Hâmeza ibne Abede Almotalibe (; Meca, c. 569/70 – Uude, ) foi um membro dos haxemitas, clã dos coraixitas, tio paterno e irmão de leite do profeta islâmico Maomé. Filho de Abede Almotalibe e de Hala binte Uaibe, figurava entre os notáveis de Meca antes de aderir ao Islã. As fontes islâmicas situam sua conversão no segundo ou no sexto ano da missão profética, associando-a tradicionalmente a um confronto com Abu Jal após este ter insultado Maomé. Sua adesão fortaleceu a posição dos primeiros muçulmanos, e Hâmeza passou a figurar entre os mais destacados defensores de seu sobrinho.

Depois da Hégira para Medina, Hâmeza desempenhou papel destacado nas primeiras campanhas muçulmanas. Comandou uma das primeiras expedições enviadas por Maomé contra as caravanas coraixitas, participou das campanhas de Alabuá, Duluxaira e contra os cainucaítas e exerceu em diversas ocasiões a função de porta-estandarte. Na Batalha de Badre, em 624, destacou-se nos combates e é associado pelas fontes à morte de vários adversários coraixitas. No ano seguinte, durante a Batalha de Uude, foi morto por Uaxi ibne Harbe, escravo de Jubair ibne Mutime, e seu corpo foi posteriormente mutilado. Foi sepultado em Uude juntamente com seu sobrinho Abedalá ibne Jaxe e passou a ser reverenciado na tradição islâmica pelos epítetos de Senhor dos Mártires () e Leão de Alá ().

Após sua morte, Hâmeza tornou-se também figura central de uma extensa tradição épica e lendária difundida por diferentes sociedades islâmicas. As narrativas associadas a ele foram combinadas com episódios atribuídos a outros personagens, particularmente ao rebelde carijita , e deram origem a ciclos conhecidos em persa, árabe e turco por títulos como Dastan-i Amir Hamza, Sirat Hamza e Hamzanâme. Essas histórias difundiram-se posteriormente pela Índia, Ásia Central, mundo otomano e outras regiões, gerando versões em várias línguas e uma ampla tradição manuscrita, oral e pictórica.

Vida

Hâmeza era filho de Abede Almotalibe, destacado membro dos haxemitas, clã dos coraixitas, e de Hala binte Uaibe, dos zuraítas e prima de Amina binte Uabe, mãe de Maomé. Nasceu em Meca por volta de 569 ou 570. Segundo a maioria das fontes islâmicas, Hâmeza era aproximadamente quatro anos mais velho que seu sobrinho Maomé, embora outras tradições afirmem que a diferença de idade era de apenas dois anos. Ambos foram amamentados por Tuaiba, tornando-se irmãos de leite, e as fontes também os apresentam como companheiros próximos durante a infância e a juventude. O casamento dos pais de Hâmeza é associado pelas fontes ao casamento de Abedalá ibne Abede Almotalibe, meio-irmão de Hâmeza, com Amina. Segundo uma tradição preservada por Atabari, Abede Almotalibe acompanhou Abedalá à casa de Uabe ibne Abede Manafe para pedir em casamento sua filha Amina. Na ocasião, Abede Almotalibe teria visto Hala binte Uaibe, sobrinha de Uabe, e pedido sua mão para si próprio. Uabe teria consentido com ambas as uniões, celebradas no mesmo dia. Por volta de 595, Hâmeza participou das negociações para o casamento de Maomé com Cadija binte Cuailide. Embora diferentes tradições atribuam também a Abu Talibe um papel na realização do casamento, há relatos segundo os quais Hâmeza representou Maomé nas negociações com o responsável por Cadija, identificado em algumas fontes como .

