thumb|Bahia, de Wilson Tibério|200px Bahia é uma pintura a óleo sobre tela do artista afro-brasileiro Wilson Tibério, concluída em 1946. Integra o acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. A obra retrata uma mulher negra acompanhada por duas crianças, organizadas numa composição triangular, num ambiente doméstico modesto que inclui um pequeno altar no canto superior direito da parede.
A pintura resultou da estadia de Tibério em Salvador, na Bahia, em 1946. Segundo Bruno Pinheiro, o artista produziu cerca de cento e vinte e sete obras em oito meses, documentando o cotidiano da população negra da cidade. Para o mesmo autor, a composição de Bahia retoma a organização triangular de três figuras humanas presente em Mãe Preta (1912), de Lucílio de Albuquerque, obra que Tibério provavelmente conheceu durante sua permanência em Salvador, onde tanto o original quanto uma cópia realizada por Presciliano Silva encontravam-se acessíveis ao público. Pinheiro observa que, diferentemente da pintura de Albuquerque, Bahia apresenta um núcleo familiar reunido, no qual as duas crianças permanecem junto à figura materna, o que o pesquisador interpreta como uma resposta consciente à tradição de representação da mulher negra na pintura brasileira.
Na leitura de Pinheiro, Bahia integra um processo mais amplo de revisão das representações da população negra na arte brasileira, estabelecendo um contraponto à iconografia da "Mãe Preta" produzida por artistas brancos nas primeiras décadas do século XX e inserindo-se num movimento de afirmação de uma perspectiva negra sobre a maternidade e a vida cotidiana. O autor relaciona essa disputa simbólica ao contexto intelectual que culminaria, alguns anos depois, na proposta de criação de um Museu de Arte Negra por Abdias do Nascimento, em 1950, colega de Tibério na fundação do Teatro Experimental do Negro, em 1944.
Contexto Wilson Tibério nasceu em Porto Alegre. As fontes biográficas divergem quanto ao seu ano de nascimento, indicando 1916, 1920 ou 1923. Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou na Escola Nacional de Belas Artes e se aproximou de figuras como Luís Carlos Prestes e Abdias do Nascimento, com quem debateu as ideias que levariam à fundação do Teatro Experimental do Negro, em 1944.
Em 1946, Tibério filiou-se ao Partido Comunista do Brasil. Segundo Bruno Pinheiro, essa inserção em redes políticas e intelectuais favoreceu a documentação artística do cotidiano da população negra de Salvador durante sua permanência na Bahia em 1946. Ainda em 1946, expôs seu trabalho no Rio de Janeiro, no Ministério da Educação e Cultura, e no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, exposição na qual conheceu o conselheiro cultural da Embaixada da França, que lhe ofereceria, no ano seguinte, uma bolsa de estudos para aperfeiçoamento técnico em Paris. Tibério deixou o Brasil em 1947 para instalar-se na Europa, onde viveu até sua morte, em 2005, sem retornar ao país.
Descrição A pintura representa uma mulher negra acompanhada por duas crianças, organizadas segundo uma composição triangular. A mulher ocupa o centro da cena, enquanto as crianças se distribuem ao seu redor. Os três personagens encontram-se em um ambiente doméstico modesto, composto por paredes simples, mobiliário reduzido e um pequeno altar instalado no canto superior direito da parede. As figuras vestem roupas simples, porém bem cuidadas, e estabelecem entre si uma relação de proximidade que estrutura visualmente a composição.
Análise
Segundo Bruno Pinheiro, Bahia dialoga diretamente com Mãe Preta (1912), de Lucílio de Albuquerque, retomando a organização triangular das figuras humanas presente na pintura anterior. O autor considera provável que Wilson Tibério tenha conhecido a obra durante sua permanência em Salvador, onde tanto o original quanto uma cópia realizada por Presciliano Silva encontravam-se acessíveis ao público.
Pinheiro observa que, diferentemente da pintura de Albuquerque, Bahia apresenta um núcleo familiar reunido, no qual as duas crianças permanecem junto à figura materna. Para o pesquisador, essa alteração constitui uma resposta consciente à tradição de representação da mulher negra na pintura brasileira e se contrapõe à separação entre mãe e criança negra presente em Mãe Preta.
O pesquisador interpreta ainda o pequeno altar representado no ambiente doméstico como uma possível referência ao culto aos orixás, tema recorrente na produção de Tibério durante sua permanência na Bahia.
Acervo e documentação Bahia integra o acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Um dossiê sobre a pintura, organizado pelo escritor e ativista Oliveira Silveira a partir de tradução livre de documentação em francês, encontra-se depositado na mesma instituição.
Ver também Museu Afro Brasil
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