Almucauquis () foi o título pelo qual as fontes islâmicas passaram a designar o governador bizantino do Egito que manteve relações diplomáticas com o profeta islâmico Maomé. Tradicionalmente identificado como Ciro de Alexandria, patriarca melquita e governador do Egito durante o reinado do imperador Heráclio, Almucauquis recebeu a carta na qual Maomé o convidava a aceitar o islã e respondeu enviando diversos presentes, entre os quais as irmãs Maria e Sirim, a mula Duldul, um jumento e outras valiosas dádivas. Embora a historicidade de alguns episódios preservados pela tradição islâmica permaneça objeto de debate, a correspondência entre Maomé e Almucauquis ocupa lugar de destaque nas biografias do profeta e na historiografia islâmica. A origem do título "Almucauquis" permanece incerta. A hipótese mais aceita sustenta que o termo deriva do epíteto grego Kaukasios ("caucasiano"), atribuído a Ciro em razão de sua atuação anterior na Cólquida, no Cáucaso, e posteriormente transmitido ao árabe por intermédio do copta. Nas fontes islâmicas, Almucauquis também aparece identificado pelos nomes Juraije ibne Mina, Juraije ibne Curcube ou Ibne Curcube, além de diversos títulos como "rei do Egito", "grande dos coptas" e "governante do Egito". Além de sua correspondência com Maomé, Almucauquis desempenhou papel relevante nos acontecimentos que culminaram na conquista muçulmana do Egito. As fontes islâmicas e parte da historiografia moderna o apresentam como um dos principais negociadores da rendição do país, procurando evitar maiores derramamentos de sangue ao favorecer um acordo entre os bizantinos e o exército de Anre ibne Alas. Sua atuação, entretanto, levou-o a entrar em conflito com setores da administração imperial bizantina, circunstância que resultou em seu afastamento do governo pouco antes da conquista definitiva de Alexandria pelos muçulmanos.

Nome e identidade

A origem do título Almucauquis permanece objeto de debate entre os estudiosos. A hipótese atualmente mais aceita sustenta que a palavra deriva do epíteto grego Kaukasios ("caucasiano"), atribuído ao patriarca Ciro em razão de sua atuação anterior na Cólquida, região do Cáucaso. Segundo essa interpretação, o termo teria passado do grego ao copta e, posteriormente, ao árabe na forma Almucauquis (al-Muqawqis). A Encyclopaedia of Islam observa que essa hipótese, proposta inicialmente por Alfred Butler e desenvolvida posteriormente por outros especialistas, é atualmente a explicação predominante para a origem do nome, embora tentativas anteriores tenham procurado relacioná-lo ao árabe ou mesmo ao persa sem resultados considerados satisfatórios. As fontes islâmicas identificam Almucauquis por diferentes nomes e títulos. Além de aparecer como Juraije ibne Mina, Juraije ibne Curcube ou Ibne Curcube, é frequentemente designado como "rei do Egito", "governante do Egito", "emir do Egito" ou "grande dos coptas". A diversidade dessas denominações reflete o fato de que "Almucauquis" não constituía um nome próprio, mas um título empregado pelos autores árabes para designar o governante do Egito na época de Maomé.

A identificação de Almucauquis com Ciro de Alexandria foi durante muito tempo objeto de controvérsia. Alguns autores antigos e modernos propuseram que o título poderia referir-se a outras autoridades egípcias ou bizantinas, chegando mesmo a admitir a existência de mais de um personagem designado por esse nome. Entretanto, a comparação entre as fontes árabes, coptas e bizantinas levou a maioria dos pesquisadores a concluir que o Almucauquis das tradições islâmicas corresponde efetivamente a Ciro de Alexandria, patriarca melquita e governador do Egito durante o reinado de Heráclio. A Encyclopaedia of Islam considera que as atividades atribuídas a Almucauquis pelos historiadores muçulmanos coincidem, em seus aspectos essenciais, com aquelas desempenhadas por Ciro nas fontes cristãs. A cronologia da carreira de Ciro, contudo, apresenta algumas dificuldades. As fontes islâmicas afirmam que ele já governava Alexandria havia onze anos quando a cidade foi conquistada pelos muçulmanos em 642, o que situaria sua nomeação por volta de 631. Por outro lado, os historiadores costumam relacionar sua ascensão ao governo do Egito à vitória de Heráclio sobre os sassânidas em Nínive, em 627, quando o imperador procurou reorganizar a administração provincial e promover a política monotelita destinada a reconciliar as diferentes correntes do cristianismo oriental. Apesar dessas divergências cronológicas, a identificação entre Ciro e Almucauquis é hoje amplamente aceita pela historiografia especializada.

