Palácios de Pena é uma média-metragem de fantasia portuguesa de 2011, realizada, escrita e editada por Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. O filme retrata o modo como duas pré-adolescentes (interpretadas por Andreia Martina e Catarina Gaspar) enfrentam uma herança cultural de opressão durante a visita à sua avó doente (papel interpretado por Alcina Abrantes).
A obra foi selecionada para a secção "Horizontes" da 68ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde estreou a 2 de setembro de 2011. A sua primeira exibição pública em Portugal decorreu no ano seguinte, a 1 de maio, no âmbito do 9° Festival IndieLisboa. Ao longo da sua distribuição, Palácios de Pena foi multipremiado, nomeadamente com os prémios de melhor filme narrativo no Ann Arbour Film Festival e no Chicago Underground Film Festival.
Sinopse Duas primas de classe média alta vivem a sua pré-adolescência sem rumo, indiferentes a incêndios florestais, globalização, património mundial da UNESCO e tudo o que as rodeia. Mantêm uma relação fria e estranhamente distante entre si. Reencontram-se finalmente quando visitam a sua avó assim que esta fica doente. Esta visita leva-as a perceber que são uma geração alheia ao passado. As famílias querem que as jovens compitam pela avó, para que esta decida qual delas herdará a sua fortuna, a centenária propriedade e palacete lisboetas.
Nos momentos que passam no palacete, as meninas fantasiam com um passado medieval, a opressão do fascismo e a história colonial portuguesa. A avó doente também contribui ao descrever um sonho em que ela é juíza da Inquisição. Entre estas fantasias, surge a condenação de dois mouros homossexuais à queima na fogueira. Afinal, a ignorância das jovens estava aliada a uma vontade familiar de oprimir violentamente.
Ao acordar, as meninas descobrem que a avó morreu. Uma delas consegue obter a herança total do testamento às custas da outra. As primas tentam enfrentar toda a sua herança expressando sentimentos de medo, desejo e culpa.
Elenco
Alcina Abrantes; Andreia Martina; Catarina Gaspar; Ana Rita Franco; Bernarda dos Bois; Judite Maria; Mariana Roberto; Teresa Castro; Núria Coelho; Marta Lopes; Marta Monteiro; Marta Vaz do Carmo; Marta Grilo; Thiago Dantas; Luíz Silva; Gabriel Abrantes; Daniel Schmidt; Viktor Honchar; Yuri Ceban; Feodor Ulinici.
Equipa técnica
Realização e argumento: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Cinematografia: Natxo Checa e Eberhard Schedl. Edição: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Direção de atores: Flávia Gusmão. Produtores: Gabriel Abrantes, Zé dos Bois, Natxo Checa e Marta Furtado. Direção de arte: Natxo Checa. Coordenação de produção: Joana Botelho. Correção de cor: Paulo Inês e Pedro Vilela. Mistura: Branko Neskov e Hugo Leitão. Edição de som: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt.
Produção Palácios de Pena é uma média-metragem iniciada no contexto da exibição "O Dia pela Noite", após um convite do Lux Frágil. O projeto viria a ser produzido pela A Mutual Respect Productions, com a participação financeira da EDP. O então recém-criado Fundo de Apoio à Produção IndieLisboa/FNAC atribuiu diretamente um apoio de oito mil euros a Gabriel Abrantes, por este ter vencido o Prémio Talento Fnac em 2009 e o Grande Prémio da Competição Nacional do IndieLisboa em 2010. Segundo o diretor do Indielisboa, esta opção deveu-se também ao facto de que com a entrada na secção competitiva Orizontti do Festival de Veneza, Palácios de Pena teria de ser finalizado com urgência.
Rodagem O filme foi rodado em Portugal, em película Kodak S-16 mm, transferida posteriormente para Video HD.. Os atores não-profissionais não puderam ler o argumento antes das gravações. Tentando inverter o Método de Interpretação para o Ator, os autores ditavam o texto de cada cena para que os atores repetissem enquanto as câmaras rodavam. Não tendo sido gravado som ao vivo, todos os diálogos foram dobrados à posteriori. Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt pediram ao elenco para sussurrar as suas falas diretamente para um microfone, num tom monótono, para que esta entrega artificial contrastasse com a linguagem melodramática do argumento original, que hiperboliza os estados emocionais dos personagens.
Estilo e temas Gabriel Abrantes pretendia fazer um filme em Portugal que explorasse a relação do cinema com a nação, particularmente como máquina propagandística de mitos nacionais (tomando como exemplo os filmes americanos O Nascimento de uma Nação de D. W. Griffith e 00:30 Hora Negra de Kathryn Bigelow). Deste modo, Palácios de Pena procura explorar o fardo da memória de Portugal representando o seu impacto através de uma amálgama radicalmente estilizada de histórias de cavaleiros, inquisições religiosas, mouros, mensagens de texto e pinturas. Deste modo, o filme mistura filme de época e género melodramático, desfile medieval com alegoria política, imagens da infância com o imaginário histórico e social. Por isso as protagonistas são adolescentes, fase da vida em que se navega entre o amoral e o moral, a criança e o adulto, existindo tanta responsabilização própria como um estado de suspensão mágica. Nas palavras dos autores "queríamos ver como a história do governo de Portugal, que sancionou a xenofobia e a intolerância sexual desde a inquisição ao fascismo, apareceria no rico círculo adolescente de Lisboa".
