miniaturadaimagem|Assinatura (M. A. S. C.) Mary Ann Camberton Shadd Cary (Wilmington, 9 de outubro de 1823 — Washington, D.C., 5 de junho de 1893) foi uma educadora, jornalista e advogada américo-canadense engajada na luta contra a escravidão. Mary Ann faleceu de câncer de estômago em 5 de junho de 1893, em Washington, D.C., onde foi sepultada no .
Biografia Mary Ann foi a primeira afro-americana a fundar um jornal semanal na América do Norte. Destacou-se como a segunda mulher negra nos Estados Unidos a ingressar na Faculdade de Direito da Howard University, em 1869. Em 1853, fundou o periódico , que se tornou o primeiro jornal em defesa da abolição no Canadá. Ele serviu como veículo da organização das comunidades negras livres e refugiadas.
Infância Shadd Cary foi uma das treze crianças de uma família profundamente envolvida na luta abolicionista. Era filha de e Harriet Burton Parnell, ambos ativistas abolicionistas e membros da Sociedade Antiesclavagista Americana. Sua família desempenhava um papel ativo na Ferrovia Subterrânea, onde Abraham Shadd atuava como condutor, utilizando suas residências em Wilmington e West Chester como pontos de passagem (waystations) para pessoas em fuga. Ele escondia escravizados fugitivos e os abastecia com alimentos, roupas e orientações sobre o trajeto rumo ao norte.SHADD, Mary Ann. Um apelo à emigração. Organização e tradução de Allison Silveira Morais, Fabricio Leal Cogo e Hislla S. M. Ramalho. Florianópolis, SC: Cultura e Barbárie, 2023. E-book em PDF. Disponível em: [] Acesso em: 26 abr. 2026.
Muitos dos irmãos de Mary Ann também se destacaram em trajetórias públicas notórias.
Isaac D. Shadd mudou-se para o Mississippi em 1870 e foi eleito, no ano seguinte, representante do condado de Warren na Assembleia Legislativa do estado. Durante sua atuação parlamentar, presidiu a Comissão de Condados e Limites de Condados e integrou as comissões de Justiça e Educação. Entre 1874 e 1875, exerceu a função de presidente da .
Eunice P. Shadd mudou-se para Washington, D.C., onde estudou na Howard University. Após formar-se na Escola Normal da instituição em 1872, lecionou em escolas públicas e ingressou no curso de Medicina da Howard University em 1875, graduando-se em 1877. Em seguida, exerceu a profissão médica em Xenia, no estado do Ohio.
Abraham W. Shadd estudou Direito na Universidade Harvard e trabalhou como advogado em North Buxton, Ontário.
Vida adulta e trabalho educacional miniaturadaimagem|Placa em homenagem a Mary Ann Shadd Cary em Chatham, Ontário, concedida pelo Conselho Nacional de Locais e Monumentos Históricos. Foi considerada uma pessoa de em 1994. A educação ocupava um papel central na abordagem de Shadd em relação à igualdade racial. Pelo contexto familiar, ela começou a lecionar ainda na adolescência. Em 1840, aos dezesseis anos, fundou uma escola para crianças negras em Wilmington, Delaware, em um período em que a legislação do estado restringia ou até proibia a educação de pessoas afro-americanas.
Posteriormente, ainda na década de 1840, Shadd deu aulas em Norristown, na Pensilvânia, na cidade de Nova Iorque e em outras comunidades do norte do país, acumulando experiência em redes de educadores negros e abolicionistas. Em 1850, Mary Ann escreveu para Frederick Douglass, que havia perguntado aos leitores do jornal The North Star quais medidas poderiam ser tomadas para melhorar a vida dos afro-americanos. Nesta ocasião, Shadd, aos 25 anos de idade, escreveu: "Devemos fazer mais e falar menos". Sua crítica ao movimento abolicionista dominado por homens é simbólica de sua posição acerca da luta por direitos da comunidade afro-americana:
miniaturadaimagem|A Casa de Mary Ann Shadd Cary, localizada na Rua W, nº 1421, em Washington, D.C, em 28 de maio de 2008. O edifício foi considerado um Marco Histórico Nacional em 1976.A publicação desta carta, feita por Douglass, tornou-se a primeira obra publicada de Shadd Cary. Em decorrência disso, um desacordo com membros da geração mais velha do movimento surgiu, mas também a definiu como uma voz jovem e não convencional.
