Alfudail ibne Iade (; 107 A.H. / – Meca, ), nome completo Abu Ali Alfudail ibne Iade ibne Maçude Atamimi Aliarbui Atalacani (), foi um tradicionalista, asceta e um dos primeiros representantes do sufismo. As tradições divergem sobre seu local de nascimento, embora frequentemente o situem em Samarcanda, e relatam que na juventude chefiou um grupo de salteadores antes de abandonar essa vida e dedicar-se à religião. Estudou hádice em Cufa, onde esteve ligado a estudiosos como Sufiane Atauri, e posteriormente estabeleceu-se em Meca.
Alfudail tornou-se especialmente conhecido por seu rigoroso ascetismo, no qual ocupavam posição central o temor de Deus, a renúncia ao mundo, a tristeza e a preocupação com a vida futura. Defendia a independência dos ascetas e eruditos em relação aos governantes, posição ilustrada pelas tradições sobre seus encontros com o califa Harune Arraxide, e seus ensinamentos exerceram influência sobre gerações posteriores de sufis. Paralelamente, foi considerado um transmissor de hádice confiável e teve entre aqueles que transmitiram sob sua autoridade estudiosos como Sufiane ibne Uiaina, Iáia ibne Saíde Alcatane, Abederramão ibne Mádi e Axafii.
Vida
Alfudail ibne Iade nasceu em 107 A.H. (725) e pertencia aos , ramo da tribo dos tamimitas. As tradições divergem acerca de seu local de nascimento e das origens de sua família. Segundo seu filho , sua família paterna era originária de Cufa, Alfudail nasceu em Samarcanda e cresceu em ; seu servo , por sua vez, afirmava que era natural de , uma aldeia de Merve, enquanto outra tradição fazia sua família originária de Bucara. Apesar das divergências, as notícias acerca de sua família indicam que era de origem árabe. A Encyclopaedia of Islam também o apresenta como membro dos tamimitas, nascido em Samarcanda e criado em Abiuarde. De acordo com , Alfudail chefiava na juventude um grupo de salteadores que atuava entre Merve e Abiuarde ou, segundo outra tradição, entre e Abiuarde, embora fosse descrito como um homem generoso que não se interessava por ganhos insignificantes. A tradição sobre sua conversão relata que, enquanto escalava o muro da casa de uma escrava por quem estava apaixonado, ouviu a recitação do versículo 16 da sura Alhadide, que pergunta aos crentes se ainda não havia chegado o momento de seus corações se submeterem à lembrança de Deus.
Profundamente impressionado, teria respondido que esse momento havia chegado, abandonado sua vida anterior e se dedicado à adoração. Deixou então sua região de origem e dirigiu-se a Cufa, onde frequentou as sessões de estudiosos como Abu Hanifa, Sufiane Atauri e Alamaxe, dedicando cerca de trinta anos ao estudo e à prática religiosa. A Encyclopaedia of Islam confirma de forma mais sucinta sua antiga atividade como salteador e afirma que, depois da conversão, se dedicou em Cufa ao estudo do hádice, sendo discípulo de Sufiane Atauri. Posteriormente, Alfudail estabeleceu-se em Meca. As fontes preservam relatos de seus contatos com o califa Harune Arraxide, que o teria convocado para aconselhá-lo e, segundo a Encyclopaedia of Islam, chamado Alfudail de "chefe dos muçulmanos". Alfudail, contudo, procurava manter distância dos governantes e teria inicialmente recusado encontrar-se com o califa; diante da insistência deste, aceitou recebê-lo, dirigiu-lhe advertências sem hesitação e recusou os presentes que lhe foram oferecidos. Morreu em Meca em Moarrão de 187 A.H. (janeiro de 803). Ibne Aljauzi afirma que Alfudail já era bastante idoso quando chegou a Cufa, enquanto sustenta que ainda era jovem, divergência que, juntamente com as diferentes tradições sobre sua origem, torna incertos vários aspectos de sua biografia.
Ascetismo e pensamento
Alfudail foi considerado um dos primeiros grandes sufis do Coração e tornou-se especialmente conhecido por seu ascetismo e sua piedade. O temor de Deus, a tristeza e o choro ocupavam posição central em sua experiência religiosa, à semelhança de outros ascetas e sufis dos primeiros tempos. As fontes incluem-no entre os principais , ascetas conhecidos pelo choro frequente, e afirmam que sequer era visto sorrindo. Seu temor da morte e da vida futura era particularmente intenso, levando-o a recomendar àqueles que o cercavam que mantivessem presentes a morte, as condições da sepultura e o castigo no além. Recitava o Alcorão lentamente e com tristeza e, segundo os relatos, por vezes perdia os sentidos ao ouvi-lo ser recitado. Alfudail identificava o ascetismo com o contentamento e o contentamento com a riqueza. Em seus ensinamentos, afirmava que comer, dormir e falar excessivamente endureciam o coração e sustentava que a proximidade de Deus não era alcançada simplesmente pela multiplicação das orações e jejuns, mas pela riqueza interior, pela pureza da consciência e pela sinceridade no trato com as pessoas. A graça e a benevolência divinas ocupavam lugar importante em seu pensamento e, embora enfatizasse particularmente o temor de Deus, também se referia ao amor divino. Distinguia ainda entre o "sábio do mundo" e o "sábio da vida futura", considerando o conhecimento do primeiro manifesto e o do segundo oculto, e colocava os verdadeiros sábios acima dos simples eruditos, descrevendo-os como herdeiros dos profetas.
A Encyclopaedia of Islam igualmente o caracteriza como um destacado asceta e defensor de uma vida inteiramente voltada para Deus. Entre os ensinamentos que lhe atribui, o temor que o servo sente por Deus seria proporcional ao seu conhecimento de Deus, enquanto sua renúncia ao mundo seria proporcional ao desejo pela vida futura. Alfudail definia ainda a satisfação (riḍā) com Deus como a condição daquele que não deseja ocupar situação diferente daquela em que Deus o colocou. Quando lhe perguntaram sobre a condição daqueles que amavam a Deus, teria respondido que eram perdoados por Deus e que, em sua presença, encontravam alegria e felicidade. Sua reputação de asceta tornou-se tamanha que, segundo uma tradição citada pela Encyclopaedia of Islam, quando deixou o mundo "a tristeza desapareceu". Alfudail também se destacou por suas opiniões acerca dos recitadores do Alcorão. Considerava que estes não deveriam depender de ninguém, sobretudo dos governantes, mas que, ao contrário, as demais pessoas deveriam necessitar deles. Recomendava afastar-se daqueles que não preservassem essa independência, pois acreditava que acabariam lisonjeando seus aliados e caluniando seus adversários. Estendia essa exigência de independência aos ascetas e eruditos em geral e sustentava que uma pessoa que não mantivesse relações com os governantes era preferível a outra que passasse as noites em oração, os dias em jejum e praticasse o haje, a unra e a jiade, mas fosse amiga dos poderosos.
Sua recusa da proximidade pessoal com os governantes não implicava, contudo, indiferença ao exercício do poder. Alfudail orava para que os governantes fossem justos e afirmava que, caso dispusesse de uma única oração cuja aceitação por Deus estivesse assegurada, empregá-la-ia em favor da retidão do governante, pois acreditava que um soberano íntegro produziria prosperidade nas terras e segurança entre seus habitantes. Pesquisadores modernos como Mustafa Kāmil al-Shaybī e ʿAlī Sāmī al-Nashshār identificaram em alguns de seus ensinamentos elementos que posteriormente seriam associados à e à , considerando-o um dos primeiros representantes dessas concepções.
Atividade como tradicionalista
Além de sua reputação como asceta, Alfudail foi considerado um transmissor de hádice confiável. Transmitiu tradições de estudiosos como Mançor ibne Almutamir, Alamaxe e Bixer ibne Mançor, enquanto Sufiane ibne Uiaina, Iáia ibne Saíde Alcatane, Abederramão ibne Mádi e Axafii estiveram entre os estudiosos que transmitiram hádices sob sua autoridade. A Encyclopaedia of Islam também o caracteriza como transmissor de tradições e destaca sua condição de discípulo de Sufiane Atauri. As fontes registram ainda que sua longa permanência em Cufa, importante centro de tendências favoráveis aos álidas, teria produzido nele certa inclinação xiita, embora esta seja descrita como limitada. Os ensinamentos e o modo de vida de Alfudail exerceram influência considerável sobre sufis posteriores, e Ibne Aljauzi chegou a escrever uma obra de caráter hagiográfico dedicada a ele. Seu filho , que morreu ainda durante a vida do pai e foi educado por ele, foi igualmente conhecido pelo ascetismo; alguns historiadores chegaram a considerá-lo superior ao pai na devoção e no temor de Deus e incluíram ambos entre os abedais. Seu servo e companheiro Ibraim ibne Alaxate, assim como e , são mencionados entre aqueles que receberam seus ensinamentos e orientação espiritual.
Bibliografia
Categoria:Sufis Categoria:Iarbuítas Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX