Minchiate, também conhecido como Germini ou Tarocchi fiorentini (triunfo florentino), é um jogo de vazas da família do Triunfo, surgido no início do século XVI, originário de Florença, Itália, hoje praticamente extinto. O termo também designa o baralho especial de 97 cartas usado no jogo, semelhante ao baralho de Triunfo tradicional mas com um naipe de triunfos muito mais numeroso — 40, em vez dos clássicos 21. Segundo a classificação proposta por Michael Dummett, o Minchiate integra o chamado «Tipo I» das variantes de Triunfo, a tradição do centro e sul de Itália, juntamente com o tarocchino de Bolonha e o trunfu sicilianoPratesi, Franco. Giochi di carte nel Granducato di Toscana. Roma: Aracne, 2015..
Etimologia A palavra minchiate vem de um termo dialetal que significa «disparate» ou «ninharia», derivado de mencla, forma vulgar do latim mentula, que designa o órgão genital masculinoAlinei, Mario. "L'etimologia di it. minchione, it. mer. minchia e lat. mentula". Quaderni di Semantica, Il Mulino, n.º 1, 2015, pp. 407–415. ISSN 0393-1226.. Em italiano, minchione significa «tolo» e minchionare significa «troçar de alguém». O sentido pretendido poderá ser «o jogo do louco», visto que a carta «O Louco» (ou «A Desculpa») ocupa um lugar de destaque em todas as variantes de Triunfo. No tarocchino, sminchiate é um sinal usado para comunicar com um parceiro de equipa.
História Florença é uma das candidatas ao título de berço do Triunfo. A referência mais antiga a cartas de triunfo, então conhecidas como trionfi, data de 1440, quando um notário florentino, Giusto Giusti, registou a entrega de dois baralhos a Sigismondo Pandolfo MalatestaPratesi, Franco. "Studies on Giusto Giusti". trionfi.com. Consultado em 3 de março de 2016.. Uma provisão do município de Florença de 10 de dezembro de 1450 lista-o entre os jogos permitidos na cidadeDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993. ISBN 88-7088-272-1, p. 241..
A referência mais antiga ao termo minchiate encontra-se numa carta de 1466 de Luigi Pulci a Lourenço de Médici; uma segunda ocorrência surge numa sentença de condenação por blasfémia de 20 de maio de 1471, conservada no Arquivo Estatal de FlorençaPratesi, Franco. Giochi di carte nella Repubblica Fiorentina. Roma: Aracne, 2016.. Julga-se, contudo, que nessa época o termo ainda designava o jogo original de 78 cartas, tal como atestado pelas folhas de Rosenwald — folhas por cortar de Triunfo florentino, datadas entre 1480 e 1500"Rosenwald sheets". National Gallery of Art. Consultado em 13 de outubro de 2017. —, que apresentam diferenças em relação ao baralho definitivo de 97 cartas. Na ordenação de Rosenwald, os triunfos baixos seguem a sequência Justiça, Força, Carro e Roda da Fortuna, ao passo que no baralho de 97 cartas a ordem é Força, Justiça, Roda e Carro. Além disso, as folhas de Rosenwald incluem A Papisa como segundo triunfo, carta ausente do baralho definitivo. Uma canção florentina de cerca de 1500 lista os triunfos quase da mesma forma que as folhas de Rosenwald, mas sem a Papisa, o que sugere que esta carta foi então abandonadaDepaulis, Thierry. "Early Italian Lists of Tarot Trumps". The Playing-Card, vol. 36, n.º 1, 2007, pp. 39–47..
