Relatório sobre uma investigação do movimento camponês em Hunan ou Investigação sobre o movimento camponês de Hunan, de março de 1927, frequentemente chamado de Relatório de Hunan, é um dos ensaios mais famosos e influentes de Mao Tsé-Tung. O Relatório baseia-se em uma visita de vários meses à região rural de origem de Mao, nos arredores de Changsha, capital de Hunão, no início de 1927. O Relatório endossa a violência que havia eclodido espontaneamente na esteira da Expedição do Norte, faz uma análise de classes da luta e relata com entusiasmo as "Quatorze Grandes Realizações" das associações camponesas (农民协会).Suguru Yokoyama. "The Peasant Movement in Hunan." Modern China 1, n.º 2 (1975): 204–238. www.jstor.org/stable/189041.

Em uma época em que a estratégia do Partido Comunista da China (PCCh) se baseava nos trabalhadores urbanos, Mao defendia uma revolução baseada no campesinato, especialmente nos camponeses pobres. Ele enfatizava que a luta violenta e ritualizada era o método mais eficaz para atacar os inimigos de classe. A ênfase do Relatório de Hunan no campesinato, inclusive em sua luta violenta contra a classe dos proprietários de terras, gradualmente se tornou a estratégia dominante na reforma agrária do Partido Comunista em seu caminho para a vitória em 1949.

A retórica do Relatório de Hunan foi adotada por radicais na Revolução Cultural Chinesa e por grupos radicais em todo o mundo, como os naxalitas na Índia e o Sendero Luminoso no Peru, que seguiram o exemplo de Mao de "cercar as cidades a partir do campo", construindo poder nas aldeias por meio da violência.

Contexto Mao deixou sua aldeia natal em Hunan para se formar na Universidade Normal de Hunan e, depois de ingressar no Partido Comunista, tornou-se professor e organizador trabalhista. Ele ficou impressionado com o líder comunista de Guangdong, Peng Pai, um intelectual radical que organizaria os camponeses de seus distritos de origem no Soviete de Hailufeng, que redistribuiu terras e promoveu mudanças sociais. Quando os comunistas se uniram aos nacionalistas na Primeira Frente Unida, Peng dirigiu o Instituto de Formação do Movimento Camponês, do qual Mao se tornou colíder.

Os nacionalistas, com apoio comunista e soviético, lançaram a Expedição do Norte em 1925 para unificar o país e expulsar os imperialistas, desencadeando manifestações de massa nas cidades e levantes de associações camponesas no campo. Os comunistas foram às organizações camponesas antes do avanço do exército para auxiliar os camponeses na oposição aos senhores da guerra e a seus aliados proprietários de terras. Enfraquecidos pelos camponeses e comunistas, os senhores da guerra e sua base social foram derrotados com mais facilidade pelos soldados da Expedição do Norte. Essa combinação de organização camponesa e força militar constituiu o ponto culminante da cooperação entre nacionalistas e comunistas.

No entanto, as lideranças de ambos os partidos questionavam se as associações camponesas deveriam ser incentivadas em sua violência e em seus ataques aos proprietários de terras. Chen Duxiu, líder comunista, acreditava que, em consonância com uma visão marxista ortodoxa, a base do partido deveria ser composta por trabalhadores urbanos, cabendo aos camponeses apenas um papel adjacente nessa estratégia. Os relatos vindos do campo eram dispersos e pouco confiáveis. Mao, reconhecido por ambos os partidos como especialista nos camponeses, foi enviado a Hunan para investigar as condições locais em áreas pelas quais as tropas da Expedição do Norte haviam acabado de passar. Ele publicou seu relatório no Zhongyang Fukan (Periódico do Comitê Central) em 28 de março de 1927.

Conteúdo Neste relatório, Mao Tsé-Tung detalha as ações e realizações dos camponeses chineses em Hunão numa tentativa de influenciar a opinião de seus companheiros revolucionários sobre a capacidade do campesinato para a revolução comunista na China.Mary C. Wright. "The Chinese peasant and communism." Pacific Affairs 24, n.º 3 (1951): 256–265. O artigo foi escrito como resposta às críticas, tanto internas quanto externas ao Partido, que então eram dirigidas ao campesinato chinês.Guo Xuyin. "Reconsideration of Chen Duxiu's Attitude toward the Peasant Movement." Chinese Law & Government 17, n.º 1–2 (1984): 51–67. Mao passou trinta e dois dias na província de Hunan realizando uma investigação e escreveu o relatório para responder às críticas da liderança do PCCh ao campesinato. Ao longo do relatório, defendeu uma estratégia então considerada herética de mobilizar os camponeses pobres para realizar a "luta" (douzheng). A partir daquele momento, Mao rejeitou a ideia de uma reforma agrária pacífica, argumentando que os camponeses não poderiam alcançar a verdadeira libertação a menos que participassem da derrubada violenta dos proprietários de terras. Na visão de Mao, a importância das organizações camponesas estava no fato de terem se organizado espontaneamente apesar de séculos de opressão, durante os quais lhes fora dito que sua posição social era determinada pelo Céu. Ele descreveu os camponeses como detentores da missão histórica de derrubar os proprietários de terras e trabalhar com o proletariado urbano para libertar conjuntamente a China de seus opressores.

