A Primeira Guerra Luso-Malabar foi o primeiro conflito armado travado pelo Império Português na Ásia e o primeiro de nove contra o Samorim de Calecute, então o potentado preeminente da Costa do Malabar, na Índia.Aniruddha Ray :Towns and Cities of Medieval India: A Brief Survey, Taylor & Francis, 2016, p. 359. Em 1500 rebentaram as hostilidades e continuaram por mais treze anos até que o Samorim foi assassinado, tendo o seu sucessor assinado um tratado de paz com o governador da Índia Afonso de Albuquerque.

O conflito deu-se por questões de comércio. O Samorim, ainda que hindu, estava profundamente dependente e comprometido com a influente comunidade mercantil islâmica de Calecute, cujos mercadores árabes eram pelos portugueses chamados de "mouros de Meca". Apercebendo-se estes da ameaça que os portugueses representavam para os seus interesses, conspiraram e interferiram com as tentativas dos portugueses de comerciar na Índia ou negociar com o Samorim.

Algumas das mais famosas personalidades dos Descobrimentos tomaram parte na guerra, nomeadamente Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque, ao passo que as acções de certos comandantes como Duarte Pacheco Pereira são considerados alguns dos maiores feitos de armas da história militar de Portugal. Envolveu uma parte importante da sociedade portuguesa directamente ou indirectamente, muitos ingressando no serviço a bordo das armadas do rei D. Manuel atraídos pelas promessas de riqueza e glória, não obstante os riscos elevados devido a doença, naufrágio ou acção inimiga. "Tratou-se de um supremo esforço nacional que exigiu todos os recursos disponíveis em termos de mão-de-obra, armação naval, aprovisionamento material e visão estratégica para aproveitar uma janela de oportunidade antes que Espanha tivesse tempo de reagir. Pelo caminho, os portugueses surpreenderam totalmente tanto a Europa como os povos do Oriente."Crowley, 2015, p. 101.

Ao contornarem África e chegarem à Índia por mar, os portugueses incorreram na hostilidade de toda a comunidade mercantil muçulmana envolvida no trato entre a Ásia e o Médio-Oriente, bem como a República de Veneza, cujos interesses comerciais se viram ameaçados.Diffie, 1977, p. 196. Apesar de numerosos, os exércitos de naires do Samorim mostraram ser inflexíveis por comparação às mais pequenas e bem motivadas forças dos portugueses, cujos aliados malabares, também eles hostis ao Samorim, lhes forneciam informações obtidas por espionagem.Crowley, 2015, p. 149. Os portugueses também obtiveram o apoio dos Cristãos de São Tomé.Sanjay Subrahmanyam: The Career and Legend of Vasco da Gama, Cambridge University Press, 1997, p. 218. O Samorim procurou contratar experientes corsários árabes e acolher renegados ou especialistas europeus, o que se revelou, porém, insuficiente.

Dentro de Calecute houve quem favorecesse a paz com os portugueses. As perdas foram pesadas para o Samorim, quer em termos materiais, de vidas ou de prestígios: vários vassalos seus repudiaram a sua suzerania, um grande número de mercadores abandonou a cidade e por fim foi o rajá assassinado. O seu sucessor negociou um tratado com os portugueses e uma fortaleza foi construída em Calecute.

O rei de Cochim era um vassalo rebelde de Calecute, que, fruto da sua aliança aos portugueses emergiu como um contra-poder ao Samorim na Costa do Malabar.

O conflito é também notável por ter sido a primeira guerra travada por Europeus na Índia após a partida dos Seleucos e dos Gregos 1500 anos antes.

Contexto

Décadas após terem os portugueses começado a explorar as costas de África, a 17 de Maio de 1498 Vasco da Gama alcançou Calecute, na Índia.

