Dr. No é um romance de espionagem escrito pelo autor britânico Ian Fleming e o sexto livro da série James Bond. A história acompanha o agente secreto britânico James Bond enquanto investiga o desaparecimento de dois de seus colegas na Jamaica. Estes, por sua vez, estavam investigando o doutor Julius No, um agente teuto-chinês e dono de uma mina de guano.

O romance teve sua origem em um roteiro escrito por Fleming em 1956 para o produtor Henry Morgenthau III para uma proposta de série de televisão intitulada Commander Jamaica. Estes planos não deram em nada e assim o autor, sem ideias para um novo livro de Bond, adaptou o conceito para o romance, que ele escreveu no início de 1957 em sua propriedade Goldeneye na Jamaica. O romance lida com dois temas principais, o primeiro o significado do poder, e o segundo o conceito de amizade e lealdade.

Dr. No foi publicado pela primeira vez no Reino Unido em março de 1958 pela editora Jonathan Cape. Foi a primeira obra de Fleming que recebeu várias críticas negativas na imprensa britânica, porém quando foi publicado nos Estados Unidos em junho a recepção foi mais favorável. A história foi serializada no jornal Daily Express e posteriormente adaptada como uma tira em quadrinhos. Foi adaptada também em 1962 como o primeiro filme da série cinematográfica de James Bond, estrelado por Sean Connery.

Enredo O agente secreto britânico James Bond é enviado à Jamaica para investigar o desaparecendo do comandante John Strangways, chefe da estação britânica em Kingston, e sua secretária. Bond é informado que Strangways estava investigando o doutor Julius No, um teuto-chinês recluso que vive na ilha de Crab Key e que é dono de uma mina de guano. Dois representantes da Sociedade Nacional Audubon, uma organização ambiental, morreram na ilha quando seu avião caiu no campo de pouso de No.

Bond, pouco depois de chegar na Jamaica, percebe que está sendo seguido. Seu quarto de hotel é vasculhado, uma cesta de frutas envenenadas lhe é enviada e uma centopeia venenosa é colocada na sua cama. Bond, com a ajuda de seu antigo amigo Quarrel, consegue visitar Crab Key secretamente a fim de estabelecer se há alguma conexão entre No e os dois desaparecidos. Bond e Quarrel encontram Honeychile Rider, uma mergulhadora que está na ilha para pegar conchas. Bond e Rider são capturados depois de Quarrel ser queimado por um bugue blindado e armado com um lança-chamas. Os dois são levados para dentro de instalações luxuosas construídas dentro de uma montanha.

Bond é levado a No e este conta que está trabalhando com os soviéticos, tendo construído uma ampla instalação subterrânea de onde pode sabotar mísseis de teste estadunidenses lançados de Cabo Canaveral. Ele anteriormente tinha sido membro de uma gangue chinesa, porém roubou uma grande quantidade de dinheiro da organização e foi capturado. Os líderes cortaram suas mãos como aviso para outros e lhe deram um tiro, porém No sobreviveu por ter o coração no lado direito do peito.

No, tendo se interessado na capacidade do corpo humano de aguentar e sobreviver a dor, força Bond a atravessar um percurso de obstáculos construído no sistema de ventilação da instalação. Bond é observado enquanto sofre choques elétricos, queimaduras e envenenamento. Sua provação termina com um confronto contra uma lula-gigante, que ele derrota usando armas improvisadas. Bond consegue fugir e encontrar Rider, que também conseguiu escapar. Ele mata No ao assumir o controle de uma máquina de carregamento e desviar um fluxo de guano para enterrar No vivo. Bond e Rider escapam da instalação no bugue, retornam para a Jamaica e notificam as autoridades coloniais.

