Maria Inês Rodrigues (Porto Alegre) é uma pintora, artista plástica, gravadora, desenhista e escultora brasileira. Reconhecida na historiografia da arte regional como uma das pioneiras na técnica de gravura em metal no estado do Rio Grande do Sul, foi uma das primeiras mulheres porto-alegrenses a se diplomar em Artes Plásticas e a assumir um papel de vanguarda e libertação feminina no circuito artístico sul-rio-grandense.

Sua produção artística abrange o desenho, a gravura, a pintura, a escultura e a instalação, caracterizando-se pela pesquisa visual de universos simbólicos, lendas de infância e figuras arcaicas. Além da atuação em ateliê, desenvolveu expressiva atividade pedagógica na formação de novos gravadores em cidades como Porto Alegre, Curitiba, Caxias do Sul, Bagé e Gramado.

Biografia e Formação Filha do advogado Paulo Acosta Rodrigues e de Eloah Dornelles Rodrigues, ambos de origem portuguesa e espanhola, Maria Inês Rodrigues iniciou sua trajetória em Porto Alegre, sua cidade natal. Iniciou seus estudos artísticos na juventude, frequentando a partir de 1960 o ateliê dos renomados artistas Vasco Prado e Zoravia Bettiol, com quem estudou desenho por três anos.

Ingressou na Escola de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) in 1961, onde foi aluna de professores históricos como Ado Malagoli, Christina Balbão e Alice Soares, sendo colega de classe de futuros expoentes das artes plásticas, como o escultor Carlos Tenius. Diplomou-se em 1964 e, no mesmo ano, viajou ao Rio de Janeiro, onde estudou com Lori Koch e frequentou o ateliê do mestre modernista Alfredo Volpi. Em 1965, ingressou no curso livre de pintura do MARGS, sob a orientação de Iberê Camargo.

Complementação Acadêmica e Atuação Social (1966) Em 1966, expandiu sua formação ao cursar Didática na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). No mesmo período, desenvolveu uma expressiva atividade humanitária e terapêutica ao trabalhar durante um ano como voluntária em praxiterapia junto às crianças internas do Ambulatório Melanie Klein do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. Ao término desse ciclo, coordenou e realizou uma exposição dedicada exclusivamente aos desenhos produzidos por essas crianças, sediada na Aliança Francesa da capital gaúcha.

No âmbito pessoal, casou-se em 1965 com o médico neurologista Dr. Frederico Dahne Kliemann (de quem se separou em 1978, período em que assinou como *Maria Inês Kliemann*), com quem teve sua filha Flávia. Em 1982, casou-se com o arquiteto e professor Antônio Chaves Barcellos, com quem teve seu filho Luiz Paulo e permaneceu casada até o falecimento do cônjuge em 2020.

Período Europeu e Inserção Internacional Em 1967, viajou para Londres, na Inglaterra, onde estudou Litografia na prestigiada Slade School of Fine Art com Stanley Jones e especializou-se em gravura em metal com o mestre português Bartolomeu dos Santos. Sua inserção internacional incluiu mostras na ALA Gallery e na Universidade de Essex (1968), ao lado de Marcelo Grassmann.

Na década de 1970, consolidou sua circulação na América Latina; em 1974, realizou uma importante exposição individual na Galeria Van Riel, em Buenos Aires, que contou com texto de apresentação escrito pelo renomado escritor Érico Veríssimo. Na ocasião, suas obras passaram a integrar os acervos do Museo Del Grabado e do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires.

Carreira e Atuação Pedagógica Entre as décadas de 1960 e 1990, aliou a produção autoral à atividade didática, ministrando cursos práticos e oficinas de desenho, pintura e gravura em metal em diversas universidades e centros de cultura do Sul do país, como a UFSM e o Museu da Gravura Brasileira, em Bagé.

Na década de 1980, expandiu sua pesquisa para o campo pictórico, realizando exposições individuais e coletivas em espaços de destaque no mercado de arte nacional, como a prestigiada Galeria Bonino, no Rio de Janeiro — inclusive na mostra comemorativa de 25 anos do espaço —, e a Fundação Mokiti Okada, em São Paulo.

A partir da década de 1990, passou a se dedicar à tridimensionalidade através de esculturas em bronze e resina, além de instalações conceituais de grande escala e intervenções urbanas, mantendo exposições regulares em espaços como a Gravura Galeria de Arte. Nesse período, expandiu sua circulação internacional com mostras e leilões beneficentes em Toronto, no Canadá.

Estilo e Análise Crítica A obra de Maria Inês Rodrigues afasta-se de concessões puramente estéticas, orientando-se por interrogações essenciais por meio de três tendências expressivas declaradas pela própria artista: o grotesco, o satírico e o lírico. Segundo o crítico de arte e poeta Armindo Trevisan, a produção da artista é pautada por duas qualidades fundamentais: a tenacidade (voltada ao apuro formal e ao rigor técnico da gravura) e a inquietude (que a impele a novos desafios tridimensionais e anseios sociais). Trevisan destaca nas gravuras em metal da artista uma "tensão sintetizadora" notável, focada principalmente em figuras arquetípicas como músicos, feiticeiros e no universo da maternidade.

Em depoimento pessoal sobre o seu processo criativo, a artista declarou: "Sinto meu trabalho como o de um arqueólogo buscando em mim mesma as imagens e formas ancestrais plenas de emoção, símbolos e lendas da infância, formas arcaicas de minha inventiva que se materializam mostrando o interior de todos. Os medos cotidianos e as agressões das máscaras revelam a competição feroz da sociedade em sua privacidade, resultando, de certa forma, em uma outra história da sociedade atual."

Fases Artísticas Cronologicamente, a produção da artista divide-se em três períodos principais de experimentação de linguagens: 1960–1980: Período focado predominantemente no desenho e no desenvolvimento técnico e pioneiro da gravura em metal (especialmente água-forte e água-tinta). 1980–1990: Fase de transição e expansão para a linguagem pictórica, com ênfase na pintura em tela. 1990–2002: Período voltado para a tridimensionalidade, com a produção de esculturas em bronze e resina, além de instalações de grande escala integradas ao espaço urbano e arquitetônico.

Obras Relevantes

Gravuras Na linguagem gráfica, a produção de Maria Inês Rodrigues é marcada pelo pioneirismo técnico e pelo rigor formal na gravura em metal, utilizando processos complexos como a água-forte e a água-tinta. Suas gravuras articulam oposições visuais e uma forte autocrítica, resultando em composições de alta tensão sintética. Tematicamente, este suporte concentra pesquisas sobre figuras arquetípicas da ancestralidade, músicos, feiticeiros, e uma constante investigação sensível em torno da maternidade.

Sem título (s.d.) — Gravura em metal (água-forte e água-tinta), integrante do acervo permanente do MARGS. Sem título (s.d.) — Gravura em metal (água-tinta), integrante do acervo do MAB - Museu de Arte Brasileira (FAAP). Cadernos dos Insensatos (1992) — Álbum de eletrogravuras e textos autorais lançado na Galeria Espaço Novos Meios da Casa de Cultura Mário Quintana.

Pinturas A transição para a pintura em tela, consolidada na década de 1980, expandiu o universo imaginário da artista para além do plano gráfico. Suas telas exploram uma paleta cromática e texturas que transitam entre três grandes tendências de sua poética: o grotesco, o satírico e o lírico. Através da pintura, a artista materializa de forma quase arqueológica as formas ancestrais da infância e os medos cotidianos, desafiando o espectador por meio de interrogações visuais essenciais e da expressividade de suas figuras, recebendo avaliações elogiosas de críticos renomados como Ferreira Gullar (1984) e Jacob Klintowitz (1985).

Sem título (s.d.) — Obras em pintura sobre tela integrantes de acervos particulares no Brasil e exterior. Me Dejas Loco América (1997) — Instalação pictórica e projeto de intervenção urbana coordenado pela artista, reunindo 20 criadores do Cone Sul no Mercado Público de Porto Alegre em homenagem à I Bienal do Mercosul.

Esculturas e Instalações A partir da década de 1990, a inquietude e a versatilidade da artista a conduziram em direção à tridimensionalidade e ao espaço público. Sua produção de esculturas em bronze e resina de poliéster preserva a densidade de sua pesquisa de formas arcaicas, enquanto suas instalações conceituais de grande escala assumiram uma forte dimensão social e de interferência urbana. Esses projetos coletivos, frequentemente coordenados por ela, buscavam resgatar a memória cultural e romper as barreiras tradicionais do circuito de arte.