Após a aprovação da Lei do Escravo Fugitivo de 1850, Shadd emigrou para o o oeste do Canadá (atual Ontário). Em 1851, abriu uma escola em Windsor, e pouco depois, fundou outra em Chatham, também em Ontário, atendendo filhos de famílias anteriormente escravizadas e de pessoas negras livres que haviam migrado para o norte. A escola de Windsor oferecia aulas para todos os gêneros. O período diurno atendia às crianças e o ensino noturno, aos adultos, muitos dos quais haviam sido privados da alfabetização durante a escravidão.
Mary Ann costumava visitar, a cavalo, diferentes comunidades nos Estados Unidos para falar sobre a vida no Canadá e angariar assinaturas para o financiamento do jornal. Contudo, em 1859, o não conseguia mais se manter financeiramente e deixou de existir.
Em 1856, Mary Ann casou-se com Thomas F. Cary, um barbeiro que também tinha envolvimento com o The Provincial Freeman. Eles tiveram uma filha chamada Sarah Elizabeth e um filho chamado Linton.Census of Nova Scotia, 1851. Halifax, Nova Scotia, Canada: Nova Scotia Archives and Records Management, Nova Scotia Board of Statistics, 1851. Em 1860, Thomas F. Cary faleceu.
Ativismo social Numa época em que escolas separadas para estudantes negros eram comuns em partes do oeste do Canadá e dos Estados Unidos, Shadd se opunha à manutenção de sistemas educacionais segregados e defendia a integração racial nas escolas. Ela defendia que crianças negras deveriam frequentar escolas comuns junto com estudantes brancos sempre que possível. Essa posição a colocou em desacordo com alguns líderes negros que apoiavam instituições separadas como uma resposta pragmática à desigualdade.
Para Shadd, a educação não era uma forma de caridade, mas uma preparação para a cidadania. Ela enfatizava a alfabetização, a disciplina e a independência econômica, defendendo que o progresso exigia "autossuficiência em vez de dependência". Em seus discursos e, posteriormente, nas páginas do , ela apresentava a escolarização tanto como uma formação prática quanto como uma afirmação política.miniaturadaimagem|Howard University, em Washington, D.C., Estados Unidos.Após o início da Guerra Civil Americana (1861–1865), Mary Ann Shadd Cary retornou aos Estados Unidos e passou a atuar como agente de recrutamento para o Exército da União, trabalhando no estado de Indiana a pedido de . A participação de Shadd Cary esteve ligada aos esforços de mobilização de homens negros para o serviço militar durante o conflito. Com o fim da guerra, mudou-se para Washington, D.C., onde continuou sua atuação como educadora. Em 1867, ingressou na Faculdade de Direito da Howard University, conciliando os estudos jurídicos com sua militância política. Após sua formação, dedicou-se à defesa dos direitos civis e participou de movimentos pelo sufrágio feminino, trabalhando ao lado de Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton. Ela prestou depoimento ao Congresso dos Estados Unidos em apoio às 14.ª e 15.ª Emendas. Shadd Cary criticou a ausência de uma formulação constitucional neutra em relação ao gênero, defendendo uma ampliação mais abrangente dos direitos políticos.
Fim da vida Nos últimos anos de sua vida, Cary residiu em uma casa no bairro Northwest de Washington, D.C., atualmente reconhecida como marco histórico por sua relação com a luta pelos direitos civis e pela participação das mulheres na vida pública. A propriedade também passou a ser valorizada por seu vínculo com o movimento pelo sufrágio feminino, destacando a atuação de Shadd Cary na defesa da igualdade racial e de gênero.
Mary Ann Shadd Cary morreu de câncer de estômago em 5 de junho de 1893 e foi sepultada no , em Washington, D.C. Apesar de seu legado, Shadd foi enterrada em uma sepultura sem identificação. Somente no final do século XX que suas contribuições foram formalmente reconhecidas e sua sepultura identificada.
