Os hipócritas (; sing. , munāfiq) são, na terminologia islâmica, pessoas que exteriormente professam o islã, mas ocultam a descrença ou mantêm uma adesão apenas aparente à fé. O conceito deriva de nifāq (), termo empregado no Alcorão para descrever a dissociação entre a profissão pública de fé e a convicção íntima. A tradição lexicográfica árabe relaciona a palavra à toca do rato-do-campo, que possui uma entrada visível e uma saída oculta, imagem utilizada para representar aquele que entra na religião por uma porta e dela sai secretamente por outra. Segundo o Alcorão, os hipócritas constituem, ao lado dos muçulmanos e dos descrentes, um dos principais grupos religiosos retratados no texto sagrado, sendo objeto de uma sura específica, a sura al-Munafiqun. O Alcorão emprega o termo tanto para aqueles que simulam completamente a fé quanto para indivíduos que vacilam entre a crença e a descrença, subordinando sua adesão religiosa a interesses pessoais ou circunstâncias políticas. Os hipócritas são descritos como pessoas que procuram semear divisões na comunidade, desencorajar a participação nas campanhas militares, agir por ostentação nos atos de culto e conspirar contra Maomé e os fiéis. Embora condene severamente tais atitudes e associe os hipócritas ao castigo reservado aos descrentes caso morram sem arrependimento, o Alcorão também menciona a possibilidade de arrependimento e retorno à fé.

Na tradição histórica islâmica, a hipocrisia passou a ser associada principalmente a um grupo de habitantes de Medina liderado por Abedalá ibne Ubai, cuja oposição a Maomé se manifestou em episódios como a Batalha de Uude, a Expedição de Almuraici, o Incidente da Calúnia, a Mesquita da Dissensão e a Expedição de Tabuque. Segundo as fontes islâmicas, esses opositores buscavam enfraquecer a comunidade muçulmana por meio de alianças com os coraixitas, tribos judaicas de Medina e outros adversários externos, embora Maomé evitasse tratá-los como inimigos declarados enquanto continuassem a professar publicamente o islã. A literatura islâmica posterior ampliou o conceito de hipocrisia para além do contexto histórico do , distinguindo entre a hipocrisia doutrinária, caracterizada pela ocultação da descrença sob aparência de fé, e a hipocrisia prática, relacionada a comportamentos considerados incompatíveis com a sinceridade religiosa, como mentira, traição, quebra de promessas e ostentação. O tema tornou-se objeto de ampla elaboração na teologia islâmica, na exegese corânica, na literatura de hádice e no sufismo, permanecendo até hoje um dos conceitos centrais da ética e da doutrina islâmicas.

Etimologia

O termo hipócrita traduz convencionalmente o árabe munāfiq (; pl. munāfiqūn, ), particípio derivado do substantivo nifāq (). Na tradição lexicográfica árabe, a palavra foi relacionada à nāfiqāʾ, uma das aberturas secundárias da toca do rato-do-campo, utilizada pelo animal como saída oculta em situações de perigo. A partir dessa imagem, o hipócrita foi definido como alguém que ingressa na religião por uma porta e dela sai secretamente por outra, apresentando exteriormente uma condição diferente daquela que conserva no íntimo. Embora a palavra já existisse na língua árabe antes do islã, não há indícios seguros de que fosse então empregada como termo religioso. Alguns estudiosos ocidentais, seguindo uma hipótese de Theodor Nöldeke, propuseram que munāfiq teria sido tomado de uma palavra etíope com os sentidos de “herege”, “cético”, “hesitante” ou “vacilante”. Essa etimologia, contudo, permanece discutida, pois a semelhança semântica não demonstra a direção do empréstimo e a fonte etíope citada por Nöldeke deriva de uma obra traduzida do árabe.

Outras propostas procuram explicar o termo internamente ao árabe. Robert Bertram Serjeant relacionou-o a nafaqa, no sentido de contribuição ou tributo, sugerindo que originalmente designaria aqueles que pagavam com relutância as contribuições exigidas pela comunidade. William Montgomery Watt, aproximando-se das explicações dos lexicógrafos árabes, entendeu seu sentido primitivo como o de pessoas que agiam ocultamente ou se infiltravam, comparáveis a animais que se deslocam por passagens subterrâneas. A tradução tradicional por “hipócrita” corresponde bem ao emprego desenvolvido na literatura islâmica posterior, mas a Enciclopédia do Islão considera que “dissidente” exprime de maneira mais abrangente a variedade de usos do termo no Alcorão, que pode designar oposição aberta ou secreta no interior da comunidade.

Uso no Alcorão

Os derivados da raiz árabe n-f-q ligados ao conceito de hipocrisia aparecem numerosas vezes no Alcorão. A forma masculina plural munāfiqūn ocorre vinte e sete vezes segundo a contagem da Enciclopédia do Islão, enquanto a forma feminina munāfiqāt aparece cinco vezes, o substantivo nifāq três vezes e formas verbais duas vezes. A contagem apresentada pela TDV registra o termo “hipócritas”, no masculino e no feminino, trinta e duas vezes em vinte e cinco versículos, além de cinco ocorrências verbais ou substantivas derivadas da mesma raiz. Uma sura inteira, a al-Munafiqun, recebeu seu nome desse grupo. No vocabulário corânico, o termo não se limita à ideia comum de alguém que finge possuir uma virtude. Ele designa, em primeiro lugar, pessoas que afirmam crer em Deus e no Juízo Final sem possuir fé interior. Em outros contextos, refere-se a indivíduos que oscilam entre fé e descrença, marcados pela dúvida, pela fragilidade de vontade ou pela submissão da lealdade religiosa aos interesses imediatos. Essa distinção é refletida em passagens que mencionam separadamente os “hipócritas” e aqueles “em cujos corações há enfermidade”.

As passagens corânicas atribuem aos hipócritas uma ampla variedade de condutas. Eles são acusados de mentir, agir com arrogância, praticar os ritos por ostentação, demonstrar relutância em contribuir materialmente para a comunidade e evitar a participação nas campanhas militares. Também lhes são atribuídos o incentivo à discórdia, a propagação de notícias desmoralizadoras, a oposição a Maomé e a tentativa de impedir que os muçulmanos sustentassem seus correligionários. Na sura al-Munafiqun, são descritos como mentirosos, inimigos da comunidade e pessoas cuja aparência exterior não corresponde à condição interior. Em algumas passagens, os hipócritas são aproximados dos descrentes e ameaçados com punição eterna, sendo colocados no nível mais baixo do inferno. Outras, porém, preservam a possibilidade de arrependimento e reforma. A designação de “hipócrita” exprimia, assim, uma condição religiosa condenada, mas também uma posição social específica: no mundo, aqueles que declaravam exteriormente o islã continuavam a receber tratamento jurídico de muçulmanos, enquanto, segundo a doutrina majoritária, seu destino no além seria o mesmo dos descrentes caso morressem sem arrependimento.

Hipócritas de Medina

Como movimento organizado, o fenômeno associado aos hipócritas surgiu sobretudo no período medinense, quando os muçulmanos passaram a constituir uma comunidade politicamente estruturada. Parte dos habitantes de Medina e de alguns grupos beduínos das redondezas, embora não demonstrasse adesão sincera ao islã, considerou vantajoso professá-lo exteriormente por motivos políticos, sociais ou econômicos. Em certos casos, essa conduta teria servido para evitar a perda de prestígio dentro de comunidades nas quais a nova religião se tornava dominante. A vitória muçulmana na Batalha de Badre acelerou esse processo entre os aucitas e cazerajitas que ainda hesitavam em aderir ao islã. A tradição identifica Abedalá ibne Ubai como a principal figura desse grupo. Antes da Hégira, ele exercia grande influência entre os medinenses e, segundo as fontes, estava próximo de assumir uma posição de liderança sobre a cidade. Com a ascensão política de Maomé, procurou conservar parte de seu antigo prestígio mediante uma oposição discreta e a formação de uma rede de aliados entre elementos descontentes da população local.

