Beatriz Cenci é uma peça de teatro escrita por Gonçalves Dias entre 1844 e 1845, enquanto o autor ainda vivia em Portugal.CHIARI, Gisele Gemmi. A estética romântica no teatro de Gonçalves Dias: Leonor de Mendonça. 2015. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. É o segundo drama do autor, escrito logo após Patkull (1843), e tem como matéria o processo de incesto que, no final do século XVI, envolveu a nobre família romana Cenci.GUIMARÃES, Jéssica de Oliveira. Conceitos schillerianos presentes na obra Beatriz Cenci de Gonçalves Dias. Opiniães, São Paulo, n. 15, p. 191-212, 2019. Assim como as demais peças de Gonçalves Dias, o drama aproveita matéria histórica para tratar da opressão de personagens femininas sob o poder patriarcal.
A peça foi proibida de encenação pelo Conservatório Dramático Brasileiro em 1846 e não chegou a ser representada em vida do autor. Nas últimas décadas, tornou-se objeto de estudos acadêmicos que a analisam sob o viés da filosofia da liberdade em Kant e Schiller, da crítica ao patriarcado romântico e do primeiro feminismo do século XIX.GUIMARÃES, Jéssica de Oliveira. O romantismo e a liberdade em Beatriz Cenci: um estudo sobre o drama gonçalvino. 2021. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.SANTANA, Ana Paula Silva. Entre reconhecer-se e agir: a compreensão de seu lugar no mundo e a busca pelo protagonismo feminino das personagens Beatriz Cenci, Lucrécia Petroni e Leonor de Mendonça de Gonçalves Dias. História, histórias, Brasília, v. 8, n. 15, p. 55-76, 2020.
Enredo A peça abre em um ambiente familiar aparentemente sem grandes conflitos: D. Francisco Cenci quer descobrir quem, havia três dias, invadia sua casa para fazer serenatas à filha, Beatriz. Aos poucos, revela-se que essa preocupação escondia um desejo incestuoso do pai pela própria filha, que ele já mantivera enclausurada, sozinha, por vários anos, visitando-a apenas o necessário para que não morresse de fome.
Ao obter a liberdade, D. Francisco força Beatriz a revelar a Márcio, seu amado, a "impureza" que lhe foi imposta, expondo-a e arranhando-lhe a honra. Humilhada, Beatriz passa a desejar vingança e recebe o apoio de Márcio e de sua madrasta, D. Lucrécia, para arquitetar a morte do pai. O plano é descoberto pelo próprio D. Francisco, que ainda em vida ordena a morte de Márcio; envenenado pelas duas mulheres, ele mata Lucrécia antes de sucumbir ao veneno, selando o desfecho sangrento da peça.
Personagens Beatriz Cenci: protagonista, filha de D. Francisco. D. Francisco Cenci: pai de Beatriz. D. Lucrécia: madrasta e confidente de Beatriz. Márcio: amado de Beatriz.
Análise Jéssica de Oliveira Guimarães propõe uma leitura de Beatriz Cenci a partir da ideia de liberdade, situada tanto no plano moral (autonomia diante das paixões), quanto no plano ético (resistência a um regime político autoritário). Esse princípio seria defendido por Beatriz e por Lucrécia, em contraste com D. Francisco, descrito como servo de seus próprios instintos apesar da riqueza que possui. A autora situa a peça no diálogo de Gonçalves Dias com Friedrich Schiller e Immanuel Kant, e discute as alterações que o dramaturgo brasileiro promoveu nos acontecimentos históricos da família Cenci em relação à crônica de Stendhal sobre o caso, mudanças que a pesquisadora relaciona a necessidades internas do drama gonçalvino.
Gisele Gemmi Chiari recupera a leitura de Marlene de Castro Correia, para quem as quatro peças do autor compartilham o mesmo tema estrutural: o poder patriarcal. O conflito nuclear decorre da frustração amorosa de personagens femininas impedidas de controlar o próprio destino, e esse domínio masculino seria particularmente evidente em Beatriz Cenci, Leonor de Mendonça e Boabdil.
Já Ana Paula Silva Santana analisa Beatriz e Lucrécia como personagens femininas determinadas pelo que a autora chama de moralidade egoísta do período romântico, aproximando a leitura das obras das reivindicações do que denomina "primeiro feminismo" do século XIX.
Referências
Categoria:Peças de teatro do Brasil Categoria:Gonçalves Dias