Messianismo cibernético é um termo utilizado pelo escritor grego Dimitris Lyacos para descrever uma forma emergente de controle social baseada na integração entre comunicação automatizada, inteligência artificial e sistemas coletivos de tomada de decisões. Nessa concepção, a comunicação bidirecional entre sistemas humanos e artificiais conduz à formação de um superorganismo tecnológico, entendido como uma arquitetura com função salvífica.
Descrição
Segundo um artigo publicado na revista Doppiozero, no capítulo X de Finché la vittima non sarà nostra,Dimitris Lyacos, Finché la vittima non sarà nostra. Il Saggiatore, 2025, pp. 233–246. Lyacos representa um «sistema de harmonia perfeita» no qual a violência teria sido eliminada e as estruturas religiosas tradicionais seriam gradualmente substituídas por uma entidade dominante com as características de um superorganismo. O uso do termo messianismo cibernético é comparado por Lyacos às concepções históricas do messianismo. O autor refere-se à transformação e eventual substituição das concepções culturais de Deus por um sistema onipresente de comunicação automatizada e, em última instância, por processos decisórios plenamente coordenados entre a inteligência artificial e a humana. O resultado final conduziria a uma supercoletividade, em analogia com os superorganismos biológicos encontrados entre as espécies eussociais. Segundo o autor, o termo pode ser entendido como um desenvolvimento posterior de conceitos como a governamentalidade,Michel Foucault, «Governmentality», em Aradhana Sharma e Akhil Gupta (orgs.), The Anthropology of the State: A Reader. Blackwell, 2006, pp. 131–143. de Michel Foucault, e a ideia de sociedade de controle, de Gilles Deleuze.Gilles Deleuze, «Postscript on the Societies of Control», L’Autre Journal, maio de 1990.
O crítico italiano Alessandro Mezzena Lona interpreta a conclusão do romance como a imposição de um sistema de controle perfeito que libertou o ser humano de uma parte da sua violência animal. O superorganismo tecnológico aparece como capaz de assumir a gestão da vida humana tanto no espaço público como no privado.
Messianismo cibernético e o conceito de Deus
Ao comentar os capítulos finais do seu romance, Lyacos distingue três concepções de Deus: um «primeiro Deus», ligado à coletividade e aos rituais das sociedades pré-industriais; um «segundo Deus», individual, associado à ascensão do individualismo moderno; e um «terceiro Deus», ligado a uma dimensão tecnológica e automatizada da comunicação e do conhecimento coletivo.
Para Lyacos, o oposto da violência não é a não violência ou a paz, mas a comunicação. A «comunicação perfeita» conduziria, assim, a uma forma igualmente completa de organização social. O «terceiro Deus» não seria, portanto, uma divindade transcendente ou pessoal, mas o próprio sistema coordenado de comunicação, conhecimento e controle. O pleno desenvolvimento desse sistema poderia reestruturar a individualidade humana no âmbito de uma coordenação automatizada e de uma inteligência coletiva mais ampla.
Ver também
Escatologia Judaísmo messiânico Inteligência artificial Cibernética Superorganismo
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