O tráfico de escravos de Nantes consistiu na compra de mais de 500.000 escravos negros africanos na África e o seu transporte para as Américas, utilizando navios com origem no porto de Nantes, na França, que tornar-se-ia o principal porto francês de comércio de escravos do final do século XVII ao início do século XIX, com cerca de 1.744 viagens de navios negreiros. Os escravizados eram eram geralmente vendidos a proprietários franceses, principalmente nas Antilhas.
O comércio de escravos foi explicitamente incentivado pela família real e descrito pela igreja como um "trabalho comum". A cidade foi o último centro do comércio de escravos na França, até sua abolição em 1831.
Contexto O comércio transatlântico de escravos entre a Europa e a América transportou de 12 a 13 milhões de africanos para o Novo Mundo; a maioria deles do final do século XVII em diante. Em 1997, o historiador Hugh Thomas afirmou que 13.000.000 de escravos deixaram a África como resultado do comércio de escravos, dos quais 11.328.000 chegaram ao seu destino, ao longo de 54.200 viagens. A maior parte deste comércio era realizada por navios originários das Américas, embora todos os grandes portos europeus também estivessem envolvidos, em diferentes níveis. Os portos ingleses estiveram na vanguarda, com 4.894 expedições partindo de Liverpool e 2.704 de Londres.
A França metropolitana lançou cerca de 4.200 navios negreiros e encontra-se em terceiro lugar entre as nações traficantes de escravos, depois da Grã-Bretanha e de Portugal. A cidade de Nantes, sozinha, organizou 1.744 expedições (ou 41,3% do total) para a França. As outras cidades francesas mais relevantes são, em ordem: Bordéus, La Rochelle e Le Havre, http://hgc.ac-creteil.fr/spip/La-traite-des-Noirs-en-30 Académie de Créteil : La traite des Noirs en 30 questions par Éric Saugera que juntas representam 33,5% das viagens de navios negreiros franceses.
A importância de Nantes no comércio de escravos está na proximidade desta cidade com Lorient, sede da Companhia Francesa das Índias Orientais, que a abastecia com têxteis "Indienne" e búzios, muito apreciados pelos comerciantes de escravos. Esse fato compensava o calado raso do estuário do Loire, limitado a onze pés e que permitia que somente navios de no máximo 150 a 170 toneladas, totalmente carregados, chegassem a Nantes. Em comparação, o estuário da Gironda tinha um calado de 14 a 16 pés, o que permitia a pelo menos 250 embarcações de chegar no porto de Bordéus; no entanto, tal porto, mesmo capaz de exportar as riquezas oferecidas pela Bacia da Aquitânia, , p. 117 situava-se longe das principais rotas entre Londres e o Vale do Rio Pó. Nantes entrou no comércio de escravos relativamente tarde, em 1707. Os proprietários dos navios consideravam o comércio triangular muito mais lucrativo do que o comércio direto, que consistia em realizar viagens entre a Europa e as Américas, visto que na virada do século XVII o porto lidava principalmente com o comércio inter-regional e europeu (entre a Península Ibérica, as Ilhas Britânicas e o Mar do Norte), e a maior parte do tráfego lidava com o comércio tradicional desde o período medieval, com produtos como farinha, vinho e sal.
Cronologia do comércio de escravos em Nantes
Início O primeiro navio em Nantes a ser utilizado no comércio de escravos foi provavelmente o Hercule, em 1707, lançado pela compagnie du Sénégal e pertencente à família Montaudouin. , p. 136
Depois de uma pausa de 4 anos (entre 1707 e 1711), o tráfego recomeçou em 1712 com 7 navios. Nos 15 anos seguintes, o número de navios negreiros lançados aumentou, conforme a tabela abaixo:
1713 1715 1716 1717 1718 1719 1720 1721 1722 1723 1727 1728 14 20 2 11 12 9 20 16 11 24 6 10
De 1730 em diante, a tonelagem dos navios negreiros de Nantes cresceu constantemente, passando de pouco mais de 1.000 toneladas em 1735 para 6.000 toneladas em 1740.
