thumb|Ilustração de O Outro Mundo ou Os Estados e Impérios da Lua (Histoire comique contenant les États et Empires de la Lune, 1657), de Savinien Cyrano de Bergerac, em que o autor descreve a sua viagem imaginária à Lua.
A viagem imaginária (por vezes também designada viagem fantástica)Para a distinção entre os dois termos, ver a secção Viagem imaginária e viagem romanceada. é um género narrativo centrado na descrição de uma viagem fictícia a lugares imaginários ou, de algum modo, nunca vistos, recorrendo a elementos fantásticos ou inverosímeis. Neste género, a estrutura da narrativa de viagem pode ser utilizada para representar uma utopia ou uma alegoria religiosa, para fins satíricos ou de divulgação científica, como metáfora de um percurso espiritual ou de uma viagem iniciática, ou simplesmente como forma de entretenimento, procurando provocar surpresa e deslumbramento através da narrativa de aventuras.
A viagem fantástica é uma das formas literárias mais antigas e continua a constituir uma das estruturas fundamentais para a criação de fantasias literárias, desde a epopeia da Odisseia, de Homero, passando pelas narrativas de fundo geográfico, pelos relatos de viagens apócrifos com elementos exóticos e maravilhosos, pelas robinsonadas e por narrativas de caráter fabuloso, como as histórias de Simbad, o Marinheiro, até à descrição de mundos utópicos, aos romances científicos de Júlio Verne e às viagens pelos universos da ficção científica.
Delimitação do género
Viagem imaginária e viagem romanceada thumb|«Yes, there he sat, on the back of the winged horse!», ilustração de Mary Hamilton Frye, 1914.Mabie, Hamilton Wright (org.), Myths Every Child Should Know, 1914.
Embora qualquer relato de uma viagem que não tenha efetivamente ocorrido possa, em sentido literal, ser considerado uma "viagem imaginária" , neste género literário incluem-se sobretudo obras que se apresentam de forma explícita ou evidente como fictícias ou inventadas. Para as obras que reelaboram elementos históricos, introduzindo episódios fictícios ou maravilhosos num contexto realista, utiliza-se antes a expressão viagem romanceada, isto é, uma narrativa que, embora não seja verdadeira, se apresenta como verosímil.
Assim, as peregrinações pela Lombardia de Renzo e Lucia, protagonistas de Os Noivos, são viagens romanceadas, pois poderiam efetivamente ter ocorrido no contexto histórico descrito por Alessandro Manzoni. Pelo contrário, a viagem da nave espacial ao planeta Júpiter no filme 2001: Odisseia no Espaço, apesar de representada com um certo grau de rigor científico, é inteiramente imaginária. Também é imaginária a viagem dos protagonistas de A Volta ao Mundo em 80 Dias, pois o leitor sabe que aquela viagem específica à volta do mundo nunca ocorreu, embora sejam descritos meios de transporte realistas para a realizar e várias pessoas tenham posteriormente tentado reproduzi-la no mundo real, naturalmente sem viver todas as extraordinárias aventuras das personagens de Verne.
Embora sejam por vezes utilizados indistintamente para designar o tema da viagem inventada, os termos «imaginário» e «fantástico» não são necessariamente sinónimos. Retomando parcialmente a conhecida distinção de Tzvetan Todorov entre o fantástico e o maravilhoso,Tzvetan Todorov, Introdução à Literatura Fantástica (Introduction à la littérature fantastique, 1970). estamos perante o maravilhoso quando o leitor aceita os acontecimentos extraordinários enquanto tais; perante o fantástico quando, face a esses acontecimentos, hesita quanto à possibilidade de serem ou não reais; e perante o imaginário quando os reconhece como impossíveis.
Uma das características da viagem imaginária consiste, portanto, em distinguir-se deliberadamente dos relatos de viagens reais, numa espécie de inversão da convenção narrativa, lançando ao leitor sinais mais ou menos subtis. Nas Aventuras do Barão de Münchhausen, por exemplo, o próprio Barão assegura, no prefácio, a veracidade das suas histórias, mas invoca como testemunhas três personagens excecionais: Simbad, Gulliver e Aladino. As suas aventuras são, assim, tão «reais» quanto as das três célebres personagens da literatura fantástica.
