Lourenço Correia Manoel de Carvalho e Aboim (Lisboa, 1812 –?) foi um fidalgo, militar, proprietário rural e político português, deputado às Cortes pelos círculos de Sintra (1856) e de Mafra (1860). Foi o vigésimo e último administrador da capela de São Lourenço, instituída em 1319 por Rui Nunes de Aboim na igreja de Santa Maria de Óbidos, vínculo que a sua família administrou até à extinção geral dos morgadios, em 1863.

Biografia Origens familiares Nasceu em Lisboa em 1812, filho de António Correia Manuel de Carvalho Aboim. Era neto paterno de João Correia Manoel de Aboim (n. 1740), alcaide-mor de Cabrela, filho primogénito e sucessor de António José Correia Manoel de Aboim (1704–1755), que sucedera ao avô materno numa alcaidaria-mor e em vários cargos na corte. Pertencia à família Correia Manoel de Aboim, uma das principais casas da fidalguia de Óbidos, que durante quase seis séculos administrou a capela de São Lourenço e que, a partir do século XVIII, passou a residir de forma mais permanente em Lisboa. Segundo o genealogista Manuel Abranches de Soveral, era 15.º neto do instituidor da capela, Rui Nunes de Aboim, ouvidor dos feitos do crime do rei D. Dinis.

O seu irmão, João Correia Manuel Aboim, foi jornalista, poeta, dramaturgo e articulista, e usou o nome literário de João de Aboim.

Carreira pública e militar Em plena Guerra Civil Portuguesa, por decreto de 23 de agosto de 1833, assinado no Paço das Necessidades pelo regente D. Pedro e referendado por José da Silva Carvalho, foi nomeado secretário da Junta do Exame do Estado Atual e Melhoramento Temporal das Ordens Regulares, sendo nele já designado alcaide-mor de Cabrela. A junta substituiu a Comissão da Reforma Geral Eclesiástica, criada a 31 de julho desse ano e dissolvida pelo mesmo decreto, e ficou encarregada de propor ao Governo as medidas necessárias à reforma geral do clero secular. Retomava o nome de um organismo criado por D. Maria I em 1789 e extinto por D. Miguel em 1829. A comissão que a precedera tinha já preparado os decretos de 5 de agosto de 1833, um dos quais proibia a admissão às ordens sacras e a entrada nos noviciados, num processo que conduziu à extinção das ordens religiosas em 1834.

Em 1834, no final da Guerra Civil Portuguesa, encontrava-se ao serviço do Supremo Tribunal de Justiça, recém-instalado em Lisboa: foi ele quem subscreveu o edital de 29 de agosto de 1834, emitido pelo vice-presidente do tribunal, José Caetano de Paiva Pereira, que fixava o período de férias judiciais entre 1 de setembro e 31 de outubro desse ano. O edital foi publicado na Gazeta Official do Governo n.º 54 e reproduzido na coletânea oficial da legislação desse período.

O Arquivo Histórico da Marinha conserva, no seu índice de oficiais da Armada, um processo em seu nome relativo aos anos de 1832 e 1833. Seguiu depois a carreira na cavalaria, tendo servido num regimento de cavalaria da capital, no qual foi promovido a tenente a 25 de dezembro de 1840.

Em finais de 1836 apresentou ao Ministério do Reino uma queixa contra a Câmara Municipal de Óbidos, por esta o ter excluído da lista do recenseamento dos eleitores de paróquia. O requerimento foi objeto de um parecer de José Cupertino de Aguiar Ottolini, ajudante do procurador-geral da Coroa, datado de 19 de dezembro de 1836.

A 25 de outubro de 1852 presidia à comissão recenseadora encarregada do recenseamento para a eleição dos deputados, nos termos do decreto eleitoral de 30 de setembro desse ano. Nessa qualidade assinou o termo de abertura do livro de atas das deliberações da comissão, conservado no Arquivo Municipal de Mafra.

