miniatura|250px|O ciclo troiano deu origem a dous livros galegos do século XIV. Na imagem, os muros de Troia. A prosa galega medieval, ou ainda prosa galego-portuguesa medieval, é o nome da literatura produzida na Idade Média no romance hispânico ocidental.
O brilhantismo do lirismo trovadoresco determinou que durante algum tempo, e ainda na visão de alguns analistas atuais, se viesse considerando a prosa como a sua "irmã menor" no conjunto do legado medieval galego. Porém, a realidade é que, apesar de a narrativa galego-portuguesa medieval não alcançar os momentos de esplendor da lírica, não deixa de ser verdade que apresenta um volume de textos que demonstra tanto uma perfeita relação com as correntes dominantes na Europa da época como a presença de um normal desenvolvimento da língua (que se verá truncado pelas circunstâncias socio-históricas que concorrem no fim da Idade Média). Deste modo, importa indicar que contamos com um importante legado de prosa galega —ou galego-portuguesa— medieval que está a ser revalorizado pela crítica atual. miniatura|Vita et Virtutibus sanctissimi Rudesindi Episcopi. Alguns estudiosos medievalistas fazem uma classificação cronológica em dois períodos: galego-portuguesa (séculos XIII e XIV) e prosa galega e prosa portuguesa (século XV).
Classificação temática miniatura|170 px|O Códice Calixtino tem uma versão em galego. Convencionalmente, classifica-se a prosa medieval galega em três âmbitos genéricos: hagiografia, historiografia e prosa de ficção. Em nenhum dos três casos se trata de criação original em galego, mas de traduções ou versões mais ou menos fiéis.
Hagiografia O objetivo da literatura hagiográfica é registar a vida exemplar e os milagres realizados pelos santos, com o objetivo de os glorificar e de servir de modelo de comportamento para os leitores.
Há um livro de milagres dedicado à vida do fundador de Celanova, Rosendo Gutérrez, escrito em duas etapas, a primeira anterior a meados do século XII e a segunda devida a Ordonho de Celanova, entre 1172 e 1180.
O principal protagonista da prosa hagiográfica em galego é o Apóstolo Santiago. O texto fundamental é Miragres de Santiago, versão reduzida do Liber Sancti Iacobi ou Codex Calixtinus, que está conservado num códice fragmentário do primeiro terço do século XV.
Prosa de ficção ou novelesca Prosa derivada do roman francês nascido na segunda metade do século XII, a prosa de ficção medieval em galego tem duas temáticas principais:
miniatura|esquerda|115px|O graal, tema da matéria da Bretanha.
O Ciclo Bretão ou Matéria da Bretanha: textos sobre o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda. Destaca-se um fragmento de um Livro de Tristão, do terceiro quarto do século XIV, importante porque se trata da tradução de um ciclo textual do qual não se conserva nenhum testemunho no resto das literaturas peninsulares. Além disso, conservam-se textos relacionados com a chamada Vulgata em torno do mundo do Graal; isto é, contamos com versões da primeira e terceira parte da mesma —O Livro de José de Arimateia e a Demanda do Santo Graal—, assim como alguns pequenos fragmentos da segunda parte, o Merlim.
O Ciclo troiano ou clássico: textos sobre o mundo clássico greco-latino, sobretudo da história de Troia. O maior representante é a Crónica troiana, versão em galego do Roman de Troie. A versão foi encomendada pelo conde Fernão Peres de Andrade, O Bom para ser traduzida na Corunha a partir de uma tradução para castelhano e foi concluída em 1373 (estima-se, no entanto, que é provável que existisse uma versão anterior em galego da qual sairia a versão em castelhano). A Crónica troiana é a primeira grande obra de ficção em galego (ainda que fosse uma tradução do castelhano), na qual se narra a destruição de Troia a partir de textos clássicos.
miniatura|180 px|A Grande e General Historia (na imagem) foi traduzida para galego.