Calecute era, a este tempo, a mais importante cidade comercial na Costa do Malabar. A cidade continha grande número de mercadores muçulmanos do Egipto ou da Arábia, que 600 anos antes haviam começado a comerciar na cidade. Estes, chamados pelos portugueses de "mouros de Meca", importavam grandes quantidades de valiosos bens do médio-oriente por via do Mar Vermelho em grandes frotas e exportavam produtos locais, tais como especiarias, maioritariamente pimenta. Esta carga era comprada em Alexandria, no Egipto, por venezianos, que a redistribuíam pela Europa. Como consequência, eram os "mouros de Meca" extremamente ricos e influentes em Calecute.Danvers, 1894, volume I, p. 48.

Agradado com a chegada de mais um grupo de estrangeiros que aumentassem o fluxo comercial na sua cidade, o Samorim prometeu aos portugueses providenciar-lhes tanta carga quanto desejassem. A poderosa comunidade dos "mouros de Meca", porém, procurou sabotar e interferir com os portugueses até que fossem expulsos do país, ciosos dos seus interesses e temendo a competição dos portugueses."The Moorish traders of Calicut having heard of the message sent from the King to the Portuguese, offering to supply them with the principal product of that country, and fearing that if they were once admitted to trade here they would limit themselves to that port, but would extend their commerce to other Indian marts, resolved to adopt every means to get them turned out of the country. This decision they then communicated to other Moorish merchants throughout the coasts of India; and with the view of at once carrying their purpose into effect they placed themselves in communication with the King's chief factor, who was the principal overseer of his exchequer, and with the King's gazil, or minister of justice." in Danvers, 1894, volume I, pp. 49-50. Pressionaram o Samorim a não assinar quaisquer tratados com os recém-chegados, difamavam-nos e subornavam importantes ministros do Samorim.Danvers, 1894, volume I, p. 50. Um mercador que se havia convertido ao Islamismo avisou o Gama deste complot pessoalmente, a bordo da sua nau almirante. Os enviados portugueses viram-se sujeitos a constantes demoras mas, eventualmente, foi-lhes autorizada a abertura de uma feitoria na cidade. Ao feitor enviado a terra pelo Gama a comprar especiarias não lhe eram fornecidos senão produtos de baixa-qualidade mas o feitor fingia não reparar e pagava sempre grandes somas de dinheiro pela mercadoria. O primeiro-ministro do Samorim foi subornado e sugeriu que os portugueses fossem capturados e executados, pois dizia ele que eram espiões.

Ao Gama foi-lhe por fim autorizada uma audiência com o Samorim em pessoa e logrou entregar-lhe uma carta escrita pelo rei D. Manuel, mas mais tarde foi o capitão-mor detido por uns dias e mantido sob vigia pelo chefe da guarda real. O Samorim ordenou então a execução dos portugueses cativos bem com o confisco dos seus bens na feitoria mas mudou de ideias e permitiu ao Gama que partisse, com um pedido de desculpas.Danvers, 1894, volume I, pp. 51-59.

Não obstante as numerosas gafes e deficiências, a expedição do Gama saldou-se num sucesso retumbante. Regressado a Portugal, foi recebido como um herói, e o seu feito foi celebrado pelo país com acções de graça públicas, festas e entretenimentos para o povo.Danvers, 1894, volume I, pp. 65-66. Entre outras coisas, entregou ao rei uma carta do Samorim que dizia:

Casus belli

O rei D. Manuel decidiu seguir com uma nova e maior expedição e, no ano seguinte, uma poderosa esquadra de 13 navios foi entregue a Pedro Álvares Cabral, cujos objectivos eram o de intimidar os muçulmanos que certamente se lhes oporiam e impressionar o Samorim com ricos presentes. Tripulavam-na 1200 homens escolhidos cuidadosamente, entre os quais se contavam alguns dos mais audazes e conhecidos navegantes da época, como Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho. Ao Cabral foi-lhe também entregue um estandarte real abençoado pelo bispo de Viseu e partiu a 9 de Março de 1500. As instruções redigidas por D. Manuel contêm muitas informações comerciais mas poucas relativamente a hostilizar o Samorim, que a este tempo ainda se acreditava ser Cristão e com quem, por isso, devia ser forjada uma aliança.Diffie, 1977, p. 221.

