Maria das Mercês Luiz de Queiroz (em hebraico: מרים בת יוסף הלוי, Miriam bat Yosef haLevi; Brasília de Minas, 29 de janeiro de 1920 – 1989) foi uma educadora judaica brasileira ligada ao ensino religioso infantil no interior de Minas Gerais. Sua atuação é associada à organização de cheders domésticos, ao ensino de rezas e ao uso do sidur entre crianças de famílias judaicas dispersas pelo interior mineiro.
No contexto da história dos judeus no Brasil, sua trajetória é vinculada a uma forma doméstica e itinerante de educação judaica, paralela às escolas e instituições comunitárias que se formaram nos principais centros urbanos brasileiros ao longo do século XX.
Educação judaica doméstica Maria das Mercês atuou como morá, professora de ensino judaico elementar, junto a famílias que viviam fora dos principais núcleos institucionais judaicos. Seu trabalho consistia em levar a instrução religiosa para o espaço doméstico, organizando aulas em casas de família e visitando residências para ensinar rezas, leitura litúrgica inicial e o uso do sidur.
Esse tipo de ensino correspondia a uma tradição de educação complementar judaica, na qual crianças recebiam instrução religiosa fora da escola regular. Em comunidades brasileiras maiores, estudos registram que a educação judaica complementar por meio de cheder era oferecida após o horário escolar e que alguns cheders funcionavam em residências particulares. A atuação atribuída a Maria das Mercês aproxima-se desse modelo, mas em escala doméstica e interiorana.
Na primeira metade do século XX, a educação judaica no Brasil tinha papel central na continuidade das comunidades da diáspora. As escolas judaicas urbanas ensinavam línguas, história e cultura judaica, ao mesmo tempo em que a instrução religiosa elementar podia ocorrer em espaços complementares à escola formal. Em localidades sem escola comunitária regular, a casa tornava-se o principal espaço de aprendizagem religiosa.
O ensino realizado em casas tinha função religiosa e cultural. Além de transmitir rezas e práticas litúrgicas básicas, sustentava vínculos entre crianças, famílias e tradição judaica em regiões onde a vida comunitária formal era limitada. Por isso, sua atividade é lembrada como parte da transmissão não escolar do judaísmo em Minas Gerais.
Rede de famílias judaicas em Minas Gerais Maria das Mercês era filha de José Luiz de Queiroz, comerciante associado a redes de famílias judaicas no interior de Minas Gerais. Sua atuação educacional é descrita em continuidade com esse ambiente familiar e comunitário: enquanto o pai se vinculava a circuitos comerciais e familiares, ela se dedicava à instrução religiosa das crianças dessas famílias.
thumb|220px|Ketubá de 1938 que registra Maria das Mercês Luiz de Queiroz em contexto comunitário judaico lisboeta.
A presença judaica em Minas Gerais, no século XX, combinou núcleos urbanos institucionalizados e formas dispersas de sociabilidade no interior. Em estudo sobre judeus em Minas Gerais e Uberlândia, Carlos Alberto Póvoa relaciona a circulação de judeus no interior mineiro a rotas de mascates e caixeiros-viajantes, inclusive por meio de estradas férreas e circuitos comerciais entre São Paulo e Minas Gerais.
Pesquisas sobre Belo Horizonte também apontam a participação de judeus no comércio de tecidos, moda e atividades ambulantes nas primeiras décadas do século XX. Nesse contexto, redes comerciais e familiares podiam servir também como canais de contato religioso e cultural, especialmente fora das capitais.
Um registro comunitário preservado situa Maria das Mercês também no circuito judaico luso-brasileiro: sua ketubá de 1938, celebrada em Lisboa, identifica seu nome hebraico como Miriam bat Yosef haLevi (מרים בת יוסף הלוי), o de Egídio Rodrigues Batista como Gideon ben Mordechai haKohen (גדעון בן מרדכי הכהן), e menciona como oficiante o rabino Menahem Mendel Diesendruck, ligado à Comunidade Israelita de Lisboa e à Sinagoga Shaaré Tikva.
Educação judaica no Brasil A educação judaica foi um elemento central da organização comunitária judaica no Brasil republicano. Entre 1914 e 1933, período de formação de instituições judaicas em centros como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, surgiram sinagogas, bibliotecas, imprensa judaica e escolas judaicas voltadas à fixação dos imigrantes e à preservação de identidades linguísticas, religiosas e culturais.
Em Minas Gerais, a institucionalização da educação judaica concentrou-se principalmente em Belo Horizonte. A União Israelita de Belo Horizonte foi fundada em 1922 e a Escola Israelita iniciou suas atividades em 1929. A escola oferecia curso elementar e ensino de línguas judaicas, como ídiche e hebraico, além de história do povo israelita.
Estudos sobre a comunidade judaica belo-horizontina observam que a educação comunitária tinha como objetivo preservar o judaísmo, difundir a cultura judaica e reafirmar o pertencimento coletivo. O trabalho atribuído a Maria das Mercês representa uma modalidade menos formal desse mesmo esforço: a educação mantida em casas e por circulação entre famílias, em locais onde escolas judaicas regulares não estavam disponíveis.
Ver também José Luiz de Queiroz História dos judeus no Brasil Criptojudaísmo Educação judaica Menahem Mendel Diesendruck
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