O baralho de 97 cartas foi inicialmente conhecido como germini, em homenagem à carta dos Gémeos (XXXV), o mais elevado dos novos triunfos introduzidos — provável corruptela do latim GeminiDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993, pp. 254–255.. O primeiro registo do termo germini remonta a 1506Pratesi, Franco. "1499-1506: Firenze". The Playing-Card, vol. 44, n.º 1, 2015, pp. 61–71., embora a primeira citação textual conhecida se encontre no Capitolo in lode della Zanzara, de Agnolo Bronzino, datável de 1530-1535Renzoni, Nazario. "Some remarks on Germini in Bronzino's Capitolo in lode della Zanzara". The Playing-Card, vol. 41, n.º 2, 2012, pp. 85–87.. Este baralho resultou da inserção de vinte novos triunfos entre o triunfo 15 e A Estrela, que passou a ser o triunfo 36. O novo baralho revelou-se tão popular que a produção do antigo baralho de 78 cartas cessou, e o antigo nome minchiate passou a designar o baralho maior ao longo do século XVIIDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993, p. 259..
O jogo espalhou-se de Florença para o resto da Itália e para a França a partir de 1600. Na Sicília era chamado gallerini; na Ligúria, ganellini. Segundo uma tradição atribuída a Francesco Maria Emanuele Gaetani, o jogo teria sido levado à Sicília pelo vice-rei Francesco Caetani, duque de Sermoneta, em 1663, hipótese hoje considerada pouco verosímil, associando-se antes a difusão à emigração temporária de sicilianos para GénovaDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993, pp. 259 e 261–262.. As regras próprias destas regiões perderam-se, sabendo-se apenas, por referências dispersas, que eram bastante diferentes do jogo florentinoDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993, p. 261.. Todas as regras conhecidas descendem da variante praticada no Grão-Ducado da Toscana e nos Estados Pontifícios.
A primeira descrição do baralho e do jogo surgiu numa nota de Paolo Minucci ao poema heróico-cómico Il Malmantile Racquistato, de Lorenzo Lippi, publicado postumamente em 1676. Nessa altura era ainda um jogo individual, praticado em tabernas e locais públicos; só mais tarde se tornaria um jogo de parceria, cada vez mais popular nos salões nobres do século XVIII, como atesta o Regolamento del nobilissimo gioco delle minchiate, publicado por Raffaele Peveroni em 1727, entre outros manuais editados até ao primeiro quartel do século XIX. O jogo foi também descrito detalhadamente por Romain Merlin na sua obra Origine des cartes à jouer, publicada em Paris em 1869, sendo ainda conhecido na Alemanha no final do século XVIII.
A popularidade do minchiate foi diminuindo progressivamente também em Florença, sendo substituído nos salões nobres pelo whist e pelas suas variantes já na segunda metade do século XIXDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993, p. 262.. Curiosamente, o baralho continuou a ser produzido em Bolonha até ao final do século XIX, e uma versão com naipes franceses e um quadragésimo primeiro triunfo chegou a ser impressa em Génova já em 1932Dummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993, p. 262., possivelmente destinada a colecionadores ou a jogos infantis — extinguindo-se, sem deixar continuidade viva, ao contrário de outras tradições italianas de Triunfo, como o Triunfo piemontês — hoje o principal representante do jogo em Itália — ou o Triunfo bolonhês e o Triunfo siciliano, ainda praticados em contextos mais restritos.
O baralho
Naipes O baralho de minchiate distingue-se de outros baralhos de Triunfo em vários aspetos. A diferença mais evidente é o número quase duplicado de triunfos: são 40, além da carta sem número O Louco (ou «A Desculpa»). O minchiate utiliza algarismos romanos nos triunfos; devido ao elevado número destes, os jogadores costumavam referir-se-lhes apenas pelo número, com exceção das chamadas arie. O baralho completo é composto por 97 cartas: 56 cartas de naipe (14 por naipe), 40 triunfos e O LoucoDummett, Michael. Il Mondo e l'Angelo. I Tarocchi e la loro storia. Nápoles: Bibliopolis, 1993..
