Tomaz da Rocha de Calheiros da Gama Fernandes (Barreiro, 20 de setembro 1900 – Lisboa, 28 de março de 1973), que escreveu sob o nome Tomaz Fernandes até 1962 e posteriormente como Thomaz de Calheiros, foi um ferroviário (chefe de estação de 1.ª classe da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses), dramaturgo, contista e poeta português. Biografia Atividade literária e profissional Em 1946 escreveu e publicou a peça de teatro “A ceia dos caçadores”, texto em verso onde os personagens Pandelha, Zé Casinha e Zé Calado, amigos e caçadores, numa sala com motivos de caça, com as suas espingardas encostadas numa parede, sentados a uma mesa, jogam cartas, enquanto aguardam a ceia preparada pelo cozinheiro João Pinela, vão conversando sobre as suas aventuras de caça aos coelhos, lebres, perdizes e javalis. Narrativas da prática da arte venatória repletas de façanhas e também de algumas desventuras, eivadas, por vezes, de fantasiosos exageros. Universo e realidade cinegética que o autor bem conhecia, pois desde a década de 1930 que era caçadorFERNANDES, Tomaz (1946), “A ceia dos caçadores”, A Gráfica – Santiago do Cacém. Consultado em 22 de setembro de 2026Licença para caçar n.º 1722 emitida pela Câmara Municipal do concelho do Barreiro, em 10 de setembro de 1935, “concedida ao Sr. Tomaz Fernandes, de 34 anos, estado casado, profissão ferroviário, residente em Barreiro”, registada no livro 1, a pág. 47, sob o n.º 175, consultada em 22 de setembro de 2026.
miniaturadaimagem|centro|Capa do livro “A ceia dos caçadores”, peça de teatro, de 1946, de Tomaz da Rocha de Calheiros da Gama Fernandes
Em 1964, manuscreve a peça de teatro “Prisioneiros da charneca”, que, em 1968, revista, publica em livro com o título “As minhas mãos vazias”, antecedendo-a do poema “Olhai as minhas mãos”. No primeiro acto a “acção decorre na habitação do chefe Silva, situada no rés-do-chão do edifício de uma estação dos Caminhos de Ferro em plena charneca alentejana” e toda a trama, em que entra também a sua mulher, filha, um criado e um carregador ferroviário, é, nessa e demais cenas, centrada nele e no chefe Costa, seu colega de profissão numa grande cidade, e nos enredos a que leva a ambição humana. Também aqui Thomaz de Calheiros insere o leitor e/ou espectador num ambiente, trama e geografia, em que se sente completamente à vontade e tem total domínio, porquanto foi, durante décadas, funcionário da CP (Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses), ascendendo, ainda trintenário, a chefe de estação, cargo que desempenhou, no Alentejo, nas estações da CP de Alcácer do Sal (c. 1938-1942), Santiago do Cacém (c. 1942-1949) e Pinhal Novo (c. 1949-1954) e, no fim da carreira, em Lisboa na Estação do Sul e Sueste (c. 1954-1958)CALHEIROS, Thomaz de (1968), “As minhas mãos vazias”, Santiago do Cacém, Casa Triunfo, consultado em 22 de setembro de 2026.
Na década de 1960, foi colaborador da “Página de poesia” do “Jornal do Barreiro”Edições de 26 de maio de 1966 (p. 9) e 29 de dezembro de 1966 (p. 5) do “Jornal do Barreiro”, consultadas em 22 de setembro de 2026, periódico dirigido por Armando da Silva Pais.
Em 1972, publica o livro “No reino de Altarmor”, coletânea de contos e poemas escritos ao longo da vida, obra que, em 2010 e com referência à editora A. Correia & Eduardo Correia, surge em versão digitalizada. Também aí, entre muitos outros temas, o mundo do transporte ferroviário está presente, nomeadamente nos contos «O “fura-greves”» (passado numa estação de comboios durante uma greve do pessoal ferroviário, envolvendo um factor de 2.ª classe, um agulheiro e um carregador, todos empregados da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses), «O “Gasparinho das comédias”» (cuja ação decorre numa carruagem, de um comboio noturno saído de Portimão com destino a Tunes, entre um revisor de bilhetes e uma passageira e, à chegada, também o chefe da estação da CP) e «Preço fixo» (inspirado num “diálogo verídico” entre um passageiro e um bilheteiro da Estação de Lisboa do Terreiro do Paço), quer ainda em poemas, como sucede em “O agulheiro do posto central” (drama que decorre na gare de uma estação à chegada de um comboio “Expresso”)CALHEIROS, Thomaz de (1972), “No reino de Altarmor”, Lisboa, A. Correia & Eduardo Correia, consultado em 22 de setembro de 2026.