1740 a 1752 Os anos que se seguiram foram mais caóticos: a Guerra da Sucessão Austríaca, na qual a França participou, prejudicou o comércio marítimo, até então o principal campo de batalha da rivalidade anglo-francesa. Portanto, a tonelagem dos navios negreiros em Nantes foi extremamente baixa, nunca ultrapassando 500 toneladas, durante os três anos do conflito (1745, 1746 e 1747). O Tratado de Aix-la-Chapelle, assinado em 1748, permitiu um retorno gradual da atividade comercial, com mais de 1.000 toneladas passando pelo porto. No ano seguinte, a tonelagem atingiria o número recorde de 9.000 toneladas.
Os anos de 1750 e 1751 viram uma pausa na atividade, devido principalmente ao fato dos proprietários dos navios em Nantes aguardarem os resultados dos seus investimentos pós-guerra. A viagem de um navio negreiro pelo sistema de comércio triangular entre Europa, África e Américas geralmente levava de 14 a 18 meses.
1752 a 1763 Para alívio dos proprietários dos navios de Nantes, ao longo dos anos de 1752, 1753 e 1754, sua tonelagem ultrapassou as 5.000 toneladas. Este período foi considerado de forte atividade comercial, visto que entre 1735 e 1759 esse número só seria superado cinco vezes. Em 1755, o comércio diminuiu, atingindo 3.000 toneladas, antes de entrar em colapso total entre 1756 e 1763 como resultado da Guerra dos Sete Anos, na qual os britânicos capturaram as possessões francesas de Gorée e Saint-Louis, no Senegal, ambas importantes no comércio francês de escravos; a colônia francesa de Guadalupe caiu em 1759.
1763 a 1793 A assinatura do Tratado de Paris em 1763 permitiu que o comércio em Nantes se restabelecesse em um alto nível de atividade, embora as 699 expedições organizadas neste porto durante os 30 anos seguintes representassem menos da metade do comércio francês de escravos no período, em comparação com os 50% antes do conflito. A partir de então, até a primeira abolição da escravatura em 1793, essa percentagem continuaria a diminuir.
+Participação de Nantes no comércio de escravos francês. Período Porcentagem de comércio de Nantes 1763–1766 49,3% 1767–1771 42,5% 1772–1778 34,4% 1783–1789 34,3% 1789–1793 36,1%
Essa perda de participação de mercado se explica por diversos fatores, principalmente:
pela perda da exclusividade da Companhia Francesa das Índias Orientais no comércio de escravos da costa africana, a partir de 31 de julho de 1767. Em 30 de setembro do mesmo ano, os portos do Canal da Mancha, Saint-Malo, Le Havre e Honfleur, receberam isenção do imposto de 10 libras tournois por escravo vendido nas Antilhas. A isenção foi estendida a La Rochelle em 4 de fevereiro e a Bordéus em 21 de março de 1768. pela mudança do tipo de negócio dos proprietários de navios em La Rochelle: para compensar a queda no comércio de peles devido à perda do Canadá pela França, muitos deles migraram para o comércio de escravos, entrando em competição com seus homólogos do Loire.
No entanto, mesmo que o número de partidas dos navios negreiros tenha caído a uma média de 29 por ano, entre 1763 e 1766; a 22,2, entre 1767 e 1771; e 20,6, entre 1772 e 1778, (no início da Guerra da Independência Americana), a tonelagem total caiu mais lentamente, de uma média de 3.954 toneladas por ano entre 1763 e 1766, para 3.556 toneladas entre 1772 e 1778. Isso se deve ao fato de que embora os proprietários de navios de Nantes tenham utilizado menos embarcações, estas aumentaram em capacidade. A capacidade média de um navio negreiro passou de 140 toneladas após a Guerra dos Sete Anos para 175,5 toneladas entre 1772 e 1778.
Após a independência americana, uma média de 32 navios foram lançados por ano entre 1783 e 1788, totalizando 193 navios partindo de Nantes durante o período, contra 116 de Bordéus, 111 de Le Havre e 75 de La Rochelle. Durante os dois primeiros anos da Revolução Francesa, 89 navios negreiros partiram de Nantes (46 em 1789 e 43 em 1790), e entre 1789 e 1793, o porto foi responsável por 36,1% do comércio de escravos, com 152 navios, equivalendo a seus principais rivais, Bordéus e Le Havre, juntos.
