PST ART (anteriormente denominado Pacific Standard Time) é um programa cultural recorrente e descentralizado dedicado às artes visuais, realizado por museus, universidades e outras organizações culturais do sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Criado e financiado pelo Getty, o programa articula exposições, publicações, encomendas artísticas, performances e atividades públicas em torno de um tema comum. Embora seja frequentemente descrito como um festival ou megaevento, não possui uma única sede: cada instituição participante desenvolve seu próprio projeto curatorial, enquanto o Getty concede financiamento, coordena a pesquisa e promove a programação conjunta.
O programa teve três edições principais até 2025: Pacific Standard Time: Art in L.A. 1945–1980 (2011–2012), dedicada à arte produzida em Los Angeles no pós-guerra; Pacific Standard Time: LA/LA (2017–2018), voltada aos diálogos entre a arte latino-americana, latina e a cidade; e PST ART: Art & Science Collide (2024–2025), sobre as intersecções entre arte e ciência. Em 2013, o Getty também organizou o programa intermediário Pacific Standard Time Presents: Modern Architecture in L.A.. Uma nova edição, centrada nos intercâmbios entre Los Angeles e a região do Oceano Pacífico, foi anunciada para 2030.
Segundo o Getty, as três primeiras edições principais reuniram mais de duzentas exposições, 120 publicações e milhares de programas públicos e apresentações. Em 2023, a instituição adotou a forma abreviada PST ART — que explicita o caráter artístico do projeto e evita a confusão com o fuso horário do Pacífico — e anunciou a intenção de realizar o evento a cada cinco anos.
Origem e modelo de colaboração
O projeto começou no início da década de 2000 como uma iniciativa de pesquisa e preservação do Getty Research Institute. Seu objetivo inicial era localizar arquivos, registrar depoimentos e evitar a perda de fontes sobre a história da arte de Los Angeles depois da Segunda Guerra Mundial, ainda pouco incorporada às narrativas dominantes da arte estadunidense. A partir de 2003, o Getty financiou levantamentos em acervos; em 2008, concedeu recursos para pesquisa e planejamento de exposições; e, entre 2009 e 2011, apoiou sua implementação. A iniciativa documental resultou no processamento de arquivos em treze instituições e em cerca de 350 entrevistas de história oral.
Durante a preparação da primeira edição, o projeto foi ampliado para incluir instituições de diferentes portes em toda a região. Esse desenho colaborativo tornou-se a principal característica do PST ART. O Getty distribui subsídios em duas etapas — pesquisa e planejamento, seguidos da produção das exposições e programas —, mas as organizações parceiras mantêm autonomia curatorial. Participam desde grandes museus, como o Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA), o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (MOCA) e o Hammer Museum, até arquivos, centros universitários, museus comunitários e espaços especializados.
O âmbito geográfico também se expandiu. Na edição de 2024, podiam participar organizações dos condados de Los Angeles, Orange, San Diego, Ventura, Santa Bárbara, Riverside, San Bernardino e Imperial.
Edições e programas
Art in L.A. 1945–1980 (2011–2012)
A primeira edição pública, Pacific Standard Time: Art in L.A. 1945–1980, reuniu 68 exposições e programas relacionados em mais de sessenta instituições. Realizada ao longo de 2011 e 2012, apresentou movimentos, comunidades e meios artísticos que haviam se desenvolvido na Califórnia meridional entre o fim da Segunda Guerra Mundial e 1980. Além das exposições, foram publicados quarenta livros e catálogos.
Entre os projetos de maior repercussão esteve Now Dig This! Art and Black Los Angeles 1960–1980, no Hammer Museum, que examinou a produção de artistas negros no contexto dos movimentos pelos direitos civis e do Black Power. A exposição reuniu cerca de 140 obras e destacou artistas como Charles White, Betye Saar, David Hammons, Noah Purifoy, Senga Nengudi, Maren Hassinger, Melvin Edwards e Ulysses Jenkins. No MOCA, Under the Big Black Sun: California Art 1974–1981 reuniu aproximadamente quinhentos objetos de 130 artistas para abordar as transformações políticas e culturais do período.