A caminho da Índia, Pedro Álvares Cabral descobriu oficialmente o Brasil. A frota chegou à Índia já só com seis navios apenas, pois quatro perderam-se ao dobrarem o Cabo da Boa Esperança, ao passo que duas regressaram a Portugal e uma perdeu o rumo, indo parar ao Mar Vermelho devido à inépcia do piloto.E. Rehatsek: "Historical Sketch of Portuguese India" in The Calcutte Review, volume 73, 1881, p. 41. Lançaram âncora em Calecute a 30 de Agosto. O Samorim que recebera o Gama havia falecido e sucedera-lhe o sobrinho.Crowley, 2015, p. 107. Desembarcou então o Cabral com mais 30 homens e na praia encontrou-se com o Samorim, a quem foram dados ricos presentes. Passados dois meses e meio em negociações, foi assinado um tratado, gravado em placas de metal e uma feitoria aberta novamente na cidade, colocada sob a supervisão do experiente feitor Aires Correia, com 70 europeus.Crowley, 2015, pp. 108-109Whiteway, 1995, p. 85.

O massacre de Calecute

A pedido do Samorim, o Cabral mandou tomar um navio mercante do reino vizinho de Cochim, que transportava uma valiosa carga de elefantes.Crowley, 2015, p. 109. Ainda que o Samorim estivesse disposto a receber os portugueses como clientes pagantes, a mais numerosa comunidade de mercadores muçulmanos procurou sabotar-lhes o fornecimento de pimenta e especiariasDiffie, 1977, p. 220. Interferiam com o fornecimento e passados três meses não haviam os portugueses conseguido carregar mais do que duas naus, ao passo que os navios de carga muçulmanos secretamente partiam recheados.Danvers, 1894, volume I, pp. 69-70. Disto foi o Cabral informado por Coje Bequi, amigo de Aires Correia e campeão de uma facção rival de mercadores em Calecute, os "mouros da terra".Gaspar Correia: Lendas da Índia, 1858, book I, tome I, chapter VIII, p. 190. Quando o capitão-mor apresentou queixa ao Samorim, autorizou-lhe o rajá a apreender quaisquer navios que tentassem furtar-se ao pagamento de taxas mas quando o Cabral confiscou um navio, estalou um motim na cidade.Crowley, 2015, pp. 109-110. A feitoria foi atacada por uma multidão armada e cerca de 50 portugueses foram mortos, entre eles Aires Correia e alguns frades franciscanos, bem como Pero Vaz de Caminha, ao passo que os restantes conseguiram refugiar-se a bordo dos navios, a maioria destes feridos. Algum foram secretamente acolhidos na residência de Coje Bequi.The Three Voyages of Vasco Da Gama, and His Viceroyalty p. 360.

Decorrer das hostilidades Após o massacre na feitoria, Pedro Álvares Cabral exigiu explicações da parte do Samorim, mas nunca chegou à armada qualquer resposta do rajá. Passadas 24 horas, o silêncio do monarca foi entendido como hostil.Danvers, 1894, volume I, p. 70.

O primeiro bombardeamento de Calecute Dez navios mercantes no porto foram tomados e as suas tripulações mortas. Na manhã seguinte Calecuta foi ferozmente bombardeada por dois dias. Alguns canhões em terra, mais pequenos, ripostaram, mas o volume de fogo português era avassalador.Roger Crowley: Conquerors: How Portugal Forged the First Global Empire, Faber & Faber, 2015, p. 111. Vários edifícios foram demolidos pelos tiros de artilharia, entre eles alguns do Samorim, que abandonou a cidade. Os mortos deste bombardeio foram estimados em mais de 500 ou 600 pessoas, incluindo um notável próximo do Samorim, e o bombardeio só cessou devido aos estragos que se verificou estar a ser causado aos cascos dos navios devido ao recuar dos canhões.R. S. Whiteway: Rise of Portuguese Power in India, Asian Educational Services, 1995, p. 87.

A posição dos portugueses era agora precária, pois a época própria para velejar de regresso a Portugal já quase tinha passado, pouca pimenta tinha sido adquirida pelo Cabral e encontravam-se agora em guerra com Calecute sem terem na região qualquer porto amigável.

Alianças com Cochim e Cananor