Abu Hâmeza Anas ibne Maleque ibne Nadre Alançari Anajari (; Medina, — Baçorá, 711/2) foi um dos ançares e companheiros de Maomé. Pertencente ao clã Najar da tribo dos cazerajitas, serviu Maomé durante os dez anos compreendidos entre a Hégira e sua morte, razão pela qual ficou conhecido como Cadim Anabi (Khādim al-Nabī; "Servo do Profeta"). Posteriormente participou das primeiras conquistas muçulmanas e tornou-se um dos mais prolíficos transmissores de hádices, figurando entre os sete companheiros tradicionalmente classificados como Mukthirun.

Vida

Anas nasceu em Medina cerca de dez anos antes da Hégira, em 612. Pertencia ao clã najarita da tribo dos cazerajitas e era filho de e de . Segundo a tradição islâmica, seu pai opôs-se à conversão da esposa ao islão, abandonou Medina e morreu posteriormente na Síria. Entre seus parentes figuravam diversos companheiros de Maomé, como seu irmão , sua tia e seu padrasto Abu Talha Alançari. Quando Maomé chegou a Medina após a Hégira, Anas tinha cerca de dez anos de idade. Sabendo ler e escrever, foi entregue por sua mãe — ou, segundo outra tradição, por seu padrasto — ao serviço de Maomé, permanecendo ao seu lado até sua morte, cerca de dez anos depois. A longa convivência permitiu-lhe acompanhar de perto a vida cotidiana do fundador do islão e tornou-o uma das principais testemunhas de seus hábitos, ensinamentos e conduta pessoal. Embora fosse demasiado jovem para combater, Anas acompanhou Maomé na Batalha de Badre, permanecendo junto dele durante toda a campanha. Nos anos seguintes esteve presente na Tratado de Hudaibia, na campanha de Caibar, na Unra da Compensação, na Conquista de Meca, na Batalha de Hunaine, no Cerco de Taife e na Peregrinação de Despedida.

Após a morte de Maomé, Anas permaneceu ligado à administração do nascente Estado muçulmano. Quando Abu Becre cogitou nomeá-lo coletor de tributos no Barém, Omar apoiou a escolha, argumentando que sua juventude não constituía obstáculo ao desempenho da função. Mais tarde, durante o califado de Omar, acompanhou Abu Muça Alaxari quando este foi nomeado governador de Baçorá. Estabelecido na cidade, passou a dirigir orações, ensinar hádices e transmitir conhecimentos jurídicos, permanecendo também por algum tempo em Damasco antes de fixar residência definitiva em Baçorá. As fontes mencionam que possuía uma propriedade no bairro de , nos arredores da cidade, além de outras residências em seu interior. Anas participou igualmente das primeiras conquistas muçulmanas. Tomou parte na campanha da , no sudoeste da Pérsia sassânida, e, após a queda da cidade, conduziu o governador derrotado, , à presença de Omar em Medina. Durante o califado de Abedalá ibne Azobair, exerceu interinamente o governo de Baçorá por cerca de quarenta dias e, em seu nome, oficiou como imame das orações públicas da cidade. Embora tenha atravessado o período das guerras civis do primeiro século da Hégira, sua participação nesses conflitos foi relativamente discreta.

Já idoso, Anas tornou-se uma das vítimas das perseguições promovidas pelo governador Alhajaje ibne Iúçufe. Em 693, Alhajaje acusou Anas, Jabir ibne Abedalá e de terem deixado de apoiar Otomão durante o cerco que culminou em seu assassinato e ordenou que fossem marcados publicamente como forma de humilhação. Segundo as fontes, Anas e Sal receberam a marca no pescoço, enquanto Jabir foi marcado na mão. Alhajaje também confiscou os bens de Anas, acusando-o de favorecer rebeldes contrários ao governo omíada. Após receber uma carta de reclamação enviada por Anas, o califa Abedal Maleque ibne Maruane ordenou a restituição de seus bens, determinou que Alhajaje lhe apresentasse desculpas e retirou do governador qualquer autoridade sobre o antigo companheiro de Maomé. Considerado tradicionalmente o último companheiro de Maomé a falecer em Baçorá, Anas morreu na cidade em 711 ou 712, embora outras cronologias proponham datas entre 709 e 714. As fontes islâmicas atribuem-lhe idade superior a cem anos, variando geralmente entre 97 e 107 anos, sendo frequente a indicação de 103 anos de idade.