As fontes islâmicas posteriores individualizaram o grupo muito mais do que o próprio Alcorão, atribuindo a Abedalá ibne Ubai a chefia dos hipócritas e relacionando pessoas ou tribos específicas a diferentes passagens corânicas. A literatura biográfica e exegética preservou listas de medinenses, beduínos e judeus classificados como hipócritas, embora a extensão e a composição dessas listas variem consideravelmente. Alguns comentaristas identificaram ainda grupos dos juainaítas, aslamitas, , guifaritas e, possivelmente, dos muzainaítas entre os beduínos mencionados no Alcorão. Segundo a narrativa tradicional, Abedalá ibne Ubai procurou articular sua oposição por meio de alianças com os coraixitas de Meca, grupos judaicos de Medina e , que posteriormente se estabeleceu na Síria e buscou mobilizar apoio cristão contra Maomé. Durante as campanhas de Uude e da Trincheira, os opositores internos teriam procurado enfraquecer o esforço militar muçulmano, incentivar a resistência dos nadiritas e dos curaizaítas e reunir pagãos, judeus e descontentes medinenses numa frente comum. Essas alianças, contudo, perderam progressivamente sua eficácia após o Tratado de Hudaibia, a Conquista de Meca e a expulsão das principais tribos judaicas de Medina.

Durante a Expedição de Almuraici, Abedalá ibne Ubai tentou explorar uma disputa entre emigrantes e auxiliares, apresentando o conflito como oposição entre os habitantes de Medina e os recém-chegados. No retorno da campanha, foi ainda responsabilizado pela difusão da acusação contra Aixa conhecida como Incidente da Calúnia. A tradição atribuiu aos hipócritas outras iniciativas de desestabilização, como a construção da Mesquita da Dissensão, apresentada como centro de oposição encoberto sob a aparência de local de culto. Na Expedição de Tabuque, alguns opositores recusaram-se a acompanhar o exército, enquanto outros teriam aderido à campanha com a intenção de causar desordem ou participar de uma tentativa de emboscada contra Maomé no caminho de volta. A EI² ressalta, contudo, que a literatura posterior procurou associar episódios e nomes específicos a referências corânicas formuladas de maneira mais geral. O Alcorão descreve sobretudo dissidentes internos que se recusavam a combater, contribuíam com relutância ou procuravam separar-se da comunidade, sem sempre indicar claramente a identidade dos envolvidos.

A tradição distingue entre pessoas que aderiam conscientemente à oposição e outras que, ainda influenciadas por solidariedades tribais ou por valores da Jailia, seguiam lideranças políticas sem compreender plenamente seus objetivos. Segundo a TDV, o número daqueles cuja hipocrisia religiosa seria inequívoca parece ter sido relativamente reduzido. Ao longo do período medinense, Maomé evitou aplicar aos suspeitos de hipocrisia uma condição jurídica separada. Não os tratou como inimigos declarados enquanto professassem exteriormente o islã, procurou preservar seus direitos e, na maior parte dos casos, respondeu por meio de advertências, persuasão e sanções morais. Essa política tinha também uma dimensão política. A execução ou perseguição aberta de opositores internos poderia provocar vinganças tribais, afastar parentes muçulmanos e alimentar a acusação de que Maomé matava os próprios seguidores. Por isso, o problema foi tratado como questão interna da comunidade, procurando-se isolar seus líderes, cortar seus apoios externos e impedir que a oposição política se consolidasse como movimento religioso autônomo. A literatura islâmica sustenta que essa estratégia reduziu gradualmente sua influência e que, nos últimos anos da vida de Maomé, o grupo já havia perdido grande parte de sua capacidade de atuação.

Na tradição islâmica