Anre ibne Madicaribe (), de cúnia Abu Taur, foi um chefe tribal, guerreiro e poeta árabe dos zubaiditas, ramo dos madijitas, ativo durante a Jailia e as primeiras conquistas muçulmanas. Chefe de sua tribo e célebre por sua reputação guerreira, aparece nas tradições como combatente de força excepcional e ficou associado à lendária espada . Como poeta mucadrame, sua produção concentrou-se sobretudo na guerra e no elogio de sua tribo e foi posteriormente preservada e compilada por diversos estudiosos árabes.
Em 10 A.H. (631–632), Anre dirigiu-se a Medina, encontrou-se com Maomé e converteu-se ao Islã, regressando ao Iêmem como chefe dos zubaiditas, embora subordinado ao governador Farua ibne Muçaique. Posteriormente aderiu à revolta de Alaçuade Alanci e foi nomeado por ele emir dos madijitas. Capturado durante a repressão das Guerras da Apostasia, foi levado perante o califa Abu Becre , arrependeu-se e retornou à obediência ao Estado muçulmano. Reintegrado às forças do califado, participou da conquista muçulmana da Síria e perdeu um olho na Batalha de Jarmuque. Sob Omar , combateu na conquista do Iraque e destacou-se na Batalha de Cadésia, adquirindo grande reputação por sua coragem.
As fontes divergem sobre a morte de Anre. Uma tradição situa-a em Cadésia, enquanto outra afirma que participou posteriormente da Batalha de Niavende, em 21 A.H. (641–642), onde foi ferido, morrendo algum tempo depois em Rei e sendo sepultado em Quermanxá. Há ainda relatos que, atribuindo-lhe extraordinária longevidade, prolongam sua vida até o califado de . Embora seu antigo divã não tenha sobrevivido, centenas de versos atribuídos a Anre foram preservados em outras obras e reunidos em edições modernas, mantendo-o entre os mais conhecidos poetas guerreiros árabes da transição entre os períodos pré-islâmico e islâmico.
Vida
Anre ibne Madicaribe nasceu durante a Jailia numa família proeminente do Iêmem e pertencia aos zubaiditas, ramo dos madijitas, dos quais se tornou chefe. Pouco se sabe sobre os acontecimentos concretos de sua vida antes do Islã, embora as tradições posteriores o retratem como um guerreiro de força excepcional que teria participado de numerosos combates. Sua reputação guerreira ficou associada à espada chamada , que adquiriu caráter lendário nas narrativas a seu respeito. Anre era tio materno de Caice ibne Maquexu, notável bajilita ligado aos muraditas por aliança. Segundo uma tradição, quando as notícias da pregação de Maomé chegaram ao Iêmem, Anre propôs a Caice que procurasse o profeta e, caso constatasse a veracidade de sua mensagem, promovesse a aproximação de seu povo. Caice recusou energicamente a proposta, levando Anre a dirigir-se pessoalmente a Medina em 10 A.H. (631–632); após seu regresso, os dois teriam discutido em razão da decisão de Anre. Segundo uma versão, Anre foi acompanhado a Medina por dez homens de sua própria tribo, enquanto outras fontes identificam seus acompanhantes como muraditas. Depois de encontrar-se com Maomé, converteu-se ao Islã e regressou ao Iêmem, conservando a chefia dos zubaiditas. Politicamente, porém, passou à autoridade de Farua ibne Muçaique, chefe muradita que se convertera anteriormente e fora nomeado governador de uma região que incluía os territórios dos zubaiditas.
Segundo a tradição, a posição subordinada a Farua desagradou Anre e contribuiu para sua participação na revolta de Alaçuade Alanci, que procurou dominar o Iêmem nos últimos meses da vida de Maomé. Anre abandonou então a obediência aos muçulmanos e Alaçuade nomeou-o emir dos madijitas. Sua adesão ao movimento, assim como a de seu sobrinho Caice ibne Maquexu, é interpretada por algumas reconstruções sobretudo no contexto de interesses políticos e rivalidades tribais, particularmente da posição adquirida por Farua ibne Muçaique graças ao reconhecimento de Maomé, e não necessariamente como aceitação da reivindicação profética de Alaçuade. Após a morte de Maomé e durante a repressão das Guerras da Apostasia, Anre submeteu-se a Almuajir ibne Abi Omaia, comandante enviado ao Iêmem pelo califa Abu Becre . Levado perante o califa, teria admitido sua participação na revolta, arrependido-se e retornado ao Islã, sendo autorizado a regressar à sua terra. A Encyclopaedia of Islam igualmente registra sua apostasia e captura durante a repressão das Guerras da Apostasia, salientando que Abu Becre acabou por libertá-lo.
