O Primo da Califórnia é uma comédia-vaudeville em dois atos, de Joaquim Manuel de Macedo, apresentada como "imitação do francês" e encenada pela primeira vez em 12 de abril de 1855, na abertura do Teatro Ginásio Dramático do Rio de Janeiro; foi publicada em livro em 1858, pela Tipografia Imparcial de Francisco de Paula Brito.
A peça é, de fato, uma adaptação de L'Oncle d'Amérique, comédia-vaudeville em um ato de Eugène Scribe, estreada no Gymnase Dramatique de Paris, transposta por Macedo para o ambiente estudantil e boêmio do Rio de Janeiro imperial. A comédia narra as peripécias de Adriano Genipapo, jovem professor de música endividado, vítima de uma brincadeira de amigos que o fazem acreditar ter herdado uma fortuna de um suposto primo rico, morto na Califórnia.
Enredo Adriano Genipapo, jovem professor de música, vive em dificuldades econômicas: deve salário à criada Beatriz, está há três meses sem pagar o aluguel a seu senhorio, Pantaleão, e é perseguido por credores, sobretudo pelo alfaiate Felisberto. Adriano vive na companhia de Celestina, mulher de nascimento nobre, mas que teve o testamento de seu pai queimado por parentes gananciosos e foi expulsa de casa ainda jovem. Recusando-se a se tornar "uma mulher perdida", ela reconstruiu sua vida trabalhando com bordados, desenhos e cópias de manuscritos e partituras. Ao longo da peça, Celestina passa as noites secretamente gravando as composições musicais de Adriano na esperança de lhe trazer fama e fortuna, o que ele, desconfiado, chega a interpretar como sinal de um caso amoroso com um pretendente homeopata.
Para se vingar de Adriano, que pretendia pregar-lhes uma peça, seus amigos Ernesto e Eduardo forjam uma carta anunciando a morte de um primo desconhecido, Paulo Cláudio Genipapo, estabelecido havia quatro anos na Califórnia, que teria falecido sem filhos, deixando Adriano como único herdeiro de sua fortuna. Assim que a notícia se espalha, o senhorio Pantaleão e o alfaiate credor Felisberto, de perseguidores, tornam-se subitamente aduladores do agora "rico" Adriano, cada qual tentando tirar proveito da situação. Pantaleão propõe-lhe negócios de especulação imobiliária, enquanto Felisberto planeja um monopólio ilegal de toucinho e carne fresca, chegando ambos a cogitar casá-lo com suas respectivas filhas. Quando a farsa é finalmente revelada, os próprios velhacos que pretendiam explorar a fortuna de Adriano acabam vítimas de sua própria ganância.
Personagens Adriano Genipapo: jovem professor de música. Pantaleão: antigo taberneiro. Felisberto: alfaiate. Ernesto e Eduardo: amigos de Adriano. Celestina: mulher de origem nobre. Beatriz: criada de Adriano.
Análise Segundo João Roberto Faria, a peça é "provavelmente calcada" em L'Oncle d'Amérique, comédia-vaudeville em um ato de Eugène Scribe, representada pela primeira vez no Gymnase Dramatique de Paris. Numa leitura comparativa, Faria observa que Macedo transpõe o protagonista de Scribe (Estelle, uma jovem pintora) para Adriano, um jovem professor de música imerso no universo boêmio e estudantil do Rio de Janeiro, adaptando à realidade carioca tanto o ambiente social quanto os tipos que povoam a farsa.
Faria destaca ainda o mecanismo cômico central da peça: Pantaleão e Felisberto, movidos pela ganância diante da riqueza fictícia de Adriano, oferecem-lhe negócios ilícitos (especulação imobiliária, no caso do primeiro, e monopólio ilegal de gêneros alimentícios, no caso do segundo), tornando-se vítimas da própria trama que planejavam usar em proveito próprio quando a farsa é desvendada. Para o pesquisador, esse recurso do "enganador enganado" é um dos motores cômicos mais eficazes e recorrentes do teatro de costumes do período, e no caso de Pantaleão, sua ânsia de lucro o leva ainda a confundir as próprias palavras, produzindo humor adicional de tipo verbal.
O pesquisador Daniel Nogueira Polleti situa O Primo da Califórnia, peça de abertura do Ginásio Dramático, dentro de um padrão mais amplo do repertório ligado a esse teatro, no qual autores como Macedo e José de Alencar frequentemente dramatizavam a condição do artista ou do homem de letras, quase sempre representado como figura de valor moral superior, ainda que incompreendida pela sociedade materialista que o cerca.
Nessa leitura, a criada Beatriz funciona como contraponto cômico e cético a esse ideal: envelhecida e insatisfeita com a própria condição de empregada de "um pobre músico", ela passa boa parte da peça resmungando contra Adriano, e ironiza o amor idealista de Celestina pelo jovem artista que, sendo bela e jovem, poderia facilmente encontrar um marido rico. Respondendo a ela com uma fala emblemática do materialismo prático, oposto ao idealismo romântico, Celestina defende sua admiração pelo trabalho do músico, ao que Beatriz retruca duvidando que "ideias romanescas" e "pensamentos generosos" sejam capazes de colocar uma panela para ferver no fogão. Segundo Polleti, é apenas a notícia da falsa herança de Adriano, e não qualquer reconhecimento do valor artístico do músico, que dissipa, ainda que temporariamente, a descrença prática de Beatriz.
Ligações externas O Primo da Califórnia, de Joaquim Manuel de Macedo — texto integral da peça (edição de base: Biblioteca Virtual – Escola do Futuro), no Textos.com.br
Referências
Categoria:Obras de Joaquim Manuel de Macedo Categoria:Peças de teatro do Brasil Categoria:Peças de teatro da década de 1850