Governo do Egito

thumb|esquerda|Soldo de Heráclio

Segundo a tradição islâmica e a maior parte da historiografia moderna, Almucauquis foi nomeado por Heráclio para governar o Egito após a vitória bizantina sobre os sassânidas na Batalha de Nínive, em 627, quando o imperador reorganizou a administração das províncias orientais do império. Entretanto, algumas fontes islâmicas afirmam que, por ocasião da conquista muçulmana de Alexandria em 642, ele já exercia suas funções havia onze anos, o que situaria sua nomeação por volta de 631. A aparente divergência cronológica permanece sem solução definitiva, embora não altere a identificação de Almucauquis com Ciro de Alexandria aceita pela maior parte dos estudiosos. Além do patriarcado melquita de Alexandria, Almucauquis recebeu amplos poderes administrativos concedidos por Heráclio. Como parte da política imperial destinada a reconciliar as diferentes correntes cristãs do Oriente mediante a doutrina do monotelismo, foi investido simultaneamente de autoridade religiosa, civil, militar e fiscal, acumulando funções incomuns mesmo para os padrões da administração bizantina. Nessa condição, tornou-se o principal representante do governo imperial no Egito, exercendo supervisão tanto sobre os assuntos eclesiásticos quanto sobre a administração provincial.

As fontes islâmicas atribuem ao seu governo uma política fiscal particularmente rigorosa. Segundo esses relatos, a população egípcia estava obrigada ao pagamento anual de dezenove milhões de dinares em tributos, mas Almucauquis arrecadaria cerca de vinte milhões, impondo pesada pressão tributária sobretudo sobre os coptas. Diversos historiadores ocidentais citados pela TDV İslâm Ansiklopedisi observam igualmente que sua tentativa de impor o monotelismo encontrou forte resistência entre os cristãos coptas, muitos dos quais teriam sido forçados a aceitar a nova doutrina ou abandonar o país diante das perseguições promovidas pela administração imperial. A Encyclopaedia of Islam observa que os relatos árabes sobre Almucauquis correspondem, em linhas gerais, às informações preservadas pelas fontes cristãs acerca da atuação de Ciro de Alexandria. Embora as tradições islâmicas empreguem um título em vez de seu nome próprio, ambas as tradições o apresentam como o principal representante da autoridade bizantina no Egito durante os anos que antecederam a conquista muçulmana.

Relações com Maomé

miniatura|Desenho da carta de Maomé a Almucalquis, que foi descoberta no Egito em 1858 miniatura|Conquista muçulmana do Egito

O primeiro contato conhecido entre Almucauquis e os muçulmanos ocorreu em 628, quando Maomé lhe enviou, por intermédio do companheiro , uma carta convidando-o a abraçar o islã. Embora alguns estudiosos modernos tenham considerado essa correspondência uma elaboração posterior da tradição islâmica, as fontes históricas muçulmanas concordam em afirmar que a carta foi efetivamente enviada. Segundo a tradição islâmica, Almucauquis recebeu Hátibe com distinção e manteve-o como hóspede durante cinco dias. Nesse período, procurou obter informações sobre Maomé e sobre a nova religião antes de preparar sua resposta. Ao despedir o emissário, enviou-lhe uma carta respeitosa destinada ao profeta, sem, contudo, aceitar formalmente sua mensagem nem converter-se ao islã. A Encyclopaedia of Islam observa que as fontes islâmicas apresentam essa resposta como cortês e diplomática, em contraste com a rejeição manifestada por outros governantes que receberam cartas semelhantes.