Transmissão de hádices

Anas ibne Maleque figura entre os sete companheiros tradicionalmente classificados como Mukthirun, grupo dos que transmitiram o maior número de hádices. Segundo a tradição islâmica, são-lhe atribuídos 2 286 relatos com repetições, número que o coloca na terceira posição entre os Mukthirun. De acordo com diferentes levantamentos, entre 168 e 180 de seus hádices foram incluídos simultaneamente nas coleções autênticas de Albucari e Muslim ibne Alhajaje, enquanto Albucari registrou ainda cerca de oitenta tradições exclusivas e Muslim cerca de noventa. O Musnade de Amade ibne Hambal reúne tradições atribuídas a Anas na edição numerada publicada pela Dār al-Fikr. Além de Maomé, Anas transmitiu relatos de Abu Becre, Omar, Otomão, Fátima, Muade ibne Jabal, Uçaíde ibne Hudair, Abu Darre Alguifari, sua mãe Ume Soleime, sua tia Ume Harame, seu padrasto Abu Talha Alançari e . Entre seus numerosos discípulos figuram estudiosos como Haçane Albáceri, Ibne Sirine, , , , Catada ibne Diama, Ibne Xiabe Azuri, Omar ibne Abdalazize e Abu Anre ibne Alalá. Cerca de duzentos alunos transmitiram tradições sob sua autoridade, e seus discípulos considerados confiáveis permaneceram ativos até meados do da Hégira.

As fontes descrevem Anas como um transmissor cauteloso. Temendo reproduzir de forma inexata as palavras de Maomé, costumava concluir alguns relatos com a expressão "ou o Mensageiro de Deus disse algo semelhante", indicando incerteza quanto à formulação literal. Também mantinha cadernos contendo hádices escritos, que ocasionalmente mostrava a seus discípulos, e afirmava deliberadamente omitir parte do que conhecia por considerar que a transmissão excessiva aumentava o risco de erros. Além da atividade como tradicionalista, era considerado um dos companheiros que emitiram pareceres jurídicos em grau intermediário. A posição privilegiada de Anas como servidor de Maomé durante aproximadamente uma década fez dele uma autoridade particularmente importante para a tradição islâmica sobre a vida cotidiana do fundador do islão. Ao mesmo tempo, estudiosos modernos observam que essa proximidade favoreceu a atribuição posterior de numerosas tradições em seu nome. Embora parte desse material possa remontar efetivamente a Anas, a crítica historiográfica considera provável que muitas narrativas tenham sido produzidas ou ampliadas por gerações posteriores, razão pela qual não lhe atribui automaticamente a autoria de todos os hádices preservados sob sua autoridade.

Legado

As fontes islâmicas atribuem a Anas diversas características que reforçaram sua reputação entre as primeiras gerações de muçulmanos. Além de ter convivido intimamente com Maomé durante cerca de dez anos, pertencia a uma família particularmente estimada pelo líder da comunidade muçulmana. Segundo essas tradições, Maomé visitava frequentemente a residência de Ume Soleime, onde tomava refeições, repousava e, por vezes, dirigia orações voluntárias com os membros da família. A cerimônia de fraternidade entre os emigrantes de Meca e os ançares realizada pouco após a Hégira também teria ocorrido em sua casa. Ainda segundo a tradição islâmica, a pedido de Ume Soleime, Maomé teria suplicado a Deus que concedesse a Anas vida longa, numerosa descendência e abundância de bens, acrescentando, segundo algumas versões, a entrada no paraíso. Os autores muçulmanos relacionam a essa oração sua longevidade, a existência de mais de cento e vinte descendentes ainda em vida e a prosperidade de seu pomar, cujas árvores, segundo os relatos, produziam frutos duas vezes por ano. Também lhe é atribuído um episódio em que, diante de uma estiagem, teria orado pela chuva, sendo imediatamente atendido.

Diversos relatos preservam recordações pessoais de Anas acerca de Maomé. Ele afirmava que, durante os dez anos em que permaneceu a seu serviço, jamais foi repreendido por qualquer erro e costumava citar esse fato como exemplo da paciência e da tolerância de seu mestre. Recordava ainda que Maomé frequentemente o tratava de forma afetuosa, chamando-o de "meu filho" e, em tom de brincadeira, de "o dono de duas orelhas". Após sua morte, dizia sentir profunda saudade de Maomé, afirmando vê-lo em sonhos com frequência e desejar apresentar-se novamente diante dele como seu pequeno servidor. Anas procurava reproduzir fielmente as práticas que aprendera durante sua convivência com Maomé. Abu Huraira afirmava que sua maneira de realizar as orações era uma das mais semelhantes à do fundador do islão entre os companheiros sobreviventes. Segundo seu testamento, foi sepultado com um fio de cabelo e um pequeno bastão pertencentes a Maomé, colocados respectivamente sob a língua e entre o corpo e a mortalha. Conservava ainda um copo de vidro que, segundo a tradição islâmica, teria sido enviado de presente pelo governante do Egito, Almucauquis, a Maomé. As fontes também o descrevem como exímio arqueiro e incentivador da prática do tiro com arco entre seus filhos. Um relato preservado nas coleções de hádices recorda que, ainda jovem, perseguiu e capturou um coelho nas proximidades de Meca, levando-o a seu padrasto Abu Talha Alançari, que o preparou e enviou parte da carne a Maomé.

Bibliografia

Categoria:Naturais de Medina Categoria:Ançares Categoria:Najaritas Categoria:Árabes do século VII Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Conquista muçulmana da Pérsia Categoria:Pessoas do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Unra da Compensação Categoria:Tratado de Hudaibia