Historiografia Este tema esteve ligado durante os séculos alto e pleno-medievais à cidade compostelana, inventio do sepulcro apostólico, e à confirmação da igreja e da catedral que surgiram junto dela; e, na Baixa Idade Média, à consolidação dos reinos de Leão e Castela. As obras mais destacáveis desta primeira etapa são o Cronicón Iriense, escrito no último terço do século XI, e duas obras realizadas na escola catedralícia compostelana, criada pelo primeiro arcebispo de Santiago, Diogo Gelmires: a Historia Compostelá, crónica do seu pontificado (1112-1139) e o Códice Calixtino, guia de peregrinação a Santiago (1140-1150) e germe da tradição hagiográfica que deu lugar às traduções baixo-medievais dos Miragres de Santiago e do Flos Sanctorum ou Legenda Aurea.
Os inícios da historiografia em língua galega estão, como é natural, relacionados com Afonso X, que, embora tenha apostado no castelhano como língua de cultura, promoveu a tradução para outras línguas peninsulares de vários textos.
Do final do século XIII é uma tradução para galego de uma Crónica de Castela, que vai além disso precedida por uma genealogia real navarra, conhecida como Liber Regum e acompanhada por um resumo do reinado de Fernando III e sucessores, e outros textos menores. O texto resultante é conhecido como Crónica galega de Leão e Castela. Trata-se de um dos textos em prosa mais arcaicos que se conhecem e é a base para importantes textos portugueses como a Crónica Geral de 1344 e, sobretudo, a Crónica de 1404 (data da sua conclusão), um dos poucos textos em prosa escritos originalmente em galego (embora conserve nos seus inícios o começo original em castelhano). São também destacáveis a Crónica de San Fernando (1309) e a Crónica Galega de 1404, que relata as origens do mundo, a história dos povos da Antiguidade e os acontecimentos hispânicos desde a chegada dos visigodos.
De caráter biográfico e eclesiástico é a Gesta Berengarii de Landoria, anterior a 1322, que narra a revolta dos compostelanos contra o arcebispo Berenguel de Landoira e da qual se conservam fragmentos dos séculos XIV e XV.
Conserva-se também uma tradução incompleta da General Estoria afonsina e uma Crónica de Santa María de Iria (1468), tradução de duas fontes latinas.
Miscelânea miniatura|esquerda|140px|O Livro da Montaria trata sobre a caça maior. miniatura|300px|page=6|Manuscrito do Recuento de las casas antiguas del Reino de Galicia na Biblioteca Nacional de Espanha. Finalmente, poder-se-ia incluir um quarto apartado miscelâneo: muita documentação de prosa tabeliónica (testamentos, heranças...), prosa jurídica (Flores de Dereito, traduções das Partidas de Afonso X, Ordenamento de Alcalá de Henares de 1348, Foro real, Recuento de las casas antiguas del Reino de Galicia de Vasco da Ponte...) e outros escritos como o Tratado de Albeitaria, Livro da Montaria, Livro dos cavaleiros cambadores de Santiago etc.
Assim, todo este conjunto vem demonstrar a presença e o progresso de uma literatura galego-portuguesa em prosa ao longo do espaço medieval, da qual é ainda necessário levar a cabo uma análise pormenorizada. Tanto o valor literário de alguns textos como o histórico-linguístico são fundamentais numa perspetiva diacrónica das letras galegas.
Ver também Outros artigos Literatura galego-portuguesa medieval Tesouro Medieval Informatizado da Lingua Galega Partidas de Afonso X Foro Real Ordenamento de Alcalá Crónica Geral e Crónica de Castela Crónica troiana História troiana Tratado de Albeitaria
Ligações externas Miragres de Santiago (fragmentos do Livro IV), na Biblioteca Cervantes Fragmento da Demanda do Santo Graal Fragmentos da Crónica Troiana, Miragres de Santiago, Livro de Tristam, Crónica Geral e documentos notariais medievais
Categoria:Literatura galega medieval