Cultos: A linguagem secreta do fanatismo (em Inglês, Cultish: The Language of Fanaticism) é um livro de não ficção de 2021 da linguista Amanda Montell sobre o uso da linguagem em cultos. Foi publicado em 15 de junho de 2021 pela Harper Wave.Lançamento: Cultos: A Linguagem Secreta do Fanatismo, por Amanda Montell. Darkside. Consultado em 14 de junho de 2026.
Conteúdo No livro, Montell argumenta que seitas e cultistas podem ser identificados, em particular, pelo uso não convencional da linguagem – como afirmou o acadêmico Scott Lowe, “os termos técnicos, as palavras redefinidas, as abreviações, os clichês, os eufemismos, as distorções lógicas e assim por diante […] distinguem os membros de (e os colocam acima de) seus vizinhos, familiares e colegas de trabalho comuns”.Lowe, Scott (2022). "Cultish: The Language of Fanaticism". Nova Religio. 25 (3): 151–2. Montell não vê necessariamente o “cultismo” – a “linguagem” que ela identifica como o conjunto de truques linguísticos que os líderes de seitas usam para coagir e manipular os membros – de forma negativa, mas acredita que as pessoas deveriam, pelo menos, ser capazes de reconhecê-lo.Gilbert, Sophie (2021-06-10). "We Choose Our Cults Every Day". The Atlantic. 2022-10-04. O livro inclui análises de grupos religiosos como a Igreja da Cientologia, os Meninos de Deus, Jonestown e Heaven's Gate; redes de autoajuda e centros de reabilitação como Synanon (com o qual Montell tem uma ligação pessoal por meio de seu pai) e NXIVM; esquemas de marketing multinível como Amway; academias de ginástica como SoulCycle, CrossFit e Peloton; e grupos e afiliações políticas como o QAnon.Henley, Tara (31 Agosto de 2021). "Five new titles on how cultish tendencies abound". Globe & Mail. pp. A12.Lowe, Scott (2022). "Cultish: The Language of Fanaticism". Nova Religio. 25 (3): 151–2.
Temas e abordagem
Em Cultos: a linguagem secreta do fanatismo, Amanda Montell investiga a relação entre linguagem, identidade coletiva e persuasão social. A autora sustenta que grupos caracterizados por elevado grau de comprometimento ideológico tendem a desenvolver formas específicas de comunicação que contribuem para fortalecer o sentimento de pertencimento, delimitar fronteiras simbólicas entre membros e não membros e consolidar estruturas de autoridade internas. A tese fundamental da autora consiste em demonstrar que grupos classificados como seitas, movimentos sectários ou organizações de forte engajamento coletivo desenvolvem sistemas linguísticos próprios, compostos por vocabulários especializados, redefinições semânticas, siglas, eufemismos, slogans e fórmulas discursivas que favorecem a construção de identidades grupais exclusivas. Tal perspectiva aproxima-se das análises clássicas sobre linguagem e poder desenvolvidas por estudiosos como George Orwell, Victor Klemperer e Michel Foucault, para os quais os sistemas discursivos não apenas descrevem a realidade, mas também condicionam formas de percepção e comportamento.Klemperer, Victor. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.Foucault, Michel. A ordem do discurso. 3. ed. São Paulo: Loyola, 1996.
O principal conceito desenvolvido na obra é o de cultish language ("linguagem cultista"), expressão utilizada por Montell para designar o conjunto de recursos discursivos empregados por líderes, organizações e comunidades altamente coesas para influenciar comportamentos e reforçar identidades coletivas. Entre esses recursos encontram-se a criação de vocabulários especializados, a redefinição de palavras comuns, o uso recorrente de siglas, slogans, fórmulas motivacionais e narrativas compartilhadas.Montell, Amanda. Cultos: a linguagem secreta do fanatismo. São Paulo: DarkSide Books, 2023.
A abordagem da autora fundamenta-se em estudos da linguística, da psicologia social e da sociologia da religião. Nesse contexto, Montell dialoga com pesquisas sobre a influência da linguagem na construção da realidade social, aproximando-se de discussões desenvolvidas por autores como Victor Klemperer, que analisou a linguagem política do nacional-socialismo, e Michel Foucault, que investigou as relações entre discurso e poder.Klemperer, Victor. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.Foucault, Michel. A ordem do discurso. 3. ed. São Paulo: Loyola, 1996.
