Casamento inter-religioso, por vezes denominado casamento entre religiões ou casamento misto, é o casamento entre cônjuges que professam e pertencem legalmente a religiões diferentes. Embora os casamentos inter-religiosos sejam frequentemente celebrados como casamento civil, em alguns casos podem ser realizados como um casamento religioso. Isso depende da doutrina religiosa de cada uma das religiões dos dois cônjuges; algumas proíbem o casamento inter-religioso, enquanto outras o permitem em diferentes graus.
Diversas religiões importantes permanecem silenciosas sobre essa questão, enquanto outras o permitem mediante determinadas exigências relativas à cerimônia e aos costumes. Para grupos etnorreligiosos, a resistência ao casamento inter-religioso pode constituir uma forma de autossegregação destinada a preservar a identidade cultural e as crenças religiosas entre os membros do mesmo grupo, ao passo que o casamento inter-religioso também tem sido visto, em determinadas circunstâncias, como uma forma de desafiar os limites estabelecidos pelas normas religiosas e sociais. Em um casamento inter-religioso, cada cônjuge normalmente mantém sua própria religião. Uma questão que pode surgir nessas uniões é a escolha da religião na qual os filhos serão criados. Situação jurídica
Direitos humanos
De acordo com o artigo 16 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, homens e mulheres que tenham atingido a maioridade têm o direito de se casar "sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião". Embora grande parte do artigo 16 tenha sido incorporada quase literalmente ao artigo 23 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, as referências às restrições de natureza religiosa e racial foram omitidas. O artigo 17, parágrafo 2.º, da Convenção Americana sobre Direitos Humanos estabelece que todos os homens e mulheres têm o direito de contrair casamento, sujeitos às condições previstas pela legislação interna, "desde que tais condições não afetem o princípio da não discriminação estabelecido nesta Convenção". Estados Unidos
De acordo com um estudo realizado pelo Pew Research Center em 2015, o casamento inter-religioso tornou-se cada vez mais comum nos Estados Unidos nas últimas décadas. Entre os casamentos celebrados antes de 1960, 81% ocorreram entre cônjuges pertencentes à mesma denominação religiosa, 11% entre cônjuges de diferentes denominações cristãs, 5% entre um cristão e um cônjuge sem filiação religiosa, e 3% correspondiam a outras formas de casamento inter-religioso. Para os casamentos realizados entre 2010 e 2014, os percentuais correspondentes passaram para 61%, 15%, 18% e 6%, respectivamente. Os casamentos inter-religiosos são menos comuns entre hindus, mórmons e muçulmanos, e mais frequentes entre pessoas sem filiação religiosa, protestantes históricos e judeus.
Joan Boocock Lee, atriz britânico-americana e membro da Igreja Episcopal, que foi casada com o criador de histórias em quadrinhos Stan Lee, um agnóstico judeu-americano, até a sua morte, declarou que o casal enfrentou dificuldades para adotar uma criança nos Estados Unidos em meados do século XX.
Desde a década de 1960, compositores norte-americanos têm escrito música de casamento para utilização em cerimônias de casamento inter-religioso, destacando-se John Serry Sr.. Com esse propósito, Serry dedicou os trinta e cinco anos finais de sua carreira profissional à execução de música de casamento e música litúrgica das tradições judaica e católica romana como organista autônomo da Capela Inter-religiosa do campus Long Island University C. W. Post Campus, em Brookville, Nova Iorque, entre 1968 e 2002.
À medida que um número crescente de rabinos passou a celebrar casamentos entre pessoas de diferentes religiões sem exigir previamente a conversão, durante as décadas de 1960 e 1970, ele colaborou com diversos membros do clero das tradições religiosas judaica e católica romana, entre eles o rabino Nathaniel Schwartz e o reverendo John Heinlein. Índia
O casamento inter-religioso é controverso em algumas regiões da Índia, especialmente em razão da desaprovação de relacionamentos entre hindus e muçulmanos. Anúncios publicitários e filmes que retratam relacionamentos entre hindus e muçulmanos têm atraído condenações e ações judiciais. Casais formados por hindus e muçulmanos têm sofrido assédio, incluindo a divulgação de informações pessoais em redes sociais.
Em 2020 e 2021, diversos estados indianos governados pelo BJP aprovaram leis que proíbem conversões religiosas forçadas, exigem notificação prévia da intenção de contrair matrimônio e estabelecem um período de espera, além de permitirem que qualquer pessoa apresente objeções à união. Casamentos inter-religiosos passaram a ser considerados, por essas legislações, um indício inerente de conversão forçada, apesar de alguns indivíduos declararem que não pretendiam se converter para se casar. Temendo violência por parte de grupos de justiceiros e enfrentando longas demoras, além da falta de cooperação de advogados e autoridades governamentais, alguns casais fugiram para outros estados a fim de se casar, frequentemente perdendo seus empregos. Em agosto de 2021, o Tribunal Superior de Guzerate limitou o alcance da legislação daquele estado com base na liberdade religiosa.
Segundo a pesquisadora Tamalapakula (2019), no contexto do casamento inter-religioso, a dimensão social do sistema de castas na Índia deve ser considerada de forma central. Em diversos casos analisados em seu estudo sobre casamentos inter-religiosos e entre castas, a autora argumenta que as dinâmicas de classe e gênero desempenham papel fundamental no desenvolvimento das relações sociais entre as famílias envolvidas. Em um dos exemplos apresentados, nos casamentos entre mulheres brâmanes e homens dalits, estes últimos frequentemente são vistos de forma depreciativa pelos parentes brâmanes e acabam se afastando de seus próprios familiares dalits para evitar essa associação e alcançar um status semelhante ao das mulheres brâmanes, socialmente consideradas "puras" em comparação com o homem dalit.