Perpassa pela sua obra quer a admiração por Camões e Bocage, ganhando expressão máxima no poema «Duas estátuas, dois poemas, dois génios», quer a abordagem de relevantes episódios e personagens da História de Portugal, como, nomeadamente, sucede nos poemas «Nobreza de carácter» («Egas Moniz»), «Rosas de Portugal» («Rainha Santa Isabel»), «Um drama em Salvaterra» (Marquês de Marialva), «D. João de Portugal] (Frei Luís de Sousa)» e «Heróis de Mucaba», quer ainda a sua fé cristã, patente, entre outros, nos poemas «Inventário», «Soneto», «Infância abandonada», «Sonho desfeito» e «Valsa do amor», bem como a sua análise e preocupação por temáticas então emergentes (início da década de 1970), particularmente a da toxicodependência dos jovens, central no seu conto «O drama de um louco»; a necessidade do fim da guerra colonial, que já havia ceifado a vida a milhares de jovens militares portugueses, objeto dos seus poemas «Ressurreição do serrano» e «Não matarás»; e a excessiva expansão turístico-imobiliária do Algarve, a que dedica o poema «Súplica». Vida pessoal Nasceu no Barreiro, a 20 de setembro 1900, sendo filho de João Fernandes (1859-1931) e Isabel da Conceição Fernandes (sendo Tomaz o quarto de uma fratria de seis, composta pelos seus irmãos João, Maria da Piedade, Emília, Maria Lúcia e Manuel), bisneto paterno de Domingos José da Gama (1783-1832), trisneto de Maria Teresa da Gama e Baltazar Luís da Gama e tetraneto de Josefa Maria, António da Rocha, Maria Rodrigues Amorim de Calheiros Barbosa e Baltazar da Gama, ascendentes naturais da freguesia de Refoios do Lima, do município de Ponte de Lima, e membros da Casa de CalheirosAssento de nascimento n.º 21 de 1901 da Conservatória do registo civil do Barreiro, consultada em 22 de setembro de 2026Portaria do Ministro da Justiça João de Matos Antunes Varela de 10 de dezembro de 1962, publicada na primeira página, da III série do Diário do Governo de 14 de janeiro de 1963 e três certidões de nascimento de narrativa completa juntas com requerimento dirigido àquele ministro em outubro de 1962, consultadas em 22 de setembro de 2026.
Em 1928, em Setúbal, casou com Idalina Rosa Marques de Calheiros da Gama (Setúbal, 31 de dezembro de 1910 - Lisboa, março de 1992), de quem teve três filhos: Fábio Marques Fernandes de Calheiros da Gama (Barreiro, 11 de março de 1929 – Lisboa, 23 de julho de 2010), economista, trabalhou na Agência Geral do Porto de Lisboa e nas empresas Berkeley, Michelin e Valentim de Carvalho; Sérgio Marques Fernandes de Calheiros da Gama (Barreiro, 2 de outubro de 1930 – Lisboa, 15 de julho de 1999), engenheiro civil e geólogo, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com pós-graduação em geologia da engenharia pela Universidade Nova de Lisboa, foi professor de ciências naturais no Liceu Camões, empresário e geólogo da Câmara Municipal de Lisboa, ascendendo na carreira técnica superior até ao topo (assessor principal); e João, nascido em 1931 e falecido, de tuberculose pulmonar, aos 18 anos de idade, e cujo decesso marcou profundamente Tomaz Calheiros da Gama, como mormente resulta dos seus poemas «Rua sombria» (“a dor cá dentro de mim”) e «Natal da minha saudade» (“Com que saudades eu lembro / O meu filho que perdi, / E nesse treze de Julho / Na minha dor eu mergulho / E a morte ainda sorri!...”).
Faleceu na freguesia de São Domingos de Benfica, em Lisboa, a 28 de março de 1973, estando sepultado em jazigo perpétuo no cemitério de Benfica
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