Projeto da Vida / Proteja a Vida (1992) — Instalação coletiva composta por doze grandes pinturas em tecido de algodão (3,5 x 1,6 m) apresentada na fachada de um prédio público no Rio de Janeiro durante a ECO-92, com posterior itinerância pela Casa de Cultura Mário Quintana, São Paulo e São Francisco (EUA). Árvore da Vida (1992) — Duas grandes pinturas em tecido de algodão (3 x 1 m) apresentadas no átrio da Casa de Cultura Mário Quintana a convite da própria instituição. Brasil 500 Anos: Navegadores de Imagens (1999–2000) — Instalação conceitual e urbana idealizada e coordenada pela artista, reunindo obras de 18 pintores em telas formato vela náutica (6 m de altura) montadas na orla do Rio Guaíba, junto à Usina do Gasômetro. Sem título (s.d.) — Produção autoral de esculturas em bronze e resina de poliéster desenvolvidas a partir da década de 1990, com registros de acervo na Casa de Cultura Laura Alvim (RJ) e coleções privadas.

Exposições e Projetos

Exposições Individuais 1967: Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano (Porto Alegre, RS) — Desenho e pintura. 1968: ALA Gallery (Londres, Inglaterra) — Gravuras em metal. 1969: Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano (Porto Alegre, RS) — Gravuras em metal. 1972: Galeria Esphera (Porto Alegre, RS) — Gravuras em metal. 1972: Museu de Arte Moderna do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS) — Gravuras em metal por convite do DEC - Departamento de Educação e Cultura. 1972: Galeria Yázigi (Caxias do Sul, RS) — Gravuras. 1973: Galeria U (Punta del Este, Uruguai) — Gravura em metal. 1973: Galeria Van Riel (Buenos Aires, Argentina) — Gravura em metal. 1974: Galeria do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS) — Gravura. 1975: Galeria Bonino (Rio de Janeiro, RJ) — Gravuras em água-tinta e água-forte. 1976: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS). 1976: Centro de Cultura de Curitiba (Curitiba, PR) — Gravuras em metal. 1979: Galeria Studiu’s (Porto Alegre, RS) — Pintura. 1980: Galeria Quadro / Escritório de Arte / SENAC (Porto Alegre, RS) — Mostra inaugural. 1980: Galeria Van Gogh (Pelotas, RS) — Pintura. 1981: Museu da Gravura Brasileira (Bagé, RS) / Galeria Casa Velha (Gramado, Novo Hamburgo e Serra Azul, RS) / UFSM (Santa Maria, RS). 1983: Galeria do Continental Torres Hotel (Torres, RS). 1984: Galeria Bonino (Rio de Janeiro, RJ) — Mostra de 25 anos da galeria. 1985: Galeria Ars Artis (São Paulo, SP) / Associação Leopoldina Juvenil (Porto Alegre, RS) — Pintura. 1986: Alencastro Guimarães Galeria de Arte (Porto Alegre, RS) — Pintura. 1987: Atelier de Arte Cristina Gonzáles (Porto Alegre, RS) — Pintura. 1988: Galeria Singular (Porto Alegre, RS) / Galeria Camaquã (Camaquã, RS) — Pintura. 1989: Galeria Grafite (Uruguaiana, RS) — Pintura e gravura. 1990: Museu Leopoldo Gotuzzo (Pelotas, RS) — Pintura e gravura em metal. 1992: Faculdade Ritter dos Reis (Porto Alegre, RS) — Instalação O Homem: Urbanismo. 1992: Galeria Espaço Novos Meios, CCMQ (Porto Alegre, RS) — Pinturas e lançamento de álbum. 1993: Galeria Bonino (Rio de Janeiro, RJ) / Galeria Marisa Soibelman (Porto Alegre, RS) / Casa de Cultura Laura Alvim (Rio de Janeiro, RJ) — Pinturas e esculturas em bronze. 1995: Gallery Grande (Toronto, Canadá) — Pinturas e esculturas em bronze.