Um incidente internacional envolvendo migração teve início no final de julho de 2026, quando cerