José Gomes, conhecido pela alcunha de Cabeleira (Glória do Goitá, c. 1751 – Forte das Cinco Pontas, Recife, 28 de março de 1786), foi um bandoleiro que atuou na Capitania de Pernambuco na segunda metade do século XVIII. É tradicionalmente apresentado como um dos primeiros personagens associados à história do cangaço no Nordeste brasileiro, embora a aplicação do termo "cangaceiro" a um personagem do período colonial seja uma classificação posterior.

Sua existência é atestada por documentação do período colonial. Uma carta de 14 de janeiro de 1786, enviada pelo governador de Pernambuco, José César de Meneses, ao ministro português Martinho de Melo e Castro, descreve José Gomes, chamado Cabeleira, como integrante de um grupo de malfeitores que provocava temor entre moradores da freguesia do Cabo. O documento relata ainda a mobilização das autoridades locais, tropas auxiliares, ordenanças e indígenas para realizar sua prisão.

A memória de Cabeleira, entretanto, ultrapassou amplamente os registros administrativos. Durante o século XIX, sua história foi preservada em relatos populares e posteriormente transformada em literatura por Franklin Távora, que publicou o romance O Cabeleira em 1876. A obra tornou-se uma das primeiras representações literárias de grande repercussão sobre o banditismo nordestino e teve papel decisivo na permanência do personagem no imaginário brasileiro.

Contexto histórico

A atuação atribuída a Cabeleira ocorreu no final do período colonial, quando Pernambuco constituía uma das principais áreas econômicas da América portuguesa. A sociedade era marcada pela concentração fundiária, pela economia açucareira, pela escravidão e pela existência de extensas áreas rurais de difícil controle administrativo.

A região da Zona da Mata de Pernambuco possuía numerosas propriedades agrícolas e engenhos, enquanto as áreas de mata e os caminhos entre as povoações ofereciam espaços onde grupos de criminosos podiam escapar das autoridades.

A segunda metade da década de 1770 também foi marcada por graves dificuldades sociais. Franklin Távora relacionou os acontecimentos narrados em O Cabeleira à epidemia de varíola que atingiu Pernambuco em 1775 e a uma seca ocorrida posteriormente.

Estudos posteriores também destacaram a importância das crises ambientais e econômicas para a compreensão do banditismo rural na região durante o século XVIII, embora não seja possível estabelecer uma relação causal simples entre a seca e a atuação de Cabeleira.

Origem

Os dados biográficos sobre José Gomes são escassos e apresentam divergências.

A tradição posterior costuma situar seu nascimento por volta de 1751, na região que atualmente corresponde a Glória do Goitá, em Pernambuco, então relacionada administrativamente à área de Vitória de Santo Antão. Entretanto, a documentação contemporânea conhecida não permite estabelecer com segurança sua data ou local exatos de nascimento.

A identificação de seu pai também apresenta divergências importantes.

No romance de Franklin Távora, José Gomes é apresentado como filho de Joaquim Gomes, personagem que exerce papel fundamental na formação literária do protagonista.

Já a documentação colonial analisada por Ana Marcia Alves Siqueira identifica José Gomes como filho de Eugênio Gomes. A carta de 1786 é particularmente importante por ser uma fonte contemporânea aos acontecimentos e não uma reconstrução posterior.

Por essa razão, a filiação de José Gomes deve ser apresentada com cautela. A versão de Joaquim Gomes tornou-se muito conhecida por causa do romance de Távora, mas o documento de 1786 constitui evidência histórica anterior à obra literária.

O grupo de Cabeleira

As fontes históricas e literárias descrevem Cabeleira como integrante de um pequeno grupo de malfeitores.

Na narrativa de Franklin Távora, José Gomes aparece acompanhado de seu pai, Joaquim Gomes, e de um homem chamado Teodósio. O grupo percorre diferentes áreas de Pernambuco, praticando roubos e outros atos de violência.

A documentação colonial possui uma descrição diferente e mais objetiva. Na carta de 1786, José Gomes aparece associado a seu pai e a uma mulher identificada no documento como sua companheira. O governador relata que o grupo era acusado de roubos e mortes e que sua presença provocava medo entre os moradores.

Essa diferença entre as fontes demonstra a necessidade de separar a narrativa literária da documentação histórica.

Enquanto Távora constrói uma história extensa, com personagens, diálogos, relações familiares e episódios dramáticos, o documento administrativo colonial tem outro objetivo: comunicar ao governo português a atuação das autoridades e o resultado da perseguição aos criminosos.

Reputação e atuação

Segundo a documentação de 1786, os moradores de determinadas áreas da freguesia do Cabo temiam a presença do grupo. O governador descreveu José Gomes e seus companheiros como indivíduos cuja aproximação de povoações ou engenhos era suficiente para provocar o fechamento das casas e a interrupção das atividades cotidianas.

O mesmo documento registra que o juiz de fora responsável pelo distrito havia recebido numerosas queixas contra os criminosos. As primeiras tentativas de captura não tiveram sucesso, em parte porque os próprios executores das ordens judiciais demonstravam receio diante da reputação do grupo.

A situação levou à utilização de forças auxiliares para apoiar a operação. A documentação menciona a participação de tropas auxiliares, ordenanças e indígenas, mostrando que a repressão ao banditismo rural dependia da mobilização de diferentes segmentos das estruturas militares e administrativas da capitania.

O episódio é significativo para a história do banditismo colonial porque demonstra que as autoridades reconheciam a existência de grupos capazes de desafiar, ainda que localmente, a capacidade de controle do poder público.

