As manifestações golpistas no Brasil após as eleições de 2022 constituíram uma série de protestos, bloqueios em rodovias e atos terroristas que começaram logo após a finalização da eleição presidencial, em 30 de outubro. Eles foram organizados e financiados por grupos de extrema-direita formados por pessoas que não reconheceram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no processo eleitoral e que pediam por um golpe militar para impedir a sua posse como Presidente do Brasil.
Os protestos tinham em comum a reivindicação de que ocorresse o que os manifestantes chamavam de "intervenção militar constitucional", um conceito jurídico inexistente que provém da interpretação errada do artigo 142 da Constituição brasileira de 1988. Apoiadores do candidato derrotado Jair Bolsonaro, especialmente caminhoneiros, montaram bloqueios de estradas em pelo menos 23 estados brasileiros e no Distrito Federal, que começaram a registrar as primeiras barreiras rodoviárias em 1.º de novembro. Militantes bolsonaristas também se aglomeraram ao redor de quartéis do Exército Brasileiro.
Os bloqueios rodoviários foram amplamente criticados por diversos setores da sociedade por terem provocado grandes perdas de alimentos, desabastecimento de produtos essenciais como alimentos, combustíveis e remédios, impedimento do direito de ir e vir, cancelamento de voos, vandalismos e violência, além de episódios de atropelamentos, agressões e mortes, bem como uma tentativa de atentado a bomba no Aeroporto de Brasília. Após as invasões e depredações das sedes dos Três Poderes ocorridas no dia 8 de janeiro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o desmonte dos acampamentos bolsonaristas em todas as capitais do país.
As redes de financiamento e logística responsáveis pela organização e propagação dos bloqueios, acampamentos e manifestações, tiveram como base empresários do agronegócio, do garimpo, de madeireiras e do setor do transporte.
Contexto
Ao longo de sua vida, Jair Bolsonaro defendeu frequentemente a ditadura militar brasileira. Durante discussão com manifestantes em dezembro de 2008, declarou que "o erro da ditadura foi torturar e não matar", classificou-a como um "período glorioso" da história do Brasil e disse que foram "20 anos de ordem e progresso". Em 1999, como deputado federal explicou ao programa Câmera Aberta que era "favorável à tortura" e chamou a democracia de "porcaria". Também declarou que, se viesse a ser presidente do país, não havia "a menor dúvida" de que "fecharia o Congresso" e de que "daria um golpe no mesmo dia". Em entrevista dada à IstoÉ em 2000, Bolsonaro defendeu novamente a censura. Em 2008, em discussão com manifestantes, afirmou que "o erro da ditadura foi torturar e não matar." Em uma entrevista dada ao programa Custe o Que Custar (CQC), em março de 2011, ele relatou espelhar-se no governo ditatorial militar e que sentia saudades dos presidentes Médici, Geisel e Figueiredo. Jair Bolsonaro apoiou a convocação de manifestações em 15 de março de 2020, para o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo. Razão pela qual, vários políticos e um ministro do Supremo acreditam que Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade e crime de improbidade.miniaturadaimagem|O presidente Jair Bolsonaro e autoridades militares, em dezembro de 2020 No penúltimo ano de governo de Jair Bolsonaro, deflagrou-se a crise militar no Brasil em 2021, desencadeada em março quando as mais altas autoridades militares brasileiras renunciaram como resposta às tentativas do presidente de politizar as Forças Armadas. Bolsonaro nomeara desde o início de seu governo, uma quantidade inédita de militares para funções de caráter civil, buscando apoio dos militares, inclusive para manifestações públicas favoráveis às políticas de seu governo e da defesa da decretação do Estado de Defesa, como forma de aumentar seus poderes. Em 29 de março, após ser demitido pelo presidente, o ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva declarou ter preservado as Forças Armadas como "instituições de Estado." No dia seguinte, os comandantes Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antonio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica) resignaram, em um ato inédito na Nova República. A renúncia coletiva dos comandantes buscou demonstrar a contrariedade a qualquer interferência política dos militares. No entanto, a crise gerou preocupações relacionadas à politização das Forças Armadas e à possibilidade de o presidente Bolsonaro planejar um autogolpe.
O governo Bolsonaro comemorou nos quatro anos de mandato o golpe de Estado no Brasil que ocorreu em 1964. Nas ocasiões trouxe informações falsas sobre a ditadura subsequente até com declaração de que o Golpe teria salvado e pacificado o país.
Em debate no dia 30 de setembro de 2022 entre candidatos às eleições gerais veiculada pela Rede Globo, Soraya Thronicke questionou Jair Bolsonaro se iria respeitar o resultado eleitoral ou dar um golpe de Estado. Bolsonaro não lhe respondeu a pergunta.
As eleições gerais de 2022 chamaram à atenção internacional de forma inédita, havendo um entendimento generalizado entre acadêmicos e representantes de governos em todo o mundo do risco de um golpe de Estado. Havia medo de que o país desse lugar a ações semelhantes à Invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 2021 em janeiro do ano anterior, quando um grupo de apoiadores de Donald Trump buscou impedir a certificação da vitória de Joe Biden.