Memória miniaturadaimagem|Busto de Mary Ann Shadd Cary criado por Artis Lane, no Freedom Park, Chatham, Ontario, Canadá. Foto de 6 de julho de 2025. miniaturadaimagem|Edição de 2 de setembro de 1854 do The Provincial Freeman em Ontário. O subtítulo diz "Devoto ao anti-escravismo, temperança e literatura geral". Homenagens institucionais e inclusões em honrários
Em 1987, ela foi nomeada homenageada do Mês da História da Mulher pelo Projeto Nacional de História da Mulher. Em 1998, Shadd Cary foi incluída no Hall da Fama Nacional das Mulheres. Em 14 de fevereiro de 2008, ela foi homenageada num debate no Senado do Canadá.
Inclusão educacional e cívica
Shadd Cary é destaque no guia de estudo para o teste de cidadania do Canadá, lançado em 2009. Em 2021, foi criada a Agência dos Correios Mary Ann Shadd Cary, na Avenida Delaware, n° 500, em Wilmington, no estado de Delaware.
Monumentos públicos e homenagens visuais No BME Freedom Park, placas da província de Ontário também prestam homenagem a ela e ao seu jornal, o . Em Toronto, uma placa da Heritage Toronto marca o local onde ela publicou o The Provincial Freeman enquanto morava na cidade, de 1854 a 1855. O 197º aniversário de Shadd foi comemorado com um Doodle do Google em 9 de outubro de 2020, exibido em todo o Canadá, nos Estados Unidos, na Letônia, no Senegal, em Gana, na Nigéria, no Quênia, na Tanzânia e na África do Sul. Shadd é retratada em um selo postal canadense emitido em 29 de janeiro de 2024. O selo faz parte da série de selos do Mês da Herança Negra do Canadá. Em 12 de maio de 2022, a Universidade de Windsor, em Ontário, Canadá, inaugurou uma estátua de bronze de Mary Ann Shadd Cary, criada pela artista local Donna Mayne. Membros da família Shadd e seus descendentes compareceram à cerimônia de inauguração.
Preservação e visitação
O , localizado na A.D. Shadd Road, em North Buxton, Ontário, preserva conexões diretas com Mary Ann Shadd Cary, sua família e a luta abolicionista. O museu guarda a prensa tipográfica original utilizada por Shadd Cary na publicação do The Provincial Freeman. Este museu situa-se no terreno que pertencia ao seu pai, . O espaço também disponibiliza visitação de forma virtual e tridimensional por meio da plataforma Matterport.
Acervo miniaturadaimagem|O prédio de pesquisa da Universidade Iorque e dos Arquivos de Ontário em 2009. O acervo de Mary Ann Shadd Cary (F 1409) na Universidade Iorque é uma das poucas coleções remanescentes criadas por Mary Ann Shadd Cary que se encontram sob a custódia de uma instituição arquivística. Os materiais oferecem uma visão dos anos em que ela viveu no oeste do Canadá (atual Ontário) entre 1851 e 1863. Este acervo contém cartas trocadas por Mary Ann com familiares e outros abolicionistas, como , e , entre outros. Além disso, há também registros comerciais, anotações de palestras e cópias de artigos escritos por ela. Estes artigos abrangem o apoio das escolas racialmente integradas, o combate à segregação e mais detalhes sobre o .
Estes registros foram encontrados em 1974 após a demolição de um edifício onde Mary Ann morou em Chatham, Ontário, e que não foram levados por ela durante seu retorno aos Estados Unidos. Na Universidade Iorque, o material foi tratado e microfilmado. Em 14 de fevereiro de 2023, as recém-digitalizadas coleções de Mary Ann Shadd Cary foram transcritas. Hoje, a coleção de Mary Ann está na Biblioteca e Arquivos do Canadá sob número R4182-0-X-E, cujo número anterior era MG24-K22.
Obras A contribuição mais famosa de Mary Ann foi publicada em 1852 sob o título "A plea for Emigration or, Notes of Canada West, in its Moral, Social and Political Aspect: with Suggestions Respecting Mexico, W. Indies and Vancouver's Island for the Information of Colored Emigrants". Foi uma convocação para que afro-americanos se mudassem para o oeste do Canadá para escapar a opressão racial e discriminação vividas nos Estados Unidos.
Ver também Abolicionismo nos Estados Unidos Ferrovia Subterrânea Feminismo negro