Embora examine grupos religiosos frequentemente classificados como seitas, a autora amplia o escopo de sua análise para incluir organizações empresariais, programas de autoajuda, movimentos políticos e comunidades digitais. Segundo Montell, tais grupos compartilham estratégias linguísticas destinadas a produzir coesão interna, incentivar o engajamento dos participantes e promover narrativas coletivas de transformação ou pertencimento.Montell, Amanda. Cultos: a linguagem secreta do fanatismo. São Paulo: DarkSide Books, 2023.
Outro tema recorrente na obra é a distinção entre persuasão e manipulação. A autora argumenta que os mecanismos linguísticos identificados não são necessariamente prejudiciais ou coercitivos em si mesmos, podendo ser encontrados em comunidades religiosas, organizações profissionais, movimentos sociais e marcas comerciais. Sua análise concentra-se menos na classificação moral dos grupos estudados do que na identificação dos processos discursivos utilizados para criar vínculos emocionais e fidelidade entre seus participantes.Montell, Amanda. Cultos: a linguagem secreta do fanatismo. São Paulo: DarkSide Books, 2023.
O livro também aborda o papel das mídias digitais na difusão de linguagens grupais. Montell argumenta que plataformas de comunicação em rede facilitaram a disseminação de vocabulários compartilhados, expressões identitárias e narrativas coletivas, ampliando o alcance de comunidades ideológicas e movimentos de forte engajamento. A autora relaciona esse fenômeno ao crescimento de comunidades virtuais e à circulação de discursos conspiratórios e polarizados no ambiente digital contemporâneo.Montell, Amanda. Cultos: a linguagem secreta do fanatismo. São Paulo: DarkSide Books, 2023.
Recepção crítica e debates interpretativos
Os críticos destacaram o estilo coloquial da obra. Erin Downey Howerton, da Booklist, por exemplo, escreve que "ler Montell é como uma conversa agradável com seu melhor amigo — embora focada em obsessão, truques de linguagem e manipulação".Howerton, Erin Downey (May 2021). "Cultish: The Language of Fanaticism". Booklist. 117 (18): 5. Um crítico da Kirkus Reviews classificou a prosa do livro como "acessível"."Cultish: The Language of Fanaticism". Kirkus Reviews. 89 (10). May 2021.
Acadêmicos, em geral, consideraram o livro de Montell uma boa introdução para não acadêmicos a alguns conceitos do estudo acadêmico de novos movimentos religiosos. Lowe, da Nova Religio, escreve que o livro é um "exemplo fascinante de um não acadêmico dizendo a acadêmicos o que eles já sabem com uma clareza que parece uma revelação".Lowe, Scott (2022). "Cultish: The Language of Fanaticism". Nova Religio. 25 (3): 151–2. A acadêmica Jennifer Wilson, da The New Republic, escreve que "a maioria das pessoas que lerem Cultish se sentirá convencida de que, em algum momento de suas vidas, estiveram em uma seita".Wilson, Jennifer (2021-06-28). "How to Spot a Cult". The New Republic. ISSN 0028-6583. Um crítico da Publishers Weekly observa que "as digressões pessoais... ocasionalmente distraem do panorama geral", mas, no geral, acredita que Montell é uma narradora envolvente e bem informada."Cultish: The Language of Fanaticism". Publishers Weekly. 268 (17): 71–2. June 2021.
Diversos comentaristas observaram que a principal contribuição da obra consiste em deslocar a análise dos cultos do campo exclusivamente religioso para uma perspectiva mais ampla centrada na linguagem. Por outro lado, alguns críticos apontaram que a utilização de um mesmo quadro interpretativo para fenômenos muito distintos — desde movimentos religiosos até marcas comerciais e academias de ginástica — pode reduzir diferenças importantes entre formas ordinárias de influência social e sistemas efetivamente coercitivos.Martin, Iain. Cultish review: the seductive language of fanaticism. Reaction, 31 jul. 2021. Consultado em 14 jun. 2026. Amanda Montell procura demonstrar que mecanismos discursivos semelhantes podem ser observados em contextos bastante diversos, incluindo empresas, movimentos políticos, grupos de desenvolvimento pessoal, comunidades digitais e marcas comerciais. Essa ampliação do objeto de estudo foi frequentemente apontada como um dos aspectos mais originais da obra, sobretudo por tornar acessíveis ao público geral debates acadêmicos relacionados à linguística social, à retórica da persuasão e à construção discursiva das identidades coletivas.Silva, Malu. Resenha: Cultish – The Language of Fanaticism. Janela Literária, 14 nov. 2023.
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