Os salulitas ou Banu Salul () foram uma tribo árabe pertencente aos cuzaaítas, descendente de Salul ibne Cabe ibne Anre ibne Rebia ibne Harita. Integravam os cabitas (Banu Cabe ibne Anre) e dividiam-se em diversos ramos, entre os quais os cumairitas, hubexiaítas, dajeritas e culaibitas. Estabelecidos nas proximidades de Meca, ocupavam, juntamente com outros grupos cuzaaítas, uma região que abrangia localidades como Usfã, Marre Azarã, Cudaide e Araque. Não devem ser confundidos com os salulitas hauazinitas, tribo homônima de origem distinta.
Na tradição relativa à história de Meca anterior ao Islã, os salulitas aparecem associados à administração da Caaba durante o período de domínio cuzaaíta sobre a cidade. Diferentes relatos atribuem a Salul, a seu filho Hubaxia ou a seus descendentes a custódia do santuário antes da transferência do controle de Meca para os coraixitas sob Cuçai ibne Quilabe. A tribo também adquiriu particular reputação pela prática da quiafa, técnica empregada no reconhecimento de indivíduos e parentesco e no rastreamento de pegadas. Entre seus praticantes mais conhecidos esteve Curze ibne Alcama, que participou da perseguição a Maomé durante a Hégira, converteu-se posteriormente ao Islã e continuou exercendo essa atividade.
A adesão dos salulitas ao Islã ocorreu gradualmente. Alguns de seus membros estiveram entre os primeiros muçulmanos e participaram de acontecimentos como a primeira migração para a Abissínia e a Batalha de Badre, enquanto outros permaneceram inicialmente ligados aos habitantes pagãos de Meca. No período entre o Tratado de Hudaibia e a Conquista de Meca, diversos chefes e membros da tribo aderiram a Maomé e participaram de suas campanhas. Após as primeiras conquistas islâmicas, salulitas estabeleceram-se sobretudo no Araque e ocuparam funções militares, judiciais e administrativas durante os períodos omíada e abássida. Entre os membros posteriormente destacados do grupo estiveram o tabi Cabiça ibne Duaibe, Inrane ibne Huceine e Maleque ibne Alhaitame, um dos naquibes da propaganda abássida.
Origens
Os salulitas constituíam um dos ramos dos cuzaaítas, distinguindo-se de outra tribo homônima pertencente aos hauazinitas. A ocorrência de indivíduos atribuídos nas fontes a ambos os grupos ocasionou certa confusão entre as duas tribos. Os salulitas cuzaaítas descendiam de Salul ibne Cabe ibne Anre ibne Luai e integravam os cabitas, que constituíam um dos principais agrupamentos dos cuzaaítas. Segundo Ibne Hasme, Salul teve três filhos dos quais se formaram ramos próprios: Hubexia, Hurmuz e Adi. Hubexia, por sua vez, foi pai de Cumair, Hulail, Dajer e Culaibe, epônimos dos cumairitas, hulailitas, dajeritas e culaibitas. De Adi descendiam Hubetar e Haina, que igualmente deram origem a subdivisões salulitas. As fontes genealógicas registram ainda outras subdivisões atribuídas aos salulitas; entre os grupos enumerados por Lecker encontra-se o dos hismiritas, descendentes de Alhizmiri ibne Salul. Os salulitas habitavam principalmente as proximidades de Meca, compartilhando com outros cabitas uma área que compreendia localidades como Usfã, Marre Azarã, Cudaide e Araque. Sua proximidade com Meca conferiu-lhes participação relevante na história dos cuzaaítas na cidade e, posteriormente, nas relações entre os habitantes da região e Maomé.
Custódia da Caaba
Os salulitas aparecem em diferentes tradições relativas à administração da Caaba durante o período de domínio cuzaaíta sobre Meca. Segundo uma delas, o próprio Salul teria exercido a custódia do santuário, função igualmente atribuída a seu filho Hubaxia e a descendentes deste. Outras versões apresentam como o último custodiante cuzaaíta da Caaba, enquanto algumas tradições conferem essa posição a seu filho, . As fontes preservam relatos divergentes sobre a posterior transferência da autoridade sobre a Caaba e outros privilégios de Meca dos cuzaaítas para os coraixitas, processo associado à ascensão de Cuçai ibne Quilabe. Uma das versões afirma que Abu Gubexane vendeu seus direitos a Cuçai, ato que teria se tornado proverbial e provocado a reprovação dos próprios cuzaaítas. Outra tradição atribui a transferência da autoridade ao casamento de Cuçai com Huba, filha de Hulail, que teria sido o último custodiante da Caaba. Após sua morte, Cuçai reivindicou os direitos de seu sogro, dando origem a uma disputa com os cuzaaítas. A existência dessas versões conflitantes impede estabelecer com segurança o papel efetivamente desempenhado pelos salulitas na transferência do controle de Meca aos coraixitas, embora demonstre sua associação tradicional à custódia do santuário no período anterior à ascensão de Cuçai.
Quiafa
Uma característica pela qual os salulitas se tornaram particularmente conhecidos era a prática da , técnica baseada no exame de pegadas e de características físicas para identificar indivíduos ou estabelecer relações de parentesco. A reputação do grupo nessa atividade remontava ao período pré-islâmico e continuou nos primeiros tempos do Islã. Um de seus praticantes mais conhecidos foi , que, durante a Hégira, esteve entre os homens encarregados de seguir os rastros de Maomé e Abu Becre. Segundo uma tradição, ao examinar as pegadas do profeta, Curze teria observado que se assemelhavam às atribuídas a Abraão no . Curze converteu-se posteriormente ao Islã e continuou associado à quiafa. No reinado de , ele e seu filho participaram da demarcação dos limites do santuário de Meca e da renovação dos marcos que os assinalavam. A atividade permaneceu ligada à família, e descendentes de Curze ainda eram conhecidos em Meca como especialistas no rastreamento de pegadas durante esse período.
Relações com Maomé
A proximidade dos salulitas com Meca fez com que membros da tribo assumissem posições distintas durante o conflito entre Maomé e os coraixitas. Um dos primeiros a aderir ao Islã foi , que participou da primeira migração muçulmana para a Abissínia e combateu na Batalha de Badre. Lecker observa, contudo, que sua presença em Badre não demonstra necessariamente o envolvimento coletivo dos salulitas no conflito, pois Muatibe pertencia aos culaibitas e era aliado dos maquezumitas. Outros membros da tribo permaneceram inicialmente ao lado dos habitantes pagãos de Meca. Curze ibne Alcama participou da perseguição a Maomé durante a Hégira e somente se converteu por ocasião da Conquista de Meca. A aproximação de outros chefes salulitas com Maomé ocorreu antes disso. , chefe dos cumairitas, e Busre ibne Sufiane, dos hubexiaítas, aceitaram o Islã em resposta às mensagens que Maomé lhes enviou antes do Tratado de Hudaibia, em 628. Quiraxe ibne Omaia, dos culaibitas e igualmente aliado dos maquezumitas, já aparece entre os muçulmanos antes de Hudaibia. Durante a Expedição de Almuraici, participou do contingente muçulmano e protegeu , dos mustaliquitas, quando este procurou refúgio junto dele após a derrota de sua tribo. Quiraxe lançou-se sobre Amir para impedir que membros dos ançares o matassem. O episódio é apresentado por Lecker como evidência das relações de solidariedade existentes entre diferentes ramos dos cuzaaítas.
Na época do Tratado de Hudaibia, vários salulitas já se encontravam ao lado de Maomé. Quiraxe ibne Omaia foi enviado a Meca como emissário do profeta e quase foi morto durante a missão; posteriormente participou da Batalha de Caibar e da Conquista de Meca. Busre ibne Sufiane também desempenhou papel importante nos acontecimentos que antecederam Hudaibia. Antes da conquista de Meca, em 630, Maomé enviou Busre, pertencente aos cumairitas, e , dos , aos cabitas para convocá-los a uma expedição. Alguns salulitas, contudo, ainda permaneceram do lado mequense e teriam atuado como informantes dos coraixitas durante esse período. A adesão da tribo ao Islã, portanto, ocorreu gradualmente e não como resultado de uma única conversão coletiva. Enquanto alguns salulitas já acompanhavam Maomé desde os primeiros anos de sua pregação, outros se converteram no período entre Hudaibia e a Conquista de Meca, e alguns permaneceram ligados aos coraixitas até os últimos anos do conflito. Lecker registra ainda que nem todos os salulitas participaram da conquista de Meca, embora a tribo já estivesse amplamente integrada à comunidade muçulmana nesse momento.
História posterior
Após o estabelecimento do domínio islâmico, membros dos salulitas participaram das conquistas e passaram a ocupar cargos administrativos e militares fora do Hejaz. Alguns estabeleceram-se em Medina, enquanto outros migraram sobretudo para o Iraque. Entre os primeiros membros da tribo associados às conquistas estava , cujo filho nasceu em Medina e se tornou uma figura de destaque da geração dos tabis. Outro salulita de destaque foi , que participou de campanhas ao lado de Maomé e posteriormente se estabeleceu em Baçorá, onde exerceu a função de cádi durante o califado de Otomão . No período omíada, membros da tribo aparecem em diferentes posições administrativas. Cabissa ibne Duaibe esteve ligado à corte de Abedal Maleque ibne Maruane, enquanto outros salulitas exerceram funções no governo do Iraque e em diferentes centros do califado.
Os salulitas também permaneceram presentes durante a transição para o Califado Abássida. , pertencente aos cumairitas, figurou entre os doze naquibes da propaganda abássida e exerceu posteriormente funções de destaque no início do governo da dinastia. A presença de membros da tribo no Iraque tornou-se suficientemente expressiva para que as fontes mencionassem grupos salulitas estabelecidos em diferentes localidades da região. Entre os salulitas também figuraram poetas e homens de letras. compôs uma elegia em homenagem a Huceine ibne Ali, enquanto o célebre poeta Cutair pertencia aos salulitas cuzaaítas. A mulher por ele celebrada, , pertencia, em contraste, ao ramo dos salulitas ligado aos hauazinitas, circunstância que ilustra a necessidade de distinguir os dois grupos homônimos nas fontes genealógicas.
Bibliografia
Categoria:Salulitas (cuzaaítas)