Outras exposições recuperaram a atuação do coletivo chicano Asco, a história feminista do Woman's Building, o movimento Light and Space, a cerâmica californiana, a arte conceitual e o design moderno. Entre os artistas abordados por diferentes instituições estavam Judy Chicago, Suzanne Lacy, Miriam Schapiro, Robert Irwin, James Turrell, Mary Corse, Ed Ruscha, David Hockney, Vija Celmins, Ken Price, Michael Asher e Paul McCarthy.
Uma das exposições de síntese, Pacific Standard Time: Crosscurrents in L.A. Painting and Sculpture, 1950–1970, reuniu gerações e linguagens que ajudaram a definir a arte do pós-guerra na costa oeste. A seleção incluiu John Baldessari, Peter Alexander, Larry Bell, Billy Al Bengston, Vija Celmins, Judy Chicago, Mary Corse, Ronald Davis, Richard Diebenkorn, Melvin Edwards, Frederick Eversley, Sam Francis, David Hockney, Edward Kienholz, John McCracken, Bruce Nauman, Noah Purifoy, Betye Saar, Ed Ruscha, Ken Price, Helen Lundeberg, De Wain Valentine e outros. Em lugar de propor uma única “escola de Los Angeles”, a mostra aproximou abstração geométrica, assemblage, figuração, resina, luz, cultura automobilística e referências à indústria aeroespacial.
O núcleo de arte baseada em percepção foi aprofundado em Phenomenal: California Light, Space, Surface, do Museum of Contemporary Art San Diego. A exposição apresentou Peter Alexander, Larry Bell, Ron Cooper, Mary Corse, Robert Irwin, Craig Kauffman, John McCracken, Bruce Nauman, Eric Orr, Helen Pashgian, James Turrell, De Wain Valentine e Douglas Wheeler. Esses artistas recorreram a luz natural e artificial, acrílico, resina, superfícies refletoras e instalações que modificavam a percepção corporal do espaço.
A produção chicana recebeu atenção em diferentes projetos. O LACMA organizou a primeira retrospectiva do Asco, formado em seu núcleo por Harry Gamboa Jr., Gronk, Willie F. Herrón III e Patssi Valdez. O coletivo havia transformado protesto, fotografia encenada, performance urbana e os chamados No Movies em respostas à violência policial, à Guerra do Vietnã e à exclusão de artistas mexicano-americanos dos museus. Mapping Another L.A.: The Chicano Art Movement, no Fowler Museum, e mostras dedicadas a Oscar Castillo, Sandra de la Loza e à geração mexicano-americana ampliaram esse panorama.
Em Doin’ It in Public: Feminism and Art at the Woman’s Building, a história do espaço feminista fundado por Judy Chicago, a designer Sheila Levrant de Bretteville e a historiadora Arlene Raven foi reconstruída por meio de obras, vídeos e arquivos. Além das fundadoras, o projeto abordou práticas de Miriam Schapiro, Faith Wilding, Suzanne Lacy, Betye Saar, Cheri Gaulke, Leslie Labowitz-Starus, Susan Mogul, Jerri Allyn e integrantes do L.A. Women’s Video Center. A exposição mostrou como pedagogia, produção editorial, performance e organização coletiva foram empregadas contra a violência de gênero e a marginalização de mulheres no sistema artístico.
Cinema e fotografia também integraram o programa. L.A. Rebellion: Creating a New Black Cinema recuperou o movimento de cineastas negros formado na Universidade da Califórnia em Los Angeles, associado a Charles Burnett, Julie Dash, Haile Gerima, Billy Woodberry, Barbara McCullough, Alile Sharon Larkin, Larry Clark e Ben Caldwell. No Getty, In Focus: Los Angeles, 1945–1980 reuniu trabalhos de Garry Winogrand, Robert Heinecken, Judy Fiskin, Anthony Hernandez e Anthony Friedkin, entre outros, em torno da arquitetura vernacular, da cultura automobilística, da indústria cinematográfica e da fotografia experimental.