Antes de sua conversão, Hâmeza figurava entre os notáveis de Meca e ocupava uma posição de influência entre os coraixitas. A EI2 afirma que inicialmente se opunha à nova religião, mas que, depois de sua conversão, tornou-se um de seus mais destacados defensores. As fontes islâmicas divergem quanto à data de sua adesão ao Islã, situando-a no segundo ou no sexto ano da missão profética, correspondentes aproximadamente a 612 e 616. O relato tradicional associa sua conversão a um conflito envolvendo Abu Jal. Segundo a TDV, uma escrava de , que presenciara Abu Jal e seus companheiros insultarem Maomé, relatou o ocorrido a Hâmeza quando este regressava de uma caçada e se dirigia à Caaba. Enfurecido, Hâmeza atingiu Abu Jal com seu arco e declarou publicamente sua adesão à religião de Maomé. Quando membros do clã de Abu Jal tentaram intervir, este teria pedido que deixassem Hâmeza em paz e reconhecido que havia insultado Maomé. Depois desse episódio, Hâmeza teria ido à Casa de Alarcame, onde aderiu formalmente ao Islã.

Segundo Ibne Isaque, sua conversão fortaleceu a posição dos muçulmanos, e os coraixitas, percebendo que Maomé passara a contar com sua proteção, procuraram negociar com ele. A TDV igualmente afirma que a conversão de Hâmeza fortaleceu os muçulmanos e levou seus adversários a reconsiderarem algumas de suas iniciativas contra eles. Uma tradição transmitida por Ibne Sade relata ainda que Hâmeza pediu para ver o anjo Gabriel em sua verdadeira forma e perdeu os sentidos depois de vê-lo. Ainda em Meca, após sua conversão, Maomé estabeleceu um vínculo de fraternidade entre Hâmeza e Zaíde ibne Harita, a quem Hâmeza costumava confiar seus bens quando partia em campanha. Em 622, Hâmeza participou da Hégira para Medina, hospedando-se em Cuba na casa de ou de Sade ibne Caitama. Na fraternização estabelecida posteriormente em Medina entre os emigrantes e os ançares, Maomé associou Hâmeza a Cultume ibne Alhideme.

Atividade militar

Na primeira expedição que comandou em nome de Maomé, identificada nas fontes como a Expedição de Sife Albar, Hâmeza recebeu o comando de cerca de trinta cavaleiros enviados em Ramadã de 1 A.H. (março de 623) para interceptar uma caravana coraixita que regressava da Síria pela rota costeira, em território dos juainaítas. Próximo ao litoral, encontrou a caravana, acompanhada por cerca de trezentos homens, entre os quais estava Abu Jal. O confronto foi evitado pela intervenção de , que mantinha relações com ambos os grupos e conseguiu conciliá-los. Segundo Aluaquidi, Maomé confiou nessa ocasião a Hâmeza o primeiro estandarte utilizado pelos muçulmanos. Hâmeza participou posteriormente das expedições de e , além da expedição contra os cainucaítas, exercendo nessas campanhas a função de porta-estandarte de Maomé.

Na Batalha de Badre, em 624, Hâmeza destacou-se entre os combatentes muçulmanos. Durante a marcha, compartilhou um camelo com Zaíde ibne Harita, e, segundo Aluaquidi, usava uma pena de avestruz como sinal distintivo durante o combate. Depois que os muçulmanos assumiram o controle dos poços de Badre, teria avançado contra a cisterna dos muçulmanos, jurando beber dela, destruí-la ou morrer na tentativa. Hâmeza enfrentou-o, atingiu-lhe a perna e posteriormente o matou junto à cisterna. Hâmeza participou também dos combates individuais que precederam o confronto geral. Segundo a TDV, matou Xaiba ibne Rabia e participou da morte de Oteba ibne Rabia, pai de Hinde binte Oteba, embora outras tradições divirjam quanto à identidade do responsável pela morte de Oteba, atribuída também a Ali. Durante a batalha, Hâmeza teria matado ainda , tio de Jubair ibne Mutime, e outros coraixitas. Aluaquidi atribui-lhe nessa ocasião a autodesignação de "Leão de Alá e de Seu Mensageiro".