Anre posteriormente retornou a Medina e Abu Becre destinou-o às campanhas da conquista muçulmana da Síria. Participou da Batalha de Jarmuque, em 15 A.H. (636), durante a qual perdeu um dos olhos. Sob o califado de Omar , seguiu para o Iraque e integrou as forças de Sade ibne Abi Uacas. Antes da Batalha de Cadésia, integrou uma delegação chefiada por Anumane ibne Mucarrine e enviada ao xainxá para negociar em nome dos muçulmanos. Também faziam parte da missão , Alaxate ibne Caice, Almuguira ibne Xuba e . As negociações com o soberano sassânida e, posteriormente, com o general Rustão Farruquezade não impediram o confronto. Omar teria informado Sade por carta que lhe enviava dois homens que valiam por dois mil combatentes e aconselhado o comandante a consultá-los e aproveitar sua experiência: um era Tulaia ibne Cuailide e o outro Anre. Conhecido por sua coragem como o "guerreiro dos árabes", Anre teria se distinguido particularmente nos combates de Cadésia. A Encyclopaedia of Islam igualmente destaca sua atuação nessa batalha, cuja data situa provavelmente em 16 A.H. (637).
Anre participou ainda da Batalha de Niavende, em 21 A.H. (641–642), integrando o exército comandado por Anumane ibne Mucarrine, no qual também figuravam Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, , , Almuguira ibne Xuba, Tulaia ibne Cuailide e outros comandantes. Anre é apresentado pela tradição como um dos combatentes cuja atuação contribuiu para transformar uma situação inicialmente desfavorável aos muçulmanos em vitória. Segundo a versão adotada por Sezikli, foi gravemente ferido durante a batalha e seus ferimentos não cicatrizaram; morreu posteriormente em Ruza, localidade de Rei, e foi sepultado em Quermanxá. Essa reconstrução considera pouco confiáveis os relatos segundo os quais teria morrido em Cadésia. As fontes, contudo, divergem consideravelmente acerca da data e das circunstâncias de sua morte. Uma tradição sobre a morte de Tulaia afirma que ele, Anumane e Anre morreram em consequência da Batalha de Niavende e acrescenta que os três teriam sido sepultados numa aldeia próxima de Ispaã. Pellat observa que algumas tradições, influenciadas pelas histórias sobre a extraordinária longevidade de Anre, prolongam sua vida até o califado de , mas considera mais provável que tenha morrido em Cadésia ou em Niavende, atribuindo essas versões às autoridades mais confiáveis. A tradição seguida pela TDV atribui-lhe cerca de 120 anos de idade no momento da morte, além de descrevê-lo como excepcionalmente corajoso e inteligente e dotado de voz poderosa.
Poesia
Anre ibne Madicaribe é contado entre os poetas mucadrame, isto é, aqueles cuja vida transcorreu tanto no período pré-islâmico quanto no islâmico. Sua poesia tinha como temas principais a guerra e o elogio de sua tribo e, segundo a Encyclopaedia of Islam, caracterizava-se pela concisão e clareza de expressão. Apenas parte de sua produção chegou aos tempos modernos. Um divã de sua poesia foi compilado inicialmente por Abu Anre Axaibani e posteriormente trabalhado por Abu Abedalá ibne Alarabi e Açucari no . A obra ainda era conhecida por Ibne Hajar de Ascalão no e por Abede Alcadir Albaguedadi no final do , este último tendo-a consultado acompanhada de comentário, mas, pelo que se sabe, o divã não sobreviveu. Em época moderna, Régis Blachère reuniu dezenove cássidas atribuídas a Anre, totalizando 225 versos. Posteriormente, o literato iraquiano Hāshim al-Ṭaʿān reuniu poemas dispersos em diferentes fontes e publicou-os em Baguedade, em 1970, sob o título Dīwān ʿAmr b. Maʿdīkarib. Muṭāʿ al-Ṭarābīshī, depois de examinar cerca de duzentas fontes e localizar mais de seiscentos versos atribuídos ao poeta, procurou excluir as atribuições consideradas espúrias e publicou aproximadamente trezentos versos como Šiʿr ʿAmr b. Maʿdīkarib, pela Academia da Língua Árabe de Damasco, em 1972, com nova edição em 1985. A importância de sua poesia para a tradição filológica árabe também é evidenciada pelo emprego de 33 de seus versos como exemplos linguísticos por Ibne Manzur no Lisan al-Arab.
Bibliografia
Categoria:Poetas árabes do século VII Categoria:Mucadrame Categoria:Conquista muçulmana da Síria Categoria:Generais do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes Categoria:Zubaiditas