Eliseu Elias César (Cidade da Parahyba, 21 de julho de 1871– Rio de Janeiro, 27 de Janeiro de 1923) foi um intelectual negro paraibano que se destacou como poeta, jornalista, advogado, orador e político durante a passagem do Brasil da Monarquia para a República. Postumamente escolhido como Patrono da Academia Paraibana de Letras.
Biografia Nascido livre em 21 de julho de 1871, na Cidade da Parahyba (atual João Pessoa), Eliseu César veio ao mundo apenas dois meses antes da promulgação da Lei do Ventre Livre. Era filho de Maria Joaquina de Freitas (uma mulher negra) e de Dulcídio Augusto César (um homem branco com posições abolicionistas), mas foi criado por sua avó materna, dona Vicência Ferreira de Albuquerque César.
Na infância (durante a segunda metade da década de 1880 e os primeiros anos da década de 1890), estudou no Lyceu Paraibano, onde recebeu os ensinamentos fundamentais para sua trajetória intelectual. Ainda muito jovem, com apenas 15 anos, ingressou no mercado de trabalho como tipógrafo e "praticante dos Correios" (um cargo hoje não mais existente que cuidava da logística dos jornais e períodicos impressos e que exigia conhecimento das línguas portuguesa e francesa, geografia geral e do Brasil, aritmética e teoria das proporções, desenho linear, escrituração mercantil, além de noções de inglês e alemão). Essas funções o aproximaram do universo das letras e da comunicação, contribuindo para sua futura atuação como poeta, jornalista e advogado.
Eliseu César faleceu subitamente de síncope cardíaca na madrugada de 27 de janeiro de 1923, no Rio de Janeiro, aos 51 anos. Seu funeral foi acompanhado por uma multidão de amigos, colegas da imprensa, juristas e representantes de associações negras.
Carreira A vida de Eliseu César foi marcada por constantes deslocamentos geográficos dentro do território nacional. Esses movimentos permitiram ao intelectual negro paraibano atuar em diferentes regiões do Brasil, tanto no campo jurídico quanto no político.
No ano de 1895, Eliseu César foi morar no Recife, onde ingressou no curso de Direito, graduando-se em 1898. Antes mesmo de concluir a graduação, atuou brevemente como promotor público (por volta de 1897) em Vitória. Essa experiência marca o início de sua trajetória profissional na área jurídica.
Entre 1899 e 1911, Eliseu César viveu no Pará, no auge do período conhecido como “Belle Époque brasileira”. Em Belém, estabeleceu uma aliança com Antônio Lemos (líder político local), ocupou cargos de destaque, como secretário da Intendência Municipal e Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paraense (PRP) e evidenciou seu compromisso com as questões sociais e republicanas.
Em fins de 1911 e início de 1912, se transferiu para a capital federal. Trabalhou no Jornal do Brasil. Ao mesmo tempo, se consolidou como advogado criminalista tendo como marca, segundo seus colegas de impressa, a oratória, o que lhe conferiu os apelidos de "Rui Barbosa negro" e "Nabuco negro". Neste ofício, atuou em casos de repercussão, o que reforçou sua posição de destaque no cenário jurídico nacional.
Foi membro ativo da Federação dos Homens de Cor (FHC), uma associação afro-brasileira fundada em novembro de 1909 na cidade de São Paulo e transferida em julho de 1920 para a cidade do Rio de Janeiro, instituída inicialmente na qualidade de sociedade beneficente, cuja finalidade principal era atuar em prol do desenvolvimento moral, cultural, intelectual, político e social dos seus associados e da população negra do Brasil.
Na política eleitoral, tentou candidatar-se a deputado federal (1921) e intendente municipal (1922) no Rio de Janeiro. Apesar de sua popularidade entre as classes desfavorecidas e operários, suas derrotas foram atribuídas à "degola" — fraudes orquestradas pelas elites políticas da época para impedir o acesso de figuras independentes ao poder.alt=Fonte: Gazeta de Notícias|miniaturadaimagem|Nota de falecimento do "sucessor" do José do Patrocínio Obra No campo da literatura, Eliseu César escreveu um único livro, "Algas", publicado em 1894. A obra, prefaciada por João Pereira de Castro Pinto, reúne 58 poemas de inclinação romântica e lírica, mas que também carregam fortes tensões raciais e identitárias. Em poemas como "Moreninha" e "Mulatinha", o autor exalta a beleza da mulher negra e parda, contrapondo-se aos ideais de branqueamento da sociedade. Seus versos também apresentavam críticas sociais e políticas. No poema "Canto à mocidade", por exemplo, ele expressa desencanto com os rumos da jovem República, denunciando a miséria e a instabilidade do regime. Postumamente, foi alçado à condição de imortal e escolhido como patrono da cadeira número 14 da Academia Paraibana de Letras.