Morte

Hâmeza morreu na Batalha de Uude, em 23 de março de 625 (7 de Xaual de 3 A.H.), com aproximadamente 57 a 59 anos segundo uma das cronologias transmitidas pelas fontes. Antes da batalha, durante as discussões sobre a estratégia a ser adotada diante do avanço dos coraixitas, defendeu que os muçulmanos deixassem Medina para enfrentar o inimigo em campo aberto. Durante o combate, destacou-se na linha de frente e, segundo a tradição reproduzida pela TDV, matou 31 adversários. Sua morte estava relacionada às perdas sofridas pelos coraixitas em Badre. Jubair ibne Mutime, cujo tio Tuaima ibne Adi havia sido morto por Hâmeza, prometeu conceder a liberdade a seu escravo Uaxi ibne Harbe, de origem abissínia, caso matasse Hâmeza em Uude. Hinde binte Oteba, que buscava vingar a morte de seu pai, Oteba ibne Rabia, teria prometido a Uaxi, além de suas próprias joias, dez moedas de ouro. Durante a batalha, Uaxi escondeu-se atrás de uma pedra enquanto Hâmeza combatia e, depois que este foi morto, lançou sua lança contra Hâmeza quando ele se aproximou, atingindo-o mortalmente. A Encyclopaedia of Islam igualmente atribui a morte de Hâmeza a Uaxi e relaciona o assassinato à promessa de alforria do escravo.

Depois da morte de Hâmeza, seu corpo foi mutilado. Algumas fontes relatam que Hinde retirou ou recebeu seu fígado e tentou mastigá-lo. Segundo a TDV, a mutilação não se restringiu a Hâmeza: os coraixitas cortaram narizes, orelhas e outras partes dos corpos dos muçulmanos mortos, com exceção de Hanzala ibne Abi Amir, cujo pai combatia do lado coraixita. As partes removidas teriam sido reunidas em colares usados pelas mulheres que acompanhavam o exército. Maomé teria ficado profundamente abalado ao encontrar o corpo mutilado do tio e, segundo a tradição reproduzida pela TDV, jurado inicialmente retaliar da mesma maneira contra dezenas de adversários. Teria abandonado a intenção após a revelação do versículo 16:126 do Alcorão, que limita a retaliação ao equivalente do dano sofrido e recomenda a paciência. A irmã de Hâmeza, Safia binte Abede Almotalibe, também compareceu ao local; embora Maomé inicialmente procurasse impedir que visse o corpo, ela insistiu e lamentou a morte do irmão.

Maomé conduziu a oração fúnebre de Hâmeza, que foi sepultado em Uude sem ser lavado e com as roupas que vestia na batalha, como os demais muçulmanos mortos no confronto. Segundo a TDV, Abu Becre, Omar, Ali e Azobair ibne Alauame cavaram sua sepultura e participaram do enterro juntamente com Maomé. Hâmeza foi colocado na mesma sepultura que seu sobrinho Abedalá ibne Jaxe. Segundo uma tradição atribuída a Abedalá ibne Maçude, Maomé realizou repetidamente a oração fúnebre por Hâmeza, colocando junto dele, a cada ocasião, outro dos muçulmanos mortos na batalha. Ao regressar a Medina, Maomé recebeu condolências de Sade ibne Muade, Muade ibne Jabal, Abedalá ibne Rauá e de mulheres dos ançares, que manifestaram seu pesar pela morte de Hâmeza. Hâmeza passou a ser reverenciado na tradição islâmica como mártir e recebeu os epítetos de Senhor dos Mártires () e Leão de Alá (). Sua figura tornou-se um dos primeiros modelos de martírio e coragem militar na tradição islâmica.

Família

Hâmeza casou-se três vezes e teve sete filhos.

, meia-irmã de Maimuna binte Alharite. , esposa de . , filha de Maleque e pertencente aos aucitas de Medina. . , morto ainda criança. , filha de Amir e pertencente aos najaritas. Teve filhos com Hâmeza, mas seus descendentes já haviam se extinguido à época de Ibne Sade. . . . . .

Tradição literária