Antecedentes e escrita thumb|240px|esquerda|Goldeneye, onde Fleming escreveu todos os romances de James Bond O autor britânico Ian Fleming começou uma colaboração em junho de 1956 com o produtor estadunidense Henry Morgenthau III em uma proposta de série de televisão intitulada Commander Jamaica, que teria como protagonista um personagem baseado no Caribe chamado James Gunn. O projeto não avançou e Fleming, com dificuldades de elaborar um enredo para seu próximo livro de James Bond, decidiu usar as ideias da série como base para o que se tornaria Dr. No. Em janeiro de 1957 ele já tinha publicado quatro romances de Bond anualmente desde 1953: Casino Royale, Live and Let Die, Moonraker e Diamonds Are Forever. Um quinto livro, From Russia, with Love, estava sendo editado e preparado para publicação. Neste mesmo mês Fleming viajou para sua propriedade Goldeneye na Jamaica para escrever um novo livro. Ele seguiu sua prática de escrita usual, que ele depois detalhou na revista Books and Bookmen: "Eu escrevo por cerca de três horas pela manhã ... e faço outra hora de trabalho entre seis e sete da noite. Nunca corrijo nada ou volto atrás para ver o que escrevi ... Pela minha fórmula, você escreve duas 2 000 palavras por dia". Fleming voltou para Londres no Reino Unido no final de fevereiro com um primeiro rascunho de 206 páginas, inicialmente intitulado The Wound Man.

Fleming deu poucas informações sobre datas dentro de suas obras, mas dois escritores identificaram linhas do tempo diferentes a partir de eventos e situações relatados dentro da série James Bond como um todo: John Griswold e Henry Chancellor, ambos os quais escreveram livros analisando as obras à pedido da Ian Fleming Publications. Chancellor colocou os eventos de Dr. No em 1956, já Griswold foi mais preciso e considerou que a história se passa entre fevereiro e março do mesmo ano.

Fleming deu origem ao conceito da arte de capa, assim como tinha feito nos seus quatro livros anteriores. Ele considerou Honeychile Rider como uma semelhante a Vênus ao apresentá-la no livro e queria enfatizar isso na capa. Ao contratar Pat Marriott para criar a ilustração, Fleming instruiu que ela fosse mostrada em uma concha.

Desenvolvimento Inspirações Fleming e seu amigo Ivar Bryce viajaram em março de 1956 para uma colônia de flamingos na ilha de Grande Inágua no sul das Bahamas acompanhados de Robert Cushman Murphy, do Museu Americano de História Natural, e Arthur Stannard Vernay, da Sociedade de Proteção dos Flamingos. A colônia tinha 260 quilômetros quadrados de um manguezal denso e salinas, abrigando flamingos, garças e aiaiás, tornando-se a inspiração para Crab Key. Boa parte da viagem dos quatro em terra por Grande Inágua foi feita em um carro Land Rover equipado com pneus muito grandes que se tornaram o modelo para o veículo que protege Crab Key na história.

A inspiração para o doutor Julius No foi o vilão doutor Fu Manchu de Sax Rohmer, que apareceu em vários livros que Fleming tinha lido e gostado anos antes. Aspectos do enredo também foram influenciados pelas obras de Rohmer, com o autor Simon Winder destacando que o uso da centopeia era "um roubo direto" de um dos romances de Fu Manchu. Outros elementos vindos dos livros de Rohmer incluem o covil secreto de No em Crab Key e o uso da ideia do cientista louco.

Fleming recebeu após a publicação de Diamonds Are Forever em 1956 uma carta escrita por Geoffrey Boothroyd, um fã de Bond e entusiasta de armas, que criticou a escolha do autor da arma pessoal de Bond. Boothroyd sugeriu que o personagem deveria trocar sua Beretta por uma Walther PPK de 7,65 milímetros, uma troca que Fleming fez em Dr. No. Boothroyd também aconselhou o autor no coldre de ombro com três fechos Berns-Martin e em várias das armas usadas pela SMERSH e outros vilões. Fleming agradeceu os conselhos nomeado o armeiro do Serviço Secreto Britânico como Major Boothroyd e fazendo com que M o apresentasse como "o maior especialista em armas de pequeno porte do mundo".

