miniaturadaimagem|Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior fotografia públicada no Jornal O Exemplo em 07 de agosto de 1910
Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior (Porto Alegre, 28 de fevereiro de 1874 - Porto Alegre, 30 de Julho de 1910) foi jurista, magistrado, jornalista, poeta e intelectual negro brasileiro. Destacou-se como um dos fundadores do jornal O Exemplo, um dos mais importantes periódicos da imprensa negra brasileira no pós-abolição, além de atuar na magistratura rio-grandense e participar da fundação da Academia Rio-Grandense de Letras. Sua trajetória esteve vinculada à defesa da instrução, da cidadania e da participação política da popuação negra durante a Primeira República.
Biografia
Primeiros anos e família Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior nasceu em 28 de fevereiro de 1874, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Era filho de Aurélio Viríssimo de Bittencourt (1849-1919), funcionário público, jornalista e liderança negra de destaque no Rio Grande do Sul, e de Joana Joaquina do Nascimento. Foi um dos cinco filhos do casal, tendo como irmãos Sérgio Aurélio de Bittencourt, Adelina Lídia de Bittencourt, Olímpia Augusta de Bittencourt e Maria de Bittencourt.
Criado em um ambiente familiar marcado pela valorização da educação, da participação no funcionalismo público e da atuação na imprensa. Aurélio Júnior integrou uma família que se destacou entre as redes intelectuais negras porto-alegrenses do final do século XIX. Estudos sobre a família Bittencourt apontam sua importância na construção de redes de sociabilidade e de estratégias de ascensão social da população negra no pós-abolição.
Em fevereiro de 1897, casou-se com Maria da Glória Quilião, filha do major Jerônimo Quilião de Figueiredo e de Leocádia Bastos Quilião. O casal teve um filho, Dario de Bittencourt (1901-1974). Alguns anos depois, o casamento foi dissolvido, permanecendo Dario sob a guarda do pai. Com a morte de Aurélio Júnior, em 30 de julho de 1910, a tutela do filho passou para o avô paterno, Aurélio Viríssimo de Bittencourt. Dario se tornou diretor do jornal O Exemplo, advogado e professor universitário.PERUSSATTO, Melina Kleinert. Arautos da liberdade: educação, trabalho e cidadania no pós-abolição a partir do jornal O Exemplo de Porto Alegre (c. 1892-c.1911). 2018. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.
Formação Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior recebeu sua formação inicial sob forte influência do projeto educacional idealizado por seu pai, Aurélio Viríssimo de Bittencourt. Ainda na infância, foi matriculado no Ginásio Nossa Senhora da Conceição,BRITTO, Silvio Luiz Martins; BAYER, Arno. O Ginásio Nossa Senhora da Conceição de São Leopoldo e a Matemática. Acta Scientiae, Canoas, v. 17, ed. especial, p. 94-112, 2015. em São Leopoldo, instituição dirigida pelos jesuítas e reconhecida como uma das mais prestigiadas do Rio Grande do Sul no final do século XIX. Segundo Melina Kleinert Perussatto, a escolha dessa escola refletia as expectativas familiares em relação à formação intelectual do filho e ao papel que ele poderia desempenhar na vida pública.
Após concluir os estudos no ginásio, realizou os exames preparatórios exigidos para o ingresso no ensino superior. Entre 1889 e 1893, foi aprovado em disciplinas como Português, Latim, Francês, Retórica, Filosofia, Aritmética e Geometria, realizando a maior parte das provas em Porto Alegre e concluindo parte delas na Faculdade de Direito de São Paulo. Seu desempenho acadêmico foi frequentemente destacado pela imprensa da época, especialmente pela aprovação em Língua Portuguesa.
Em 1893, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, uma das principais instituições de ensino jurídico do país. Durante o curso, participou da vida acadêmica e integrou o batalhão acadêmico organizado em apoio ao governo de Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada. Após o encerramento do conflito, retornou aos estudos e concluiu o bacharelado em 1895. Ainda estudante, passou a ser reconhecido por sua produção intelectual e por sua atuação nos círculos republicanos, consolidando uma trajetória que conciliava formação jurídica, participação política e atividade jornalística.
Carreira jurídica Após concluir o curso de Direito na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1895, Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior iniciou sua trajetória profissional na área jurídica. Nos anos seguintes, exerceu funções ligadas à magistratura e ao sistema judiciário do Rio Grande do Sul, consolidando uma carreira que o projetou entre os juristas de sua geração.
Atuou como promotor público em São Leopoldo e posteriormente estabeleceu-se em Porto Alegre, onde exerceu por aproximadamente dezesseis anos o cargo de juiz distrital do crime. Durante esse período, tornou-se uma figura conhecida nos meios jurídicos da capital gaúcha, conciliando a atividade na magistratura com a participação em iniciativas culturais e jornalísticas.<ref name=":2">CARVALHO, Augusto César Leite de. O Juízo dos Órfãos em Porto Alegre: primórdios da proteção jurídica à infância. Brasília: Superior Tribunal de Justiça, 2015. Disponível em: https://bdjur.stj.jus.br/
Segundo registros da época, foi aprovado em concurso para o cargo de juiz da Comarca de Piratini, mas optou por não assumir a função, permanecendo em Porto Alegre. A decisão foi atribuída aos vínculos familiares, profissionais e sociais que mantinha na capital. Em razão dessa escolha, permaneceu como juiz distrital até sua morte, sem avançar para cargos superiores na magistratura.