Modern Architecture in L.A. (2013)
Em 2013, o Getty realizou Pacific Standard Time Presents: Modern Architecture in L.A., programa de menor escala voltado à arquitetura moderna da cidade. Nove exposições e seus programas associados trataram do crescimento metropolitano, da habitação, da preservação e de arquitetos como A. Quincy Jones, Frank Gehry, Thom Mayne e Peter Zumthor. O projeto gerou cinco publicações e ampliou o arquivo audiovisual do Southern California Institute of Architecture (SCI-Arc), que passou a disponibilizar mais de mil horas de palestras e debates. O programa é geralmente tratado como uma iniciativa intermediária, enquanto o Getty enumera as edições de 2011–2012, 2017–2018 e 2024–2025 como os três primeiros ciclos principais do PST ART.
LA/LA (2017–2018)
Pacific Standard Time: LA/LA examinou as relações entre Los Angeles e a América Latina, bem como as experiências latinas nos Estados Unidos. O título condensava a expressão Latin American and Latino Art in Los Angeles. Mais de setenta exposições e programas públicos foram realizados entre 2017 e 2018, acompanhados por sessenta novas publicações; quase vinte mostras viajaram posteriormente para Argentina, Brasil, Colômbia e México.
No Hammer Museum, Radical Women: Latin American Art, 1960–1985 reuniu 120 artistas e coletivos de quinze países. A mostra investigou como artistas mulheres recorreram ao corpo e a linguagens experimentais em contextos marcados por ditaduras, desigualdade e resistência política. Entre as participantes estavam Lygia Clark, Lygia Pape, Ana Mendieta, Marta Minujín, Zilia Sánchez, Feliza Bursztyn, Letícia Parente, Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Gego, Cecilia Vicuña, Liliana Porter, Lotty Rosenfeld, Mónica Mayer, Teresa Burga, María Evelia Marmolejo, Catalina Parra, Regina Silveira, Marisol, Victoria Santa Cruz e o coletivo Polvo de Gallina Negra.
No LACMA, Home—So Different, So Appealing apresentou cerca de cem trabalhos de quarenta artistas, incluindo Antonio Berni, Abraham Cruzvillegas, León Ferrari, Beatriz González, Félix González-Torres, Guillermo Kuitca, Gordon Matta-Clark, Amalia Mesa-Bains, Raphael Montañez Ortiz, Doris Salcedo, Laura Aguilar, Carmen Argote, Ramiro Gomez e Salomón Huerta, em torno das noções de casa, pertencimento e deslocamento.
No Getty, Making Art Concrete: Works from Argentina and Brazil in the Colección Patricia Phelps de Cisneros combinou história da arte e análise científica dos materiais empregados pela vanguarda concreta e neoconcreta. A exposição reuniu trabalhos de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Willys de Castro, Judith Lauand, Raúl Lozza, Rhod Rothfuss e outros artistas; a pesquisa associada também discutiu Geraldo de Barros, Waldemar Cordeiro, Hermelindo Fiaminghi e Tomás Maldonado. Exames técnicos de tintas, suportes e métodos de aplicação foram usados para compreender como esses artistas aproximaram geometria, indústria, cor e participação corporal.
Axis Mundo: Queer Networks in Chicano L.A., organizada pelo ONE Archives em colaboração com o MOCA, mapeou redes de colaboração entre artistas chicanos e artistas LGBT de Los Angeles do final dos anos 1960 ao início dos anos 1990. Com mais de cinquenta participantes, a exposição relacionou arte postal, fotografia, performance, punk, moda, publicações feministas e respostas à crise da AIDS. Entre os nomes apresentados estavam Laura Aguilar, Judith Baca, Carlos Almaraz, Alice Bag, Vaginal Davis, Pauline Oliveros, Genesis P-Orridge, Zoe Leonard, Mundo Meza, Ray Navarro, Joey Terrill, Roberto Gil de Montes, Gronk, Patssi Valdez, Faith Wilding, Johanna Went, Phranc e o próprio Asco.
Luiza Prado e Carlos Martiel