O sequestro de Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza e cardeal da Igreja Católica, ocorreu em 15 de março de 1994, no Instituto Penal Paulo Sarasate, localizado no município de Aquiraz, no Ceará, a aproximadamente 31 quilômetros de Fortaleza. O religioso foi feito refém juntamente com outras 11 pessoas durante uma visita ao presídio, realizada com o objetivo de verificar denúncias de maus-tratos contra os detentos.
Entre os demais reféns estavam representantes de diferentes setores da sociedade cearense, incluindo um vereador, um deputado estadual, o coordenador do sistema penitenciário e três padres. Armados com facas, os detentos, liderados por Antônio Carlos de Sousa Barbosa, conhecido pelo apelido de "Carioca", exigiram dois carros-fortes e armamentos para realizar a fuga do estabelecimento prisional.
As negociações entre as autoridades e os sequestradores se estenderam por mais de dez horas. Ao final, parte das exigências foi atendida, com a disponibilização de um carro-forte para a fuga. Ainda durante a noite, o veículo deixou o presídio em direção a Quixadá, levando consigo os 12 reféns.
O sequestro terminou próximo ao município de Quixadá, em uma região chamada Serra Azul, localizado a aproximadamente 156 quilômetros do Instituto Penal Paulo Sarasate, onde os reféns haviam sido inicialmente capturados.
Antecedentes Na manhã de 15 de março de 1994, por volta das 9 horas da manhã, Dom Aloísio Lorscheider e sua comitiva realizaram uma visita ao Instituto Penal Paulo Sarasate. Considerando que a visita transcorreria de forma tranquila, a direção da Pastoral Penal de Fortaleza dispensou a escolta do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Ceará.
A visita ocorreu após denúncias apresentadas pelos detentos, que relatavam condições precárias no estabelecimento prisional e casos de maus-tratos. Dom Aloísio e os demais integrantes da comitiva iniciaram então uma inspeção nas dependências do presídio, visitando as celas dos internos antes de se dirigirem ao auditório, onde posteriormente ocorreria o sequestro.
Sequestro Dom Aloísio e sua comitiva percorreram inicialmente as celas do presídio, seguindo posteriormente para o auditório. Segundo testemunhas, uma movimentação considerada incomum já podia ser percebida no local. Durante um momento de fala, Antônio Carlos de Sousa Barbosa, conhecido como "Carioca", subiu ao palco armado com uma faca e fez Dom Aloísio de refém.
Logo após a tomada do cardeal, outros detentos passaram a abordar os demais integrantes da comitiva. Alguns tentaram agarrar outros presentes, entre eles Dom Geraldo Nascimento e o então padre e vigário episcopal Aldo Pagotto, enquanto outro detento entrava em luta corporal com Raimundo Brandão, coordenador do Sistema Penitenciário do Ceará, e outras pessoas que se encontravam nas proximidades.
Erilene Firmino, jornalista do Diário do Nordeste, e seu cinegrafista, que realizavam a cobertura da visita, conseguiram registrar os momentos iniciais do sequestro, sendo posteriormente mantidos como reféns. +Membros da Comitiva mantidos reféns durante a Rebelião no Instituto Prisional Paulo SarasateNomeCargoDom Aloísio LorscheiderArcebispo de FortalezaDom Manuel Edmilson da CruzBispo Auxiliar de FortalezaDom Geraldo NascimentoBispo Auxiliar de FortalezaPadre Aldo PagottoVigário episcopal da Região Metropolitana de Fortaleza Mário MamedeDeputado Estadual do Ceará da 23.ª legislaturaSeverino "Bibica" PiresVereador de FortalezaRejane PiresEsposa do vereador Severino PiresRaimundo BrandãoCoordenador do Sistema Penitenciário do CearáSheila CavalcantePromotora de JustiçaJoão Carlos MouraRepórter (Jornal O Povo)Avelino NeresRepórter (Tribuna do Ceará)Demétrio Costa AraújoSoldado da Polícia Militar do Ceará
Negociações As negociações tiveram início ainda naquela manhã. A defensora pública Sandra Dond foi designada como negociadora , enquanto Eunísia Barroso, coordenadora da Pastoral Carcerária, tentava intermediar a situação junto aos detentos. Os sequestradores, entretanto, exigiam que Eunísia retornasse ao interior do presídio após sua saída, mas ela não recebeu autorização para fazê-lo. Dessa forma, Sandra Dond permaneceu como principal interlocutora entre as autoridades e os sequestradores, levando informações sobre a situação dos reféns e providenciando os mantimentos solicitados.