Durante o mesmo período, o número de escravos transportados pelos navios de Nantes chegou a 200.000. Os escravos eram capturados no Golfo da Guiné (principalmente na região de Calabar, na costa sudeste do que é hoje a Nigéria ) e da "costa de Angola" (atualmente parte de Angola e da República do Congo ): +Número de escravos transportados pelos navios negreiros de Nantes Período Número de escravos 1763–1766 32.300 1767–1771 33.854 1772–1778 35.161 1783–1788 55.932 1789–1793 38.361 Os comerciantes de Nantes não só eram capazes de se adaptar às condições de mercado tanto na América quanto na África, como também conseguiam alterar os pontos de venda de acordo com a concorrência. Foi, no entanto, em Saint-Domingue que venderam a maior parte de sua carga humana. Valendo-se de uma rede de relações por toda a ilha, ela se tornou domínio exclusivo dos comerciantes de escravos do Loire. Cap Français (hoje Cap-Haïtien ) e Porto Príncipe eram os principais pontos de venda e recebiam, respectivamente, de 25% a 30% dos navios negreiros de Nantes. Os comerciantes deste porto francês também forneciam uma parcela significativa das provisões de Porto Príncipe (46,8%), Léogâne (60,7%), Cayes (64,7%) e Saint-Marc (81,6%).
O decreto de agosto de 1793 para a abolição da escravatura pôs fim a toda a atividade de tráfico de escravos em todo o território francês por nove anos.
1802 a 1830 O restabelecimento da escravatura por Napoleão Bonaparte em 1802 reviveu o comércio de escravos por mais 15 anos, e este chegou a representar até 70% do comércio nacional, com mais de 300 expedições. No entanto, isto foi conseguido ilegalmente, uma vez que a Marinha Real Francesa lutou com sucesso contra os traficantes ilegais, da década de 1820 até à proibição do comércio, em 1831. A proibição do comércio levaria à abolição definitiva da escravatura, instigada por Victor Schlœlcher, em 27 de abril de 1848.
Efeito econômico O século XVIII foi o auge do comércio de Nantes e o desenvolvimento da cidade, que viu a sua população duplicar, passando de 40.000 para 80.000 habitantes.
Comércio marítimo Naturalmente, o maior impacto do comércio foi na atividade portuária, mesmo que os navios transatlânticos (incluindo não apenas os navios negreiros, mas também aqueles envolvidos no comércio direto com as ilhas americanas e os corsários ) nunca tenham representado mais de 25,4% da tonelagem total que entrou no porto de Nantes em 1772.
O comércio triangular também estimulou o surgimento do comércio "direto" entre Nantes e as ilhas caribenhas, já que na viagem de retorno os traficantes de escravos traziam as mercadorias adquiridas pela venda dos escravizados nas plantations, como açúcar e café, exigindo assim que outros navios viessem de Nantes e carregassem o excedente.
As mercadorias trazidas das colônias para o porto de Nantes eram variadas: açúcar, café, algodão e anil eram descarregados no novo cais, Fosse, que então assumira a maior parte da atividade portuária do antigo "port au Vin" (atual Place du Commerce). Esses produtos eram revendidos com lucros consideráveis, seja para abastecer o mercado interno da França ou para o consumo da crescente indústria local. O açúcar, em sua maioria não refinado (ou mascavo) e destinado ao mercado interno, foi, de longe, o produto mais importado em Nantes, totalizando 22.605.000 libras em 1786, e respondendo por 60,8% do valor total das mercadorias importadas.
A atividade comercial advinda do comércio triangular simboliza o sucesso do comércio marítimo dentro do Reino da França e deste com o restante do continente europeu. Como resultado, a tonelagem destinada a portos estrangeiros aumentou de 8.352 tx em 1702 para 30.428 tx em 1772 (uma proporção de 1:3,6), enquanto a tonelagem entregue aos portos franceses durante o mesmo período passou de 32.276 tx para 61.686 tx (1:1,9), tornando Nantes o principal porto francês.
Indústria