Juntamente com a carta, Almucauquis enviou diversos presentes a Maomé. Entre eles encontravam-se as irmãs Maria e Sirim, um eunuco, mil miscais de ouro, roupas e tecidos de grande valor, perfumes, um jumento e a mula Duldul, que posteriormente seria dada por Maomé a Ali ibne Abi Talibe. Esses presentes passaram a ocupar lugar de destaque na tradição islâmica em razão do papel posteriormente desempenhado por alguns deles, sobretudo Maria, mãe de Ibraim, e Duldul, que se tornou a célebre montaria de Ali. Segundo a TDV İslâm Ansiklopedisi, não há notícia de novos contatos entre Almucauquis e os muçulmanos durante a vida de Maomé além dessa troca de correspondência. A tradição preserva, contudo, o relato de que, durante o califado de Abu Becre, uma nova carta lhe teria sido enviada por intermédio de Hátibe ibne Abi Baltaa, ocasião em que ambos teriam firmado um acordo cujo conteúdo permaneceu desconhecido.

Conquista muçulmana do Egito

Quando o exército muçulmano comandado por Anre ibne Alas invadiu o Egito em 639, Almucauquis encontrava-se à frente tanto da administração civil quanto da Igreja melquita da província. Após as primeiras vitórias muçulmanas e o avanço sobre a fortaleza da Babilônia, tornou-se um dos principais defensores de uma solução negociada para o conflito. Convencido de que o Império Bizantino dificilmente conseguiria conservar o Egito, procurou evitar a destruição do país mediante um acordo que garantisse a retirada das tropas imperiais em troca do pagamento de tributos pelos habitantes da província. Segundo as fontes islâmicas, Almucauquis iniciou negociações com Anre ibne Alas durante o cerco da Babilônia. As conversações resultaram num tratado pelo qual os bizantinos se comprometiam a evacuar gradualmente o Egito, enquanto os habitantes locais permaneceriam sob proteção mediante o pagamento da jizia. Embora o acordo tenha encontrado oposição de parte dos comandantes bizantinos e precisasse da aprovação do imperador Heráclio, acabou servindo de base para a capitulação de importantes centros urbanos egípcios e para a posterior rendição de Alexandria.

A disposição de Almucauquis em negociar provocou forte reação na corte imperial. Heráclio interpretou sua conduta como excessivamente conciliadora e determinou seu afastamento do governo egípcio, substituindo-o por um comandante disposto a prosseguir a resistência militar. Pouco depois, contudo, diante do agravamento da situação e da morte do imperador em 641, Almucauquis foi reconduzido às suas funções e retomou as negociações com os muçulmanos. As fontes árabes atribuem a Almucauquis papel decisivo na conclusão do tratado que culminou na evacuação definitiva de Alexandria pelas forças bizantinas em setembro de 642. Segundo essa tradição, ele teria procurado preservar a população e reduzir os danos materiais decorrentes da guerra, preferindo a celebração de um acordo à continuação de um conflito cuja derrota considerava inevitável. A Encyclopaedia of Islam observa que, embora alguns detalhes preservados pelas fontes islâmicas permaneçam objeto de discussão, o protagonismo de Ciro de Alexandria nas negociações que precederam a perda definitiva do Egito pelo Império Bizantino é confirmado também pelas fontes cristãs. Almucauquis morreu pouco depois da conclusão dessas negociações, provavelmente em 642, não chegando a testemunhar a consolidação do domínio muçulmano sobre o Egito. Com sua morte, desapareceu a principal autoridade bizantina que havia conduzido simultaneamente a administração civil, o patriarcado melquita e as tratativas diplomáticas que marcaram a transição do Egito do domínio bizantino para o islâmico.

Bibliografia

Categoria:Conquista muçulmana do Egito