Além da atuação no Judiciário, participou da fundação da Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, instituição criada em 1900 e que posteriormente daria origem à atual Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua participação nesse processo evidencia seu envolvimento com a consolidação do ensino jurídico no estado.
Atuação na imprensa A atuação de Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior na imprensa esteve estreitamente ligada à defesa da cidadania da população negra, à valorização da educação e à difusão dos ideais republicanos. Aos dezoito anos de idade, participou da fundação do jornal O Exemplo, em dezembro de 1892, ao lado de seu irmão Sérgio Aurélio de Bittencourt e dos jornalistas Arthur Ferreira de Andrade, Arthur Pinto Gama, Esperidião Calisto Felizardo da Silva, Florêncio Calisto Felizardo da Silva, Marcílio Francisco da Costa Freitas e Alfredo Cândido de Souza. O periódico tornou-se um dos principais órgãos da imprensa negra brasileira no pós-abolição, defendendo o acesso à instrução, a igualdade de direitos e a participação da população negra na vida pública.MEIRELES, Lisandra Sabrina Castilhos. Imprensa negra do Rio Grande do Sul: uma análise da primeira fase do jornal O Exemplo (1892-1897). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.
Desde a criação do jornal, Aurélio Júnior desempenhou papel de destaque em sua organização editorial. Foi o autor do editorial de apresentação da primeira edição e, ao longo de sua trajetória, exerceu as funções de redator, editor e diretor interino da redação entre janeiro e março de 1893, durante o afastamento de Arthur Ferreira de Andrade por motivos de saúde.
Mesmo após ingressar na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1893, manteve sua colaboração com O Exemplo, enviando regularmente artigos, crônicas e poemas para publicação. Após retornar a Porto Alegre e iniciar sua carreira na magistratura, continuou vinculado ao periódico, conciliando a atividade jornalística com a atuação jurídica.
Além de sua participação em O Exemplo, colaborou com outros jornais ao longo da carreira. Durante o período em que estudou em São Paulo, escreveu para o jornal A República. De volta ao Rio Grande do Sul, fundou, em parceria com Antônio Marinho Loureiro Chaves, a Gazeta do Foro, periódico especializado em assuntos jurídicos, lançado em 1902.
Em 1904, fundou o Petit Journal, publicação na qual assinava parte de seus textos sob o pseudônimo Delmar de Castro. Também colaborou com O Paladino, periódico voltado aos interesses dos funcionários públicos estaduais, e com o Jornal do Comércio, um dos principais jornais de Porto Alegre.
Ao longo de sua trajetória, utilizou a imprensa como espaço para a divulgação de ideias políticas, jurídicas e literárias. Sua atuação em O Exemplo e em outros periódicos fez com que seu nome passasse a integrar a história da imprensa negra e da intelectualidade afro-brasileira no Rio Grande do Sul durante o pós-abolição.
Produção intelectual A produção intelectual de Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior desenvolveu-se principalmente por meio da imprensa, espaço no qual publicou editoriais, artigos, crônicas e poemas ao longo de sua trajetória. Seus escritos abordavam temas relacionados à educação, à cidadania, ao republicanismo, ao direito e à participação da população negra na sociedade brasileira do pós-abolição.
Desde a fundação de O Exemplo, em 1892, participou da definição da linha editorial do periódico, sendo responsável pela redação do editorial de apresentação da primeira edição. Ao longo dos anos, publicou textos voltados à valorização da instrução como instrumento de ascensão social, à defesa da igualdade de direitos e à participação da população negra na vida pública, temas recorrentes na imprensa negra brasileira da época.
Além da atividade jornalística, desenvolveu produção literária, especialmente nos gêneros da poesia e da crônica. Parte de seus textos foi publicada em jornais como O Exemplo, Correio do Povo, Jornal do Comércio e Petit Journal, neste último utilizando o pseudônimo Delmar de Castro. Sua escrita transitava entre a produção literária, a reflexão política e a discussão de temas jurídicos, reunindo textos de caráter humorístico, comentários sobre acontecimentos contemporâneos e artigos de opinião.
Embora não tenha publicado livros em vida, sua produção permaneceu dispersa em periódicos editados entre o final do século XIX e o início do século XX. Esses escritos constituem um importante conjunto documental para o estudo da imprensa negra, da literatura e da atuação de intelectuais negros no Rio Grande do Sul durante o período pós-abolição.
Sua produção intelectual esteve inserida no projeto editorial desenvolvido pelos colaboradores de O Exemplo, que compreendiam a imprensa como instrumento de educação, organização política e ampliação da cidadania da população negra. Nesse contexto, seus textos dialogavam com os objetivos do periódico e contribuíram para a difusão de debates sobre instrução, direitos civis e participação social, aspectos destacados pela historiografia dedicada à imprensa negra e às experiências da população negra no pós-abolição.
Após sua morte, em 1910, seus escritos e sua atuação na imprensa negra continuaram a ser lembrados por contemporâneos e passaram a integrar estudos dedicados à história da intelectualidade negra e da imprensa do pós-abolição no Rio Grande do Sul.
Legado A atuação de Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior como magistrado, jornalista, poeta e intelectual negro contribuiu para a consolidação da imprensa negra no Rio Grande do Sul durante o pós-abolição. Sua participação na fundação de O Exemplo e sua colaboração em diferentes periódicos fizeram dele uma das figuras representativas da geração de intelectuais negros que utilizaram a imprensa como espaço de defesa da educação, da cidadania e da ampliação dos direitos da população negra.