+ Naipes do Minchiate Naipe 50x100px 50x90px 70px 50x100px PortuguêsEspadasCopasOurosPaus Italiano Spade Coppe Denari Bastoni Espanhol Espadas Copas Oros Bastos
Existem quatro naipes latinos tradicionais — espadas, copas, ouros e paus —, cada um com cartas numerais de ás a dez e quatro figuras: valete, cavalo, dama e rei. Nos naipes de copas e ouros, os valetes masculinos são substituídos por figuras femininas, as fantine; os cavalos são frequentemente representados como centauros ou esfinges. Os naipes seguem o padrão português, à exceção dos paus, que seguem o sistema do norte de Itália. Este padrão gráfico morreu por volta de 1900"Earlier Minchiate pattern". International Playing-Card Society. Consultado em 2 de março de 2016..
O baralho seguinte, produzido em Florença entre 1860 e 1890, ilustra as cartas de naipe e as figuras deste padrão clássico"Jeu de Minchiate: jeu de cartes, estampe". Gallica. Consultado em 2024.:
+ Baralho de Minchiate (1860-1890) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Valete Cavalo Dama Rei Paus 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px Ouros 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px Copas 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px Espadas 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px 50px
A República de Lucca produziu a sua própria versão do baralho, semelhante à florentina mas com diferenças gráficas: os reis surgem sentados sob arcos, os cavalos são figuras humanas montadas a cavalo, todos os valetes são masculinos e O Louco aparece a brincar com um cão. Este padrão desapareceu no século XVIIIMann, Sylvia. All Cards on the Table. Leinfelden: Deutsches Spielkarten-Museum, 1990, pp. 36–40..
Existiram dois padrões clássicos de baralho — o antigo e o recente —, que coexistiram durante quase dois séculos. O padrão antigo remonta ao início do século XVI, ou mesmo ao final do XV. O padrão recente surgiu no início do século XVIII como edição de luxo, com os oito triunfos mais altos a perderem o fundo vermelho; por volta de 1820 foi redesenhado num estilo mais plano e simples, com alterações a um quarto dos triunfos e das figuras e a reintrodução do fundo vermelho nos triunfos altos"Later Minchiate pattern". International Playing-Card Society. Consultado em 2 de março de 2016.. Este último padrão sobreviveu na Ligúria até à década de 1930.
Triunfos Os oito triunfos mais elevados têm fundo vermelho; os cinco mais altos, denominados arie («ares»), não são numerados. Alguns baralhos incluíam uma 98.ª carta, também de fundo vermelho e sem número, representando uma mulher nua a correr dentro de uma roda, possivelmente FortunaDummett, Michael; McLeod, John. A History of Games Played with the Tarot Pack. Lewiston: The Edwin Mellen Press, 2004, pp. 315–355.; sabe-se pouco sobre o seu lugar na hierarquia do jogo. Refere-se a existência de baralhos de 98 cartas na Sicília, no início do século XVIII, mas só sobreviveram exemplares provenientes de Génova.
Comparando a folha de Rosenwald com listas de triunfos do século XVI, conclui-se que A Papisa (segundo triunfo em muitos baralhos de Triunfo) foi provavelmente abandonada no final do século XV, o que fez descer uma posição a todos os triunfos acima do primeiro. A Imperatriz, o Imperador e o Papa tornaram-se os novos triunfos II, III e IIII, este último passando a usar uma coroa secular em vez da tiara papal. Como os cinco triunfos mais baixos eram coletivamente conhecidos como papi («papas»), O Amor foi acrescentado a este grupo após a sua descida de posição. O escritor francês Romain Merlin (1869) é a única fonte a atribuir nomes próprios aos triunfos II, III e IIII — respetivamente o Grão-Duque, o Imperador do Ocidente e o Imperador do OrienteMerlin, Romain. Origine des cartes à jouer. Paris, 1869. —, embora os jogadores costumassem simplesmente designá-los pelo número («papa 2», «papa 3», etc.).
A Justiça, a Força e a Temperança são as três virtudes cardeais clássicas, já presentes nos baralhos de Triunfo tradicionais. O minchiate acrescenta a virtude cardeal em falta — a Prudência — e insere-a junto das três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. É o único baralho conhecido a incluir todas as sete virtudes; o único outro a incluir as virtudes teologais foi o baralho Visconti-Sforza Cary-Yale.