O Relatório é dividido em oito capítulos:

A importância do problema camponês Organizem-se Abaixo os tiranos locais e a nobreza maligna! Todo o poder às associações camponesas! "É terrível!" ou "Está ótimo!" A questão de "ir longe demais" O movimento da "ralé" Vanguardas da revolução

O Relatório conclui descrevendo as "Quatorze Grandes Realizações":

Organizar os camponeses em associações camponesas Golpear politicamente os proprietários de terras Golpear economicamente os proprietários de terras Derrubar o domínio feudal dos tiranos locais e da nobreza maligna — destruir os tu e os tuan Derrubar as forças armadas dos proprietários de terras e estabelecer as dos camponeses Derrubar o poder político do magistrado do condado e de seus oficiais Derrubar a autoridade do clã exercida pelos templos ancestrais e pelos anciãos do clã, a autoridade religiosa dos deuses das cidades e aldeias e a autoridade masculina dos maridos Difundir propaganda política Proibições e restrições camponesas Eliminar o banditismo Abolir tributos exorbitantes O movimento pela educação O movimento cooperativo Construir estradas e reparar diques

Argumento A primeira seção, "A importância do problema camponês", relatava que Mao havia passado trinta e dois dias reunindo informações e constatado que "muitos dos comos e porquês do movimento camponês eram exatamente o oposto do que a nobreza em Hankou e Changsha dizia". Ele via um levante camponês violento e espontâneo:

Em muito pouco tempo, nas províncias centrais, meridionais e setentrionais da China, várias centenas de milhões de camponeses se erguerão como uma poderosa tempestade, como um furacão, uma força tão rápida e violenta que nenhum poder, por maior que seja, será capaz de contê-la. Eles romperão todos os grilhões que os prendem e avançarão pelo caminho da libertação. Varrerão para seus túmulos todos os imperialistas, senhores da guerra, funcionários corruptos, tiranos locais e membros da nobreza maligna. Todo partido revolucionário e todo camarada revolucionário serão postos à prova, para serem aceitos ou rejeitados conforme eles decidirem. Há três alternativas. Marchar à frente deles e liderá-los. Segui-los por trás, gesticulando e criticando. Ou colocar-se em seu caminho e opor-se a eles. Todo chinês é livre para escolher, mas os acontecimentos o obrigarão a fazer a escolha rapidamente.(Seção: "The Importance Of The Peasant Problem")

Os principais alvos dos ataques dos camponeses eram os "tiranos locais, a nobreza maligna e os proprietários de terras sem lei, mas, de passagem, eles também atacavam ideias e instituições patriarcais, os funcionários corruptos nas cidades e práticas e costumes nocivos nas áreas rurais". Os camponeses mais pobres eram o "grupo mais revolucionário" e seriam os mais confiáveis na derrubada da "classe patriarcal-feudal".

O relatório de Mao dirigiu-se diretamente aos membros do partido que se opunham ao uso da violência pelos camponeses em sua libertação:

Nesse contexto, Mao também cunhou sua famosa frase de que "a revolução não é um jantar":

Uma revolução não é um jantar, nem um ensaio, nem uma pintura, nem um bordado; ela não pode ser tão refinada, tão tranquila e gentil, tão moderada, bondosa, cortês, contida e magnânima. Uma revolução é uma insurreição, um ato de violência pelo qual uma classe derruba outra.... Sem empregar a maior força, os camponeses não podem de modo algum derrubar a autoridade profundamente enraizada dos proprietários de terras, que perdura há milhares de anos.(Seção) "The Question Of 'Going Too Far

Os camponeses pobres, continuou Mao, "sempre foram a principal força na dura luta no campo. Lutaram militantemente durante os dois períodos de trabalho clandestino e de atividade aberta. São os mais receptivos à liderança do Partido Comunista. São inimigos mortais do campo dos tiranos locais e da nobreza maligna e o atacam sem a menor hesitação."(Seção) "Vanguards Of The Revolution"

No relatório, Mao descreveu como os camponeses experimentavam uma tripla subordinação: (1) ao domínio da autoridade do clã (isto é, organizações de linhagem), (2) aos proprietários de terras e (3) aos "espíritos". Mao também observou que as mulheres camponesas experimentavam uma quarta forma de subordinação: a subordinação à autoridade marital de seus maridos.

Significado e análise A estratégia camponesa não levou imediatamente ao sucesso, pois nem as associações camponesas locais nem o Partido conseguiam enfrentar as armas e a organização dos detentores locais do poder ou dos exércitos de Chiang Kai-shek. Após o Massacre de Xangai e o subsequente Terror Branco conduzido pelos nacionalistas, os comunistas foram quase aniquilados e expulsos de sua base urbana. Mao resumiu a lição que aprendera em outro famoso lema, "o poder cresce do cano de uma arma". Ele e Zhu De então organizaram o Exército Vermelho Chinês e estabeleceram uma base rural independente. Em 1930, respondeu aos críticos: "Uma única faísca pode incendiar toda a pradaria."A Single Spark Can Start a Prairie Fire janeiro de 1930, Selected Works of Mao Zedong, volume I (Pequim: Foreign Languages Press, 1964).

Mas o Relatório de Hunan marcou um ponto de virada decisivo na estratégia revolucionária que acabou levando o Partido ao poder em 1949. Roy Hofheinz Jr. escreve que a contribuição de Mao na época não foi uma política específica, pois ele evitava as questões da confiscação ou da propriedade da terra, mas sim a crítica aos dirigentes por não adotarem uma atitude "revolucionária". Sua inovação foi insistir que apenas os mais pobres, os camponeses pobres, eram capazes de virar as coisas de cabeça para baixo. A classe dominante precisava ser destruída, pois uma "revolução é um ato de violência pelo qual uma classe derruba outra". Somente os camponeses sem terra e a "ralé" podiam ser considerados confiáveis, porque os camponeses médios tenderiam a favorecer a classe dominante, consciente ou inconscientemente. Mao atacou dirigentes nacionalistas e comunistas que desprezavam esses camponeses e deploravam a violência, pois, para ele, a violência deveria ser celebrada.