Ainda assim, o casamento é frequentemente visto como um meio de ascensão social para homens dalits e até mesmo como uma forma de superar as barreiras impostas pela discriminação e pelas restrições do sistema de castas, tanto para homens quanto para mulheres. No entanto, Tamalapakula argumenta que, no caso das mulheres dalits, como as castas superiores jamais as aceitariam como esposas legítimas de um homem brâmane e como elas frequentemente são vistas como alvo de exploração sexual por seus próprios parentes dalits, esse cenário constitui mais um exemplo de como os casamentos inter-religiosos e entre castas estão profundamente vinculados às desigualdades estruturais relacionadas ao gênero e à classe social. Assim, embora o casamento inter-religioso seja considerado parcialmente controverso e juridicamente permitido, ele integra uma dinâmica mais ampla de relações de poder que atravessa as questões de classe e de gênero entre as castas dalit e brâmane.
Arábia Saudita
A religião na Arábia Saudita é dominada e fortemente influenciada pela vertente salafista do islão sunita e por sua ideologia wahhabita, uma ideologia política e religiosa que recebeu esse nome em referência a Muhammad ibn Abd al-Wahhab, pregador sunita, estudioso e teólogo islâmico do século XVIII, oriundo da região de Négede, na porção central da Arábia. Ele foi o fundador do movimento revivalista e reformista conhecido como wahhabismo.
Consequentemente, a liberdade religiosa é restringida tanto para os cidadãos sauditas quanto para os estrangeiros residentes no país. A celebração pública ou a promoção de qualquer outra religião é, em geral, proibida. Israel
Em Israel, os casamentos são celebrados por autoridades religiosas oficialmente reconhecidas. Assim, a maioria dos casamentos inter-religiosos não é realizada de fato sem uma conversão religiosa reconhecida.
Esse sistema é, em grande medida, uma continuidade do sistema millet do Império Otomano, no qual diferentes comunidades eram autorizadas a administrar seus próprios assuntos internos. Na religião drusa, não há casamento entre drusos e não drusos, e, no judaísmo tradicional, não há casamento entre um judeu e um gentio. Assim, casamentos inter-religiosos em que um dos cônjuges é judeu ou druso não são reconhecidos pelo Estado.
Os cádis muçulmanos ocasionalmente celebram casamentos entre um homem muçulmano e uma mulher judia ou cristã, e sacerdotes cristãos, em casos específicos, celebram casamentos entre um cristão ou uma cristã e uma pessoa não cristã. Em determinadas circunstâncias, esses casamentos são posteriormente reconhecidos e, em qualquer caso, o Estado reconhece todos os casamentos inter-religiosos realizados em outros países.
Hitbolelut, termo que significa assimilação em hebraico, é utilizado principalmente para se referir, geralmente de forma pejorativa, aos judeus que se casam com pessoas de fora do povo judeu. O termo possui forte ressonância em Israel e entre muitos judeus em todo o mundo, pois, historicamente, casar-se fora da comunidade judaica significava abandoná-la para ser assimilado pela cultura dominante.
Possivelmente em razão dessas normas, os casamentos entre uma pessoa judia e uma pessoa não judia são extremamente raros em Israel. Um estudo do Pew Research Center, realizado entre 2014 e 2015, indicou que apenas cerca de 2% dos judeus faziam parte de um casamento inter-religioso. Além disso, aproximadamente 97% dos judeus entrevistados afirmaram que não se sentiriam completamente confortáveis caso um filho se casasse com uma pessoa muçulmana, enquanto 89% expressaram opinião semelhante em relação a um casamento com uma pessoa cristã. Líbano
Dependendo da filiação sectária dos cônjuges, diferentes regimes jurídicos regulam os casamentos inter-religiosos. Como o casamento civil secular não é permitido no Líbano, as leis religiosas das 18 seitas religiosas oficialmente reconhecidas devem ser observadas para a celebração do casamento. Isso resulta em diferentes restrições, como a impossibilidade de cristãos se casarem com não cristãos em uma igreja, ou de mulheres muçulmanas se casarem com homens cristãos ou drusos, salvo se um dos cônjuges se converter à religião do outro. Para os casais libaneses, uma alternativa para contornar a necessidade de conversão é celebrar um casamento civil em Chipre. Com base em uma comparação entre os registros eleitorais de 2011 e de 2018, foi constatado um crescimento lento, porém contínuo, dos casamentos mistos. Os dados mostram que a proporção de casamentos inter-religiosos entre libaneses, sem conversão religiosa, aumentou de 0,9% em 2011 para 1,31% em 2018. De modo geral, os casamentos inter-religiosos representam entre 2% e 5% de todos os casamentos celebrados no Líbano.
Em seu livro Love Across Difference: Mixed Marriage in Lebanon, Lara Deeb analisa a trajetória de diversos casais inter-religiosos e suas experiências vividas. Na obra, a autora descreve as estratégias adotadas pelos cônjuges para continuar praticando suas respectivas religiões e lidar com as diferenças religiosas na educação dos filhos. Além disso, o livro aborda as reações familiares — tanto da família nuclear quanto da família extensa — aos casamentos inter-religiosos, bem como questões relacionadas à reputação, à classe social e aos preconceitos religiosos no Líbano. As reações retratadas variam amplamente, desde a aceitação imediata até a rejeição e o ostracismo. Deeb discute não apenas os casamentos inter-religiosos, mas também destaca que problemas semelhantes surgem em casamentos entre diferentes denominações religiosas. Segundo a autora, o casamento inter-religioso vem se tornando cada vez mais aceito no Líbano. Entretanto, também cresce a divergência entre aqueles que o apoiam e aqueles que se opõem a ele. Por religião
Religiões abraâmicas
Fé Bahá'í