Foi fidalgo cavaleiro da Casa Real, com honras de moço fidalgo com exercício, e alcaide-mor da vila de Cabrela. A mercê da alcaidaria-mor de Cabrela foi-lhe concedida ainda na menoridade: numa relação da Secretaria da Ordem de Santiago da Espada, datada de 6 de março de 1828, dos comendadores ainda não encartados, consta que tinha alvará de mercê da alcaidaria-mor de Cabrela e que esta era administrada por sua mãe, por ele ser menor.

Deputado às Cortes Destacado proprietário rural da Estremadura, foi eleito deputado pelo círculo de Sintra nas eleições de 1856 e pelo círculo de Mafra nas de 1860, tendo prestado juramento a 24 de janeiro de 1857 e a 6 de fevereiro de 1860, respetivamente.

Nas eleições de 1856, o círculo de Sintra (26.º círculo) elegia dois deputados. Lourenço Aboim obteve 1137 votos, num total de 2081 votantes, e foi eleito juntamente com Francisco de Sena Fernandes, que obteve 978; os candidatos imediatos foram o antigo ministro Frederico Guilherme da Silva Pereira, com 791 votos, e Torcato Máximo de Almeida, com 667. A eleição, na qual Aboim e Sena Fernandes foram apontados como os candidatos favorecidos pela autoridade administrativa, foi contestada na junta preparatória da Câmara, com acusações de irregularidades nas assembleias de Mafra, do Gradil e de Montelavar e de pressões das autoridades locais sobre os eleitores. Na sessão de 19 de janeiro de 1857, José Maria do Casal Ribeiro propôs o adiamento do parecer até que um inquérito parlamentar apurasse os abusos atribuídos ao administrador do concelho de Mafra, mas a proposta foi rejeitada. Apesar da oposição de Casal Ribeiro, António Rodrigues Sampaio e José Luciano de Castro, o parecer da comissão de verificação de poderes, defendido por António de Serpa Pimentel e Luís Augusto Rebelo da Silva, foi aprovado, e Lourenço Aboim foi proclamado deputado nessa mesma sessão.

Logo no início da décima legislatura, a 4 de fevereiro de 1857, foi eleito membro da Comissão Parlamentar dos Vinhos, provavelmente em razão da sua condição de agricultor.

Embora tenha faltado a muitas sessões entre março e dezembro de 1857, por motivo de doença prolongada, promoveu nesse ano várias iniciativas, sobretudo relacionadas com os interesses gerais da Estremadura. Na sessão de 18 de fevereiro de 1857 requereu ao Ministério das Obras Públicas que remetesse à Câmara todas as informações sobre as propostas de adjudicação da empreitada de construção da estrada de Loures a Torres Vedras recebidas até então. A 4 de junho do mesmo ano, juntamente com outros deputados, pediu à Comissão de Estatística um parecer urgente sobre uma representação dos habitantes de Sousel, que pediam que a vila voltasse a ser sede de concelho, medida então também reclamada pelas autoridades administrativas do distrito de Portalegre.

Na sessão de 19 de fevereiro de 1858 mostrou-se preocupado com o modo como as juntas militares procediam à reforma dos oficiais do exército julgados incapazes para o serviço ativo e pediu ao Ministério da Guerra informações sobre o sistema adotado, a fim de assegurar que todos os oficiais nessa situação recebiam tratamento idêntico e de conhecer a razão das exceções. No mesmo dia solicitou ao Ministério do Reino um extenso conjunto de esclarecimentos sobre os expostos, entre os quais o número a cargo das câmaras municipais em cada distrito administrativo, a média anual dos colocados nas rodas nos cinco anos anteriores, o número de rodas existentes em cada distrito, a despesa anual do Estado com a sua sustentação e educação e o valor dos rendimentos que a lei lhes destinava, provenientes de dispensas matrimoniais, de capelas dos conventos extintos e de multas.