Continuidade artística Ainda que Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt se tenham conhecido em Nova Iorque e não tenham crescido em Portugal, os três filmes que fizeram em colaboração até 2018 (A History of Mutual Respect, Palácios de Pena e Diamantino) estão relacionados com a cultura portuguesa. Abrantes considera que todas as obras abordam como boas intenções podem tornar-se a base de hipocrisia ou ignorância "e em como as noções de multiculturalismo e respeito mútuo muitas vezes partem do discurso de uma cultura dominante que intenta justificar, subliminarmente, o seu predomínio através da falsa promoção de valores que supostamente se baseiam numa procura de igualdade".
Ainda que Diamantino se distinga das obras anteriores no seu tom e uso de comédia, em termos de narrativa, a dupla de cineastas evita nestes filmes mecanismos literários meta-narrativos, de fragmentação ou não-lineares, mostrando-se interessada em trabalhar numa estrutura mais clássica tradicional, como forma de reação à abertura e flexibilidade que surgiram do pós-modernismo.
Distribuição Lançamento Palácios de Pena teve a sua estreia mundial na 68º edição do Festival de Cinema de Veneza, onde foi exibido a 2 e 3 de setembro de 2011. Gabriel Abrantes mostrou-se muito satisfeito pela seleção do filme para integrar a secção Horizontes: "Representa um grande salto no meu trabalho porque é um festival muito importante". Em Portugal, a sua primeira exibição pública foi a 1 de maio de 2012, na secção Observatório Curtas do 9° Festival IndieLisboa.
Festivais O filme percorreu um circuito de Festivais internacionais de cinema, dos quais se destacam os seguintes:
Festival Internacional de Cinema de Vancouver (Canadá, 6 de outubro de 2011); Festival de Cinema de Londres (Reino Unido, 22 de outubro de 2011); Viennale (Áustria, 27 de outubro de 2011); Festival Internacional de Cinema de Gijón (Espanha, 20 de novembro de 2011); Oslo International Film Festival (Noruega, 22 de novembro de 2011); Belfort Entrevues Film Festival (França, 27 de novembro de 2011); Festival Internacional de Cinema de Roterdão (Países Baixos, 29 de janeiro de 2012); Courtisane Festival of Film, Video and Media Art (Bélgica, 24 de março de 2012); Ann Arbor International Film Festival (EUA, 30 de março de 2012); Rencontres du moyen métrage de Brive (França, 13 de abril de 2012); Festival Internacional de Cinema de São Francisco (EUA, 20 de abril de 2012).
Exposições e mostras Palácios de Pena integrou também vários espaços e eventos de arte, de entre os quais:
Mostra de Filmes de Gabriel Abrantes, Galeria Zé dos Bois (Lisboa, 2012); Centro Georges Pompidou (Paris, 6 de fevereiro de 2012); O Mar, BES Arte & Finança (Lisboa, 2013); Museu da Imagem em Movimento (Nova Iorque); Now Instant Image Hall (Los Angeles).
Receção
Crítica O filme foi geralmente bem recebido pela crítica. Joe Bowman (Fin de cinéma) listou Palácios de Pena entre os seus 100 filmes favoritos dos anos 2010. O curador Adam Pugh, escrevendo para Experimenta blog, elogia a cinematografia de Natcho Checa e Eberhard Schedl e admira a dificuldade em categorizar este filme pelo modo como promove "uma curiosa disjunção tanto na narrativa como na forma".
Em Filmuforia, o crítico Michael Pattison apresenta uma opinião mais moderada. Também elogia a cinematografia pelo modo como "desmente o orçamento aparentemente escasso do filme, enquanto Abrantes e Schmidt demonstram muito tato em disfarçar a sua falta de recursos, principalmente por meio de cortes oportunos e cenários remotos bem escolhidos". Ainda assim, considera que os autores não assumiram um compromisso sincero de questionar o status quo com a sua abordagem à temática do filme. Na sua crítica Conrado Heoli (Papo de cinema) atribui apenas uma estrela a Palácios de Pena, apelidando o filme de "obra irregular e oca, por vezes risível", uma vez que "toda sua promissora introdução é logo suprimida pela lacuna de objetividade de Abrantes e Schmidt, que parecem perdidos no abstracionismo de suas ideias – ou da falta delas".
Premiações Apresentam-se de seguida as nomeações e premiações de Palácios de Pena:
|rowspan="2" |2011 |rowspan="2" |Festival Internacional de Cinema de Veneza | Queer Lion |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt | |rowspan="2" | |- |Prémio Horizontes para Melhor Média-metragem |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
|rowspan="10" |2012 | IndieLisboa |Melhor Curta-metragem Portuguesa |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
| Chicago Underground Film Festival 2012 |Prémio do Júri para Melhor Filme Narrativo |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
|Brive Mid-Length Film Meeting |Grand Prix |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
| Ann Arbor Film Festival |Prémio Lawrence Kasdan |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
|25 FPS International Experimental Film and Video Festival |Prémio da Crítica para Melhor Filme |Palácios de Pena, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
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