thumb|Mapa dos grupos de regimes históricos de fogo modelados pelo programa LANDFIRE nos Estados Unidos contíguos. As classes combinam intervalos de frequência do fogo e severidade estimada.|320x320pxRegime de fogo é o padrão espacial e temporal das ocorrências de fogo num determinado território ou ecossistema, e dos seus efeitos ecológicos. É habitualmente caracterizado por componentes como a frequência, o intervalo entre fogos, a sazonalidade, a extensão, o tipo de fogo, a intensidade, a severidade e as fontes de ignição.

O conceito é utilizado na ecologia da perturbação para descrever a relação recorrente entre o fogo, a vegetação, o clima, os combustíveis e as actividades humanas. Um regime de fogo não corresponde a um incêndio isolado, mas ao conjunto de características das ocorrências de fogo ao longo do tempo e numa área definida.

Componentes

A caracterização de um regime de fogo depende da escala temporal e espacial escolhida. Uma mesma paisagem pode apresentar diferenças consideráveis entre vertentes, tipos de vegetação ou períodos históricos, pelo que valores médios podem ocultar variações importantes na distribuição do fogo.

Frequência e intervalo entre fogos

A frequência corresponde ao número de ocorrências de fogo numa área durante um período determinado. O intervalo entre fogos designa o tempo decorrido entre duas ocorrências sucessivas num mesmo local ou unidade territorial.

A frequência e os intervalos de retorno influenciam a capacidade de recuperação das espécies e das comunidades ecológicas. Em ecossistemas sujeitos a fogo recorrente, algumas plantas possuem características que lhes permitem resistir ao fogo, rebentar após a sua passagem ou regenerar-se através de sementes cuja libertação ou germinação é favorecida pelo calor.

Sazonalidade

A sazonalidade corresponde à distribuição das ocorrências de fogo ao longo do ano. Pode ser condicionada por ciclos de precipitação, temperatura, humidade dos combustíveis, actividade de descargas atmosféricas, práticas agrícolas e outras formas de uso humano do fogo.

Fogos ocorridos em diferentes épocas do ano podem produzir efeitos distintos sobre a vegetação, a fauna, os solos e a disponibilidade de sementes, mesmo quando a área ardida ou a intensidade são semelhantes.

Extensão e padrão espacial

A extensão corresponde à área afectada por cada ocorrência ou pelo conjunto das ocorrências numa determinada paisagem. O padrão espacial inclui a localização, a continuidade e a distribuição dos perímetros ardidos, bem como a formação de mosaicos de áreas queimadas e não queimadas.

A dimensão e a configuração das áreas ardidas influenciam a conectividade dos habitats, a sobrevivência de organismos durante o fogo e as possibilidades de recolonização posteriores.

Tipo de fogo, intensidade e severidade

O tipo de fogo pode variar conforme a posição da combustão na estrutura da vegetação, incluindo fogo de subsolo, de superfície e de copas. A intensidade refere-se à energia libertada pelo fogo, enquanto a severidade descreve o grau de alteração provocado no ecossistema, incluindo efeitos sobre a vegetação, o solo e os organismos.

A intensidade e a severidade estão relacionadas, mas não são sinónimos: fogos com intensidade semelhante podem produzir efeitos ecológicos diferentes consoante o tipo de combustível, a humidade do solo, a época do ano e a capacidade de recuperação da vegetação.

Fontes de ignição

As ignições podem ser naturais, sobretudo provocadas por descargas atmosféricas, ou estar associadas a actividades humanas, acidentais, negligentes, intencionais ou planeadas.

A proporção entre ignições naturais e humanas constitui um dos elementos que pode distinguir regimes de fogo semelhantes em termos climáticos ou de vegetação.

Factores condicionantes

Os regimes de fogo resultam da interacção entre condições meteorológicas, clima, disponibilidade e estrutura dos combustíveis, topografia, fontes de ignição e actividade humana.