A perseguição pelas autoridades

A perseguição a Cabeleira deve ser compreendida dentro das estruturas administrativas da América portuguesa.

A justiça colonial não dispunha de uma força policial profissional organizada nos moldes contemporâneos. A manutenção da ordem dependia de magistrados, tropas auxiliares, ordenanças e outras formas de mobilização local.

No caso de Cabeleira, a documentação demonstra uma sequência de tentativas de captura que inicialmente não obtiveram resultado. O juiz de fora Antônio de Souza Correia teria procurado pessoalmente organizar a prisão dos acusados, mas a operação não conseguiu alcançar o objetivo.

O governador José César de Meneses decidiu então fornecer apoio militar à operação. A participação das tropas auxiliares e das ordenanças permitiu finalmente localizar e prender os criminosos.

A carta enviada a Martinho de Melo e Castro tinha, portanto, também uma função política: comunicar ao governo português que a administração pernambucana havia conseguido restaurar a autoridade pública diante do grupo considerado responsável pelos crimes.

Prisão

A documentação mais importante sobre a prisão é a carta de 14 de janeiro de 1786 enviada por José César de Meneses ao ministro do Ultramar português.

Segundo a fonte, a prisão de José Gomes e de seus companheiros ocorreu depois que as autoridades conseguiram organizar uma operação que superou o temor provocado pelo grupo.

O documento afirma que os presos foram levados para a cadeia e submetidos a interrogatórios. A carta é uma das principais evidências históricas da existência de Cabeleira e permite distinguir o personagem documentado no século XVIII da figura posteriormente construída pela literatura.

Algumas narrativas posteriores situam a captura de Cabeleira em um canavial na região de Paudalho. Essa versão tornou-se bastante difundida na historiografia memorialista e na tradição sobre o personagem, embora os detalhes da operação de captura devam ser tratados com cautela quando não acompanhados pela documentação primária.

Julgamento e execução

A tradição histórica situa a execução de Cabeleira em 28 de março de 1786, no Recife.

Fontes posteriores afirmam que José Gomes foi condenado à morte e executado por enforcamento no Forte das Cinco Pontas, juntamente com seu pai e Teodósio.

A data aparece em trabalhos posteriores sobre a história do personagem e também em pesquisas acadêmicas que utilizam a bibliografia memorialista.

Entretanto, a documentação primária localizada e analisada por Siqueira comprova diretamente a prisão em 1786, mas não permite, isoladamente, estabelecer todos os detalhes da execução. Por isso, a data de 28 de março deve ser apresentada como a data tradicionalmente registrada pelas fontes posteriores, e não como um dado cuja documentação primária esteja completamente estabelecida.

A tradição literária de Franklin Távora também afirma que Cabeleira e seu pai foram executados no local conhecido como Cinco Pontas.

O Cabeleira histórico e o Cabeleira literário

Uma das principais dificuldades para estudar Cabeleira consiste na distinção entre o personagem histórico e sua representação literária.

O Cabeleira histórico aparece de forma relativamente breve na documentação colonial. É identificado como José Gomes e está relacionado a acusações de roubos, mortes e perturbação da ordem pública. A documentação interessa principalmente às autoridades administrativas, que procuravam explicar as dificuldades encontradas para capturá-lo.

O Cabeleira literário, por outro lado, é o protagonista do romance de Franklin Távora. Sua história recebe uma dimensão psicológica e moral muito mais desenvolvida.

A diferença é fundamental para a historiografia. Personagens e acontecimentos existentes no romance não podem ser automaticamente utilizados como prova da vida real de José Gomes.

O Cabeleira, de Franklin Távora

Em 1876, cem anos após a data tradicionalmente atribuída à execução de Cabeleira, o escritor cearense Franklin Távora publicou O Cabeleira: história pernambucana.

A obra foi apresentada como o primeiro livro de uma proposta literária que Távora denominou "Literatura do Norte". O escritor pretendia valorizar a história, a paisagem, os costumes e os tipos humanos das províncias setentrionais do Brasil, em oposição ao que considerava uma produção literária excessivamente afastada da realidade regional.

A tese de Ana Marcia Alves Siqueira demonstra que Távora utilizou tradições populares e referências históricas sobre Cabeleira, mas transformou esse material de acordo com seus objetivos literários, educacionais e nacionalistas.

O romance combina elementos do Romantismo, do regionalismo e de ideias cientificistas presentes no pensamento intelectual do século XIX. A trajetória de Cabeleira é utilizada para discutir a influência do meio, da educação e das relações familiares na formação do indivíduo.

José Gomes e Luísa

Uma das principais diferenças entre a documentação histórica e o romance está na personagem Luísa.

No romance de Távora, Luísa é apresentada como companheira de infância de José Gomes e desempenha papel central em sua tentativa de transformação moral. O relacionamento entre os dois é utilizado pelo escritor para construir uma narrativa de amor, arrependimento e possibilidade de regeneração.

Não há, entretanto, evidência equivalente na documentação colonial conhecida que permita tratar todos os episódios envolvendo Luísa como acontecimentos comprovados da vida de José Gomes.

A personagem pertence principalmente à construção literária de Távora e é fundamental para compreender a finalidade moral do romance.

A representação do pai

No romance, Joaquim Gomes possui papel determinante na formação de Cabeleira.

Távora constrói uma oposição entre a natureza originalmente apresentada como boa de José Gomes e a influência exercida pelo pai. A violência e o ambiente familiar são utilizados para explicar a transformação do protagonista em bandido.

Essa interpretação não deve ser confundida com uma descrição documental da infância de José Gomes.