O autor se apropriou de nomes de pessoas que ele conhecia para personagens do livro, assim como fez em várias de suas obras. May Maxwell, a empregada doméstica de Bryce, se tornou May, a empregada escocesa que Bond chama de "tesouro". O navio de coleta de guano Blanche foi nomeado em homenagem a Blanche Blackwell, uma das vizinhas de Fleming na Jamaica e sua posterior amante. Sua amiga Patricia Wilder tinha o apelido de Honey Chile e este foi usado para o nome da principal personagem feminina, Honeychile Rider, enquanto John Fox-Strangways, um amigo do clube de cavalheiros White's, teve parte seu nome usado para John Strangways, o agente britânico desaparecido na Jamaica. Fleming também usou descrições físicas de pessoas que conhecia, com Quarrel, que anteriormente tinha aparecido em Live and Let Die, sendo baseado em um pescador jamaicano que frequentemente levava Fleming para pescar tubarões.

Personagens Pela primeira vez houve um atrito entre Bond e M, ocasionado porque Bond quase foi morto pela SMERSH em From Russia, with Love. M ordena que Bond use uma arma nova e o envia em uma missão de férias, algo que Bond ressente. O autor Raymond Benson, que posteriormente escreveu vários romances de Bond, considerou que M estava no auge de seu autoritarismo em Dr. No, punindo Bond ao lhe tirar sua arma quanto e enviá-lo naquilo que os dois consideram ser uma missão "leve".

Honeychile Rider é uma das três mulheres no cânone de Bond que foram estupradas. Isto seguiu um padrão em que as mulheres que conhecem Bond são de alguma forma diferentes da normalidade, porém o historiador cultural Jeremy Black destacou que isto dava a Bond a oportunidade de ajudá-las e salvá-las. Personagens femininas nos romances de Bond possuíam falhas, no caso de Rider sendo um nariz quebrado, resultado do estupro. Os historiadores culturais Janet Woollacott e Tony Bennett consideraram que Rider não era "arquetipicamente feminina", mas foi "construída de acordo com a fórmula 'igual mas subordinada'". Rider foi descrita no livro como tendo nádegas de um menino, o que gerou uma resposta de Noël Coward, amigo de Fleming, que disse "Fiquei também um pouco chocado com o anúncio lascivo de que o traseiro de Honeychile era como o de um menino. Eu sei que todos nós estamos nos tornando mais tolerantes hoje em dia, mas, meu velho, o que você poderia estar pensando?".

No era fisicamente desfigurado, assim como muitos dos adversários de Bond, tendo 1,98 metro de altura, pinças de aço no lugar das mãos e também dextrocardia. Bond o descreve como "um verme gigante venenoso envolto em papel alumínio cinza". Benson considerou que No era "um vilão perversamente bem-sucedido", o melhor desde Hugo Drax em Moonraker, já a revista Time achou que No era "um dos personagens menos esquecíveis da ficção moderna".

Quarrel era o conceito ideal de Fleming para uma pessoa preta, com o personagem sendo baseado na sua afeição genuína pelos jamaicanos, quem ele via como "cheios de boa vontade, alegria e bom humor". A relação entre Bond e Quarrel foi baseada na presunção mútua da superioridade do primeiro. Fleming descreveu o relacionamento como "aquele do latifundiário escocês com seu principal caçador; autoridade não era dita e não havia espaço para servilismo". Winder considerou que as cenas com Quarrel eram "embaraçosamente condescendentes, mas mesmo assim hipnóticas" de serem lidas.

Estilo Fleming experimentou em From Russia, with Love com uma estrutura incomum em que a entrada de Bond foi adiada até o capítulo onze. Ele retornou em Dr. No para a estrutura convencional que se sentia mais confortável, aquela usada por escritores de suspense no início do século XX. Consequentemente, o vilão estava mais para o "cavalheiro vigarista" intelectual da era de ouro do romance policial, com o foco sendo em ação ao custo de desenvolvimento de personagem e profundidade de enredo.