A vegetação condiciona a quantidade, continuidade, humidade e inflamabilidade dos combustíveis disponíveis. A produtividade vegetal pode aumentar a quantidade de biomassa disponível para arder, enquanto a humidade e a descontinuidade dos combustíveis podem limitar a propagação do fogo.

O clima influencia tanto a produção de biomassa como as condições favoráveis à combustão e à propagação. A ocorrência de períodos secos, temperaturas elevadas, baixa humidade relativa e ventos fortes pode aumentar a probabilidade de incêndios intensos em paisagens com combustível disponível.

A topografia influencia o microclima, a exposição solar, a acumulação de combustíveis e o comportamento do fogo. Os usos do solo, a fragmentação da paisagem, a supressão de incêndios, a pastorícia, a agricultura e o uso planeado do fogo podem também alterar a frequência, a extensão ou a sazonalidade das ocorrências.

História e reconstrução

O estudo da história do fogo permite identificar mudanças nos regimes de fogo ao longo de décadas, séculos ou milénios. As fontes disponíveis variam conforme a escala temporal e o ecossistema estudado.

Os registos históricos, os relatórios de incêndios, a cartografia e a detecção remota permitem analisar sobretudo períodos recentes. Para períodos mais antigos, os investigadores podem recorrer a cicatrizes de fogo em árvores, estruturas etárias da vegetação, depósitos de carvão vegetal em solos ou sedimentos e outros indicadores paleoecológicos.

A história do fogo não equivale necessariamente ao regime de fogo, pois a simples identificação de ocorrências passadas pode não permitir determinar com igual precisão a sua intensidade, severidade, extensão ou efeitos ecológicos.

Efeitos ecológicos

O fogo é um processo ecológico relevante em numerosos ecossistemas terrestres, mas os seus efeitos dependem do regime em que ocorre. Em determinadas formações, a recorrência do fogo contribui para manter estruturas vegetais, ciclos de nutrientes e mosaicos de habitats característicos.

As espécies não se encontram apenas adaptadas à ocorrência de fogo em abstracto, mas a combinações particulares de frequência, intensidade, sazonalidade e severidade. Alterações persistentes nesses componentes podem modificar a composição das comunidades, a regeneração das plantas, a acumulação de biomassa e o armazenamento de carbono.

Regimes com intervalos demasiado curtos podem reduzir a capacidade de certas espécies completarem o seu ciclo reprodutivo antes da ocorrência seguinte, enquanto intervalos muito longos podem afectar espécies ou comunidades dependentes de fogo recorrente.

Alteração dos regimes de fogo

Um regime de fogo pode alterar-se por modificações no clima, nos combustíveis, nas ignições, no uso do solo ou na gestão do território. A expansão agrícola, o abandono rural, a fragmentação de habitats, a introdução de espécies vegetais inflamáveis e a alteração das práticas de supressão podem modificar a distribuição e o comportamento do fogo nas paisagens.

As alterações climáticas podem modificar as condições meteorológicas favoráveis ao fogo, a secura dos combustíveis e a duração das épocas de incêndios em várias regiões, embora os efeitos observados dependam igualmente das características ecológicas e sociais de cada território.

A alteração de um regime de fogo não corresponde necessariamente a um aumento da área ardida ou do número de incêndios: pode consistir numa mudança de sazonalidade, de severidade, de tipo de fogo, de dimensão dos perímetros ou de distribuição espacial das áreas queimadas.

Aplicações na gestão do território

O conceito de regime de fogo é usado na conservação da natureza, no ordenamento do território, na silvicultura, na prevenção de incêndios e na gestão de áreas protegidas. A sua análise permite identificar os componentes do fogo que podem representar riscos para pessoas e bens e os que são relevantes para a manutenção de determinados processos ecológicos.

A gestão do fogo pode incluir prevenção de ignições, redução ou reorganização de combustíveis, planeamento de mosaicos de vegetação, uso técnico e controlado do fogo e recuperação pós-incêndio. A escolha dessas medidas depende das características do regime de fogo, dos objectivos ecológicos e sociais definidos e das condições de segurança aplicáveis a cada território.

Categoria:Ecologia Categoria:Incêndios florestais