Planejamento Apesar de a paralisação das ruas ter começado após o resultado das eleições que declararam a derrota de Jair Bolsonaro para Lula, os bloqueios já estavam sendo planejados semanas antes. Uma mensagem de 14 de outubro que viralizou no Telegram pedia a bolsonaristas para permanecerem nas ruas caso Lula ganhasse a eleição e convocava paralisação de caminhoneiros. Durante todo o período que antecedeu o segundo turno, chamados de paralisação de caminhoneiros circularam em grupos bolsonaristas. Essas mensagens que convocavam a paralisação de caminhoneiros faziam referência a um discurso realizado por Bolsonaro em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 11 de outubro. Segundo os bolsonaristas, a fala do presidente para que os eleitores permanecessem na seção após a votação seria um indicativo para as paralisações. Em Pelotas, Jair Bolsonaro havia dito que:
Militares da reserva queriam greve de caminhoneiros antes do segundo turno, como o coronel da reserva Marcos Koury. Um vídeo, publicado no dia 16 de outubro, foi uma dentre as várias tentativas de Koury de incitar uma greve geral de caminhoneiros antes do segundo turno das eleições. A ideia era que os motoristas deveriam paralisar o Brasil para demonstrar apoio a Bolsonaro, que teria tempo de publicar uma Medida Provisória que instituiria o voto impresso. O vídeo de Koury sobre as paralisações foi compartilhado em diversos grupos bolsonaristas no Telegram e, dias depois, membros desses mesmos grupos passaram a defender os bloqueios às rodovias após as eleições. Pedidos para paralisação também foram feitos no YouTube e TikTok.
Investigações posteriores da PF apontam que membros do grupo envolvido na tentativa de golpe de Estado no Brasil em 2022–2023 teriam se envolvido na convocação dos atos. Conversas captadas pela PF demonstram o general da reserva Mario Fernandes em contato com o coronel da reserva George Hobert Oliveira Lisboa, que na época também era assessor especial no gabinete do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, passando orientações de como deveria ser feito um panfleto de divulgação de um ato que ocorreria no dia 9 de novembro.
Bloqueios rodoviários thumb|Caminhões paralisados na Rodovia Presidente Dutra (BR-116) em Taubaté, São Paulo, dois dias após o segundo turno da eleição presidencial no Brasil em 2022 Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, incluindo caminhoneiros, iniciaram os bloqueios em todo o país ainda na noite do dia 30 de outubro, quando o resultado das eleições foi divulgado. Até a noite do dia 31 de outubro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) havia registrado 321 pontos de bloqueios ou aglomerações em estradas em 25 estados e no Distrito Federal.
O estado com maior número de bloqueios foi Santa Catarina. Os protestos nas estradas perderam força no dia 3 de novembro, mas passaram a ser feitos em frente de quartéis. Em 1.º de novembro, manifestantes pró-golpe chegaram a ameaçar queimar vivos estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sob a alegação de que seriam petistas.
Os bloqueios de estradas e rodovias afetaram vários setores da sociedade, como a indústria de carnes, leite, paralisação parcial da indústria frigorífica, o abastecimento de supermercados e postos de combustíveis. Diversos hospitais foram afetados. Houve preocupação geral sobre o abastecimento de oxigênio e outros insumos. Alguns hospitais tiveram que cancelar cirurgias. A fabricação de veículos no Brasil também foi afetada. Vários caminhões com commodities agrícolas não conseguem acessar Paranaguá, importante polo de exportação.
O Instituto Butantan informou que uma carga de ovos destinados a produzir vacinas contra a gripe está presa em um bloqueio próximo a Jundiaí (SP), a 47km de São Paulo. Caso a carga não chegue ao Butantan, que fica na zona oeste da capital paulista, a produção de 1,5 milhão de doses do imunizante contra a H3N2 pode ser comprometida.
Os bloqueios provocaram acidentes fatais, como em Várzea Grande, Mato Grosso, onde um motorista morreu ao colidir seu automóvel em um caminhão parado em um bloqueio na BR-364. Em Ipatinga, Minas Gerais, um motociclista morreu e uma mulher na garupa ficou ferida depois de se chocarem contra um caminhão-tanque no trecho urbano da BR-381. No momento da colisão o caminhão estava manobrando para retornar depois de ser barrado em um bloqueio. Em Mirassol, São Paulo, um motorista passou por cima de manifestantes na Rodovia Washington Luís, deixando 17 vítimas, entre elas, duas crianças.
Invasão ao Aeroporto de Guarulhos Na noite de 31 de outubro, às 20h00, cerca de 50 bolsonaristas fecharam as duas pistas rodovia Hélio Smidt, que dá acesso ao aeroporto internacional de Guarulhos, que gerou atrasos e cancelamentos de voos. Na madrugada do dia 1 de novembro, os manifestantes invadiram a pista de voo. Um vídeo flagrou um homem vestindo farda da PRF cortando a grade para que os bolsonaristas entrassem. No dia seguinte, os agentes da PRF liberaram a rodovia. Ao todo, 25 voos foram cancelados. Uma apuração interna da PRF confirmou que de fato alguns agentes da corporação estavam ajudando os manifestantes.
Saudação nazista em São Miguel do Oeste
No bloqueio realizado na rodovia SC-163, em São Miguel do Oeste, Santa Catarina, os manifestantes bolsonaristas, realizaram, no dia 2 de novembro, um momento solene de celebração do Hino nacional brasileiro, durante o qual fizeram gestos semelhantes à saudação nazista. Vídeos do acontecimento foram amplamente compartilhados, e causaram inúmeras reações de espanto e condenação. O estado de Santa Catarina já registra uma grande ampliação de grupos neonazistas nos últimos anos, no mesmo município de São Miguel do Oeste foram presos membros de um grupo neonazista em uma operação realizada em outubro, esse se intitulava a 'Nova SS de SC', e possuía armas brancas, artesanais, e impressoras 3D destinadas à fabricação de armas. A atual vice-governadora do estado, e deputada federal eleita, Daniela Reinehr, é filha de Altair Reinehr, notório divulgador de ideias nazistas, que a parlamentar se recusa a condenar publicamente.