Na sessão de 17 de março de 1858 participou nas votações nominais que encerraram a interpelação ao Governo sobre as portarias de 4 e 5 de dezembro de 1857, relativas à alegada adulteração dos vinhos do Douro com protóxido de chumbo. Votou a favor da proposta de José Ferreira de Macedo Pinto que concluía o debate, aprovada por 114 votos contra 4, e também a favor do aditamento do conde de Samodães, que acrescentava a essa proposta que as portarias tinham tido um efeito prejudicial e implicava uma censura ao Governo. O aditamento foi rejeitado por 69 votos contra 50; nesta votação, Lourenço Aboim votou a favor, tal como Fontes Pereira de Melo, ao passo que o seu colega de círculo, Francisco de Sena Fernandes, votou contra.

Na 12.ª legislatura, a última em que teve assento, eleito por Mafra, dedicou a sua atividade parlamentar sobretudo a questões agrícolas. A 5 de março de 1860 pediu ao Ministério das Obras Públicas os últimos relatórios das sociedades agrícolas do Reino e informações sobre a produção de cereais entre 1855 e 1859, o seu consumo anual, o valor das importações e exportações desde 1841 e a média dos preços nos mercados de Lisboa, Porto, Londres, Odessa e dos portos da América, com o objetivo de obter um panorama da conjuntura cerealífera que o habilitasse a apresentar projetos de organização da produção agrícola. Na sessão de 14 de março de 1860 declarou ser de reconhecida utilidade pública uma ligação fácil entre os caminhos de ferro do Norte e do Leste e as vilas de Mafra, Ericeira e Malveira, onde se realizavam importantes mercados de gado vindo do Alentejo e das Beiras, destinado ao consumo da Estremadura e de Lisboa. Para facilitar o seu escoamento, propôs ainda que o Ministério das Obras Públicas orçamentasse a construção da estrada de Mafra ao Sobral de Monte Agraço, por Malveira, e, a 19 de março de 1860, fez o mesmo pedido para as estradas da Ericeira a Sintra e de Sintra a Cascais. A 9 de junho de 1860 apresentou propostas de alteração a um projeto sobre a contribuição industrial, na parte respeitante à agricultura, no sentido de aliviar os encargos dos comerciantes de gado.

Último administrador da capela de São Lourenço Sucedeu na chefia da família e na administração da capela de São Lourenço de Óbidos e dos restantes vínculos entretanto reunidos na casa, tendo sido o vigésimo e último administrador do morgadio instituído por Rui Nunes de Aboim, até à extinção geral dos vínculos em 1863.

Tanto ele como o irmão faleceram sem geração, extinguindo-se assim a linha primogénita da família. A representação passou ao ramo secundogénito, descendente de José Correia Manoel de Aboim, construtor do Palácio dos Aboim, em Lisboa: José Maria Moreira Freire Correia Manoel de Aboim foi feito visconde de Vila Boim em 1890 e, por sua morte sem geração, em 1901, sucedeu-lhe na representação o sobrinho Francisco Moreira Freire Correia Manoel Torres de Aboim, feito 1.º visconde de Idanha em 1894, a quem sucedeu no título o filho, Raul Rego Correia Freire Manoel Torres de Aboim, 2.º visconde de Idanha.

Vida pessoal Casou a 6 de junho de 1835, na freguesia de São Mamede, em Lisboa, com D. Helena Adelaide Demony, referida noutra fonte como Maria Adelaide Desmony.

Consta da lista de assinantes da tradução portuguesa de Waverley, de Walter Scott, feita por A. J. Ramalho e Sousa e publicada em 1845.

Ver também Visconde de Idanha Francisco Moreira Freire Correia Manoel Torres de Aboim, 1.º Visconde de Idanha Raul Rego Correia Freire Manoel Torres de Aboim, 2.º Visconde de Idanha João Correia Manuel Aboim

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