A NDC era uma efusão de energia intelectual direcionada para a esquerda e para o anarquismo. É nesse espaço que Young apresenta seu primeiro trabalho de conferência: ‘The Role of Police as Amplifiers of Deviance’. Este trabalho e a própria NDC eram reflexos claros das mudanças que ocorriam na sociedade dos anos 60. Tal contexto foi também de grande relevância para o primeiro dos seus principais trabalhos: ‘"The Drugtakers"Young, 1971, The Drugtakers. Os trabalhos contínuos na NDC, posteriormente, foram importantes para despertar em Young a necessidade de se aproximar à matéria do desvio por uma posição mais holística que incluísse, de maneira mais ampla, as preocupações estruturais da sociedade. Aproximação com a Criminologia radical Na intenção de adotar uma postura diferente em relação à matéria do desvio, Young passa a trabalhar de maneira próxima com Ian Taylor e Paul Walton. O resultado se concretizou na forma de “The New Criminology”Young, The New Criminology. O livro foi uma completa crítica feita às teorias criminológicas existentes. O trabalho foi um sucesso global imediato, o que surpreendeu os três autores. Como forma de prosseguir nessa nova tendência, Taylor, Walton e Young publicaram, em seguida, “Critical Criminology”Taylor, Walton e Young, 1975, Critical Criminology, uma antologia de ensaios feitos por criminologistas britânicos e americanos. Juntos, “The New Criminology” e “Critical Criminology” definiram o campo da criminologia crítica/radical dos anos 70, demarcando a preocupação por uma análise criminológica que tanto desafiasse o relacionamento de disciplina colocada pelo Estado quanto introduzisse uma crítica reflexiva dos aparatos da justiça criminal e os relacionados processos disciplinantes do ‘bem-estar’ capitalista. A força desta aproximação com a criminologia radical, colocada em “The New Criminology”, foi relevante na medida em que uniu os aspectos interpretativos do interacionismo (exemplificados em “The Drugtakers”) com uma perspectiva mais ‘estrutural’ associada com a teoria marxista do conflito. Criminologia neorrealista de esquerda (Left realist criminology) As críticas subsequentes em torno da criminologia radical se pautaram na ideia de que tais estudos tendiam a ‘romantização dos criminosos’ a fim de os colocar como atores engajados na luta contra a opressão capitalista. Tais críticas em conjunto com o aumento das taxas de crimes causaram impacto nas perspectivas do estudioso. Essa situação foi novamente trazida à tona quando Young foi abordado pelo Conselho local de Trabalho para que algo fosse feito em relação às realidades do crime existentes na zona norte de Londres. Em resposta às problemáticas destacadas, surge a Criminologia neorrealista de esquerda, formulada por Young e seus colegas John Lea e Roger Matthews, da University of Middlesex. O neorrealismo de esquerda surgiu como resposta direta ao crescimento da chamada ‘nova direita’ e as significantes transformações políticas e culturais dos anos 80. Ao observar o crime como um amálgama dos diversos ‘elementos interacionais’ (vítima, o público, a polícias e outras agências de controle social, as regras legais do direito penal, o ato criminoso e o ofensor) houve a possibilidade de considerar assuntos como a vitimização múltipla e a prevenção progressiva do crime. Assuntos estes que haviam sido, anteriormente, ignorados por criminologistas radicais em favor de alcançar o objetivo de uma transformação sociopolítica revolucionária. Principal teoria social As mais pontuadas críticas ao neorrealismo, realizadas por criminologistas radicais, foram as de que ele representou apenas um recuo em relação aos valores normativos capitalistas e às concepções de crime e castigo consagradas. Apesar disso, Young não permaneceu nas críticas. O estudioso não chegou a abandonar o neorrealismo de esquerda, mas é possível reconhecer que houve um afastamento em relação as manifestações mais ortodoxas dessa corrente. Tal postura de distanciamento foi, para Young, resultado da expressão das novas políticas de crime seguidas da eleição de Tony Blair, em 1997. Com o contínuo aumento da população carcerária do Reino Unido e um insistente combate aos ideais progressivos, o estudioso entendeu que o neorrealismo não era totalmente viável. Assim, seus próximos trabalhos deveriam ser uma crítica ao New Labour (Novo Partido Trabalhista) e o amplo sistema neoliberal e capitalista que o sustenta. Preocupado com tal contexto, pelo que o estudioso enxergou como desenvolvimento de uma ‘sociologia da vingança’ combinado com o aumento significativo de mecanismos punitivos de controle social, Young escreve “The Exclusive Society”Young, 2003, A Sociedade Excludente - Exclusão social, criminalidade e diferença na sociedade moderna. O trabalho versa sobre revoluções culturais e reconfigurações econômicas. De forma a continuar essa linha de pensamento, Young segue com o trabalho “The Vertigo of Late Modernity”Young, 2007, The Vertigo of Late Modernity, a fim de tentar compreender como os pontos revelados se dariam no nível da psicodinâmica. No livro, o ‘motim do crime e da violência’ que permeia a sociedade moderna é uma erupção de ansiedades, inseguranças e tensões que ‘assustam o mundo do dia-a-dia’. “The Exclusive Society” e “The Vertigo of Late Modernity” são, em grande parte, frutos do material coletado nos Estados Unidos, seguinte a sua mudança para Nova Iorque em 2002.

Criminologia Cultural No período em que Young permaneceu em Nova Iorque, após sua problematização acerca de uma teoria social, o estudioso começa a se aproximar da Criminologia cultural. Tal relacionamento ganha mais força após sua mudança para a University of Kent (UK) em 2005. O tempo de permanência na América, para Young, o influenciou de duas formas: o forçou a revisitar a rica tradição americana na Criminologia sociológica (sua força e suas fraquezas) e a observar que apesar de grandes antecedentes sociológicos, a Criminologia americana havia se tornado algo positivista e chato. Assim, a aproximação com a Criminologia cultural é vista, para muitos, como a culminação do trabalho de sua vida. Congrega o interacionismo de "The Drugtakers" à crítica estrutural das desigualdades de "The New Criminology", o desejo de entender e melhorar as mazelas do dia-a-dia que ficou presente no neorrealismo de esquerda e o interesse pelas inseguranças existenciais da sociedade moderna recente. Todos são temas centrais com o surgimento da nova Criminologia cultural. O principal fruto dessa tendência é o trabalho "The Criminological Imagination"Young, 2011, The Criminological Imagination, onde Young faz um apelo ao retorno do potencial criativo e crítico da criminologia. Morte Jock Young faleceu no dia 16 de novembro de 2013, no Memorial Sloan Kettering, em Nova Iorque. Diagnosticado com câncer de tireoide, Young enfrentou a doença com otimismo, ainda comentando sobre as dissertações e ensaios de seus alunos no leito do hospital. Deixou sua segunda esposa Jayne Mooney (casou-se em 1997), seus dois filhos Joseph e Fin, seu filho do casamento anterior Jesse, sua enteada Anny e seu irmão Graham.

O Pensamento Criminológico - Análise das Principais Obras

"The Drugtakers" - A Subcultura das Drogas O interesse criminológico de Young também adentra as questões referentes à política de drogas. Ele aborda impressões e críticas a respeito de como os Estados lidam com a ilegalidade e o aumento do consumo dessas substâncias no livro "The Drugtakers"Young, 1971, The Drugtakers. Segundo ele, é importante inserir o estudo das drogas dentro da sociedade, e não analisá-lo isoladamente. Assim, percebe-se melhor como é a interação entre a sociedade e uma política de drogas.