Com o impasse se prolongando, Sandra Dond comunicou ao então governador do Ceará, Ciro Gomes, informações sobre o histórico criminal de Antônio Carlos de Sousa Barbosa, o "Carioca", a quem havia defendido anteriormente em outro processo.
Fuga para o Sertão Central e Libertação Com o impasse se prolongando por mais de 12 horas, as exigências dos detentos foram atendidas apenas parcialmente. Inicialmente, os sequestradores haviam solicitado dois carros-fortes e armamentos, a reivindicação do carro-forte foi aceita, o armamento entregue foram revólveres calibre 38, mas com poucas munições. Ás 23h15min do dia 15 de março, os detentos deixaram o presídio levando os doze reféns em um trajeto de aproximadamente 12 horas até Quixadá, no Sertão Central do Ceará.
O trajeto até Quixadá foi marcado por mudanças no plano de fuga. No distrito de Cristais, localizado a aproximadamente 100 quilômetros de Fortaleza e nas proximidades do município de Morada Nova, os sequestradores avistaram uma caminhonete estacionada no acostamento e decidiram render seu motorista. Armados, os detentos desceram do veículo e ordenaram que os ocupantes se afastassem. Entretanto, ao perceberem que um dos pneus da caminhonete estava furado, desistiram da tentativa.
Após o episódio, um dos sequestradores informou aos reféns que algumas pessoas seriam libertadas. Deixaram o veículo Rejane Gomes, esposa do vereador Severino Pires, Sheila Cavalcante, promotora de Justiça, o próprio Severino Pires e o jornalista do jornal O Povo, João Carlos Moura.
O restante dos reféns foi libertado às 6h00 de 16 de março, na localidade de Serra Azul, nas proximidades do município de Quixadá. Dom Aloísio foi então conduzido em uma viatura da Polícia Federal até a residência episcopal em Fortaleza, onde chegou por volta das 8h00.
Após seu retorno, o cardeal foi submetido a exames médicos para avaliar seu estado de saúde, realizados por seu médico particular. Dom Aloísio possuía histórico de problemas cardíacos, condição que, segundo algumas interpretações, teria influenciado sua decisão de não aceitar a eleição para o papado no conclave de 1978.
Reações
Nacional O governador do Ceará, Ciro Gomes, acompanhou o desenrolar do sequestro e chegou ao local após o meio-dia, passando a coordenar pessoalmente os esforços de negociação. Durante a crise, Ciro Gomes solicitou apoio ao então presidente da República, Itamar Franco, e ao governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho. Este último autorizou o deslocamento do Grupo Especial de Resgate (GER), da Polícia Civil de São Paulo, para auxiliar nas operações de negociação e resgate.
Internacional O papa João Paulo II entrou em contato, diretamente do Vaticano, com a Nunciatura Apostólica em Brasília para obter informações sobre o estado de Dom Aloísio Lorscheider. A Nunciatura Apostólica, então passou a manter o pontífice informado sobre a situação do cardeal, realizando atualizações a cada 30 minutos. Após a confirmação da liberação de Dom Aloísio, o Papa João Paulo II enviou um telegrama a dom Aloísio, o felicitando.
Prisões As prisões dos 12 detentos envolvidos no sequestro de Dom Aloísio Lorscheider e de sua comitiva ocorreram em diferentes localidades do interior do Ceará. Os quatro primeiros, Luciano Henrique de Sousa, José Roberto Gomes, Enilson Martins da Silva e Josimar Pereira de Andrade, foram recapturados em 18 de março de 1994, em Ibaretama e localidades próximas.
Ao todo, 346 policiais militares e 36 policiais civis participaram das operações de busca pelos demais fugitivos. As capturas ocorreram progressivamente nos dias seguintes. Em 21 de março, apenas três dos detentos permaneciam foragidos: Antônio Carlos de Sousa, conhecido como "Carioca", João da Silva Queiroz e Lucélio Vasconcelos da Silva.
Em 24 de março, Antônio Carlos de Sousa tentou fugir para uma área de mata após disparar seu último tiro, que não atingiu os policiais. Ele acabou sendo capturado por uma equipe policial que se deslocava em sentido contrário. Na mesma data, João da Silva Queiroz foi localizado e preso em uma casa em construção. Com isso, apenas Lucélio Vasconcelos da Silva permanecia foragido.
As buscas foram encerradas em 25 de março de 1994, quando Lucélio Vasconcelos da Silva foi localizado e preso em Ibaretama. Segundo os relatos sobre a operação, ele não ofereceu resistência no momento da prisão.
Categoria:1994 no Ceará Categoria:Casos de sequestro no Brasil Categoria:Crimes no Brasil na década de 1990