Existe ainda uma categoria próxima tanto do verdadeiro relato de viagem como da viagem imaginária: a viagem inventada ou apócrifa, falsamente atribuída a outra pessoa. Este tipo de narrativa difundiu-se sobretudo nos séculos XVII e XVIII, impulsionado pelas grandes explorações geográficas, mas antes da consolidação de uma verdadeira cultura científica da exploração. As Viagens de Mandeville, um suposto relato de viagem do século XIV, foi considerado autêntico durante pelo menos dois séculos. Um hábil mistificador como Daniel Defoe era capaz de conferir grande verosimilhança às suas narrativas: A New Voyage Round the World,Daniel Defoe, A New Voyage Round the World, by a Course never Sailed before. Being a Voyage undertaken by some Merchants, who afterwards proposed the Setting up an East-India Company in Flanders. Londres: A. Bettesworth e W. Mears, 1725 [i.e., 1724]. por exemplo, é incluído entre as viagens apócrifas.
Viagem imaginária e utopia
A viagem imaginária, pelo menos até ao século XVIII, confunde-se frequentemente com os géneros próximos da utopia e da robinsonada (robinsonade, a narrativa do náufrago segundo o modelo de Robinson Crusoe), embora os três possam ser considerados géneros distintos, tanto pela intenção como pela forma. Apesar de conter frequentemente uma utopia, quando descreve uma sociedade imaginária, a viagem imaginária dá particular importância ao tema da deslocação, do exotismo e da distância, enquanto na utopia a viagem e a aventura não constituem propriamente o objetivo da narrativa, funcionando sobretudo como instrumentos para suscitar a reflexão.
A palavra «utopia» significa literalmente «lugar nenhum», sendo característica deste género a descrição pormenorizada de um Estado imaginário situado para além dos limites das terras conhecidas. A ausência de liberdade de expressão característica dos regimes absolutistas levou, além disso, numerosos autores, ao longo da história, a disfarçar em narrativas fantásticas as suas opiniões críticas acerca da política, da sociedade e da religião do seu tempo. A robinsonada, por seu lado, apresenta a aventura de um indivíduo isolado — ou de um pequeno grupo — e não a descrição de uma sociedade; a viagem e o respetivo naufrágio desempenham sobretudo a função de antecedente narrativo.
Viagem iniciática
Existe ainda o género da viagem iniciática, que utiliza lugares fantásticos ou imaginários como metáforas das provas e dos obstáculos que o protagonista é obrigado a enfrentar e no termo dos quais surge interiormente transformado, alcançando uma nova dimensão existencial.
Trata-se de um género que pode igualmente transmitir conteúdos educativos e formativos, à semelhança do romance de formação.
História
Antiguidade thumb|left|Medeia e Jasão a bordo da nau dos Argonautas, em referência a As Argonáuticas, de Apolónio de Rodes. Herbert James Draper, The Golden Fleece (1904).
A viagem fantástica é uma técnica narrativa muito antiga, anterior ao desenvolvimento do romance enquanto género literário. Entre os primeiros exemplos podem citar-se obras da poesia épica, como a Odisseia, de Homero, e a Epopeia de Gilgamés, cujas origens remontam ao III milénio a.C.
Dois exemplos conhecidos da literatura grega são a História Sagrada, de Evêmero, que narra uma viagem imaginária a uma ilha desconhecida do oceano Índico, e a obra atribuída a Iâmbulo, um viajante sírio provavelmente do século I a.C.,O historiador Diodoro Sículo, no livro II da sua Biblioteca Histórica, preservou um resumo da narrativa de viagens de Iâmbulo, cujo título original é desconhecido. na qual é descrita uma viagem a ilhas utópicas. Estas parecem ter sido inspiradas nas míticas Ilhas Afortunadas, situadas no oceano Atlântico e presentes na literatura clássica tanto em contextos mitológicos como em obras históricas e geográficas.
thumb|O Voo de Alexandre, representado num relevo bizantino dos séculos X–XIII proveniente de Constantinopla, na fachada norte da Basílica de São Marcos, em Veneza.
História Verdadeira, de Luciano de Samósata (século II), descreve uma viagem imaginária para além das Colunas de Hércules, que acaba por conduzir os viajantes até à Lua, parodiando as narrativas de viagens fantásticas então conhecidas. No prefácio, Luciano menciona, entre os seus predecessores, Ctésias e Iâmbulo, autores de relatos sobre terras distantes e acontecimentos extraordinários. Fócio de Constantinopla, na sua Biblioteca, considerou As incríveis maravilhas para além de Tule, de António Diógenes, uma das principais fontes da obra de Luciano. A obra de António Diógenes, hoje perdida e conhecida sobretudo através do resumo de Fócio, combinava a narrativa de viagens e aventuras com elementos maravilhosos e incluía abundante material de inspiração pitagórica.
Luciano escreveu ainda Icaromenipo, diálogo no qual o filósofo cínico Menipo de Gadara empreende uma viagem pelos ares: depois de alcançar a Lua, prossegue até ao céu, onde chega à morada dos deuses.
A tradição da Odisseia prolongou-se em duas obras fundamentais da épica helenística e romana: as Argonáuticas, de Apolónio de Rodes, que narram as aventuras de Jasão e dos Argonautas na busca do velo de ouro, e a Eneida, de Virgílio, que relata a viagem lendária de Eneias, herói que foge após a queda de Troia e percorre o Mediterrâneo até chegar ao Lácio, onde se torna antepassado mítico do povo romano.
O episódio do Voo de Alexandre, que não fazia parte das versões mais antigas do Romance de Alexandre e foi acrescentado posteriormente, constitui outro exemplo de viagem fantástica. A obra, formada a partir de narrativas cuja tradição remonta ao século III, apresenta, em versões gregas tardias e na iconografia medieval, uma ascensão aos céus realizada por Alexandre, o Grande. O conquistador é representado num engenho voador — um trono, cesto ou outra estrutura, na tradição ocidental, e frequentemente um carro na tradição bizantina — geralmente puxado por dois grifos.Chiara Frugoni, La fortuna di Alessandro nel Medioevo, 1995, p. 168.
Idade Média thumb|left|upright=0.8|A navegação de São Brandão num manuscrito alemão de cerca de 1460.
thumb|upright=0.8|Simbad, o Marinheiro numa ilustração de René Bull (1870–1942) para As Mil e Uma Noites.
thumb|Os três reinos do além percorridos pelo narrador da Divina Comédia, no fresco Dante e o seu poema, de Domenico di Michelino (1465), na Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença.
O poeta árabe Al-Ma'arri, na Epístola do Perdão (Risālat al-ghufrān), composta no início do século XI, imagina o seu correspondente Ibn al-Qarih numa viagem pelo além, durante a qual visita o Paraíso e o Inferno e encontra poetas e outras figuras do passado. Na tradição islâmica, outras narrativas de viagens ao além desenvolveram-se a partir do isrāʾ e do miʿrāj, a viagem noturna e a ascensão celeste de Maomé. O isrāʾ corresponde à viagem noturna do profeta de Meca até à «mesquita mais distante», posteriormente identificada com Jerusalém, enquanto o miʿrāj designa a sua ascensão através dos céus, onde encontra profetas que o precederam, até se aproximar da presença divina.
Simbad, o Marinheiro é o protagonista de um conjunto de narrativas lendárias de origem persa cujas aventuras decorrem na época do Califado Abássida (750–1258). As histórias relatam viagens fantásticas através da África Oriental e da Ásia Meridional, passando por lugares mágicos, monstros e fenómenos sobrenaturais. As narrativas baseiam-se parcialmente nas experiências dos navegadores do oceano Índico, mas incorporam também elementos da literatura antiga, incluindo a Odisseia, e de coleções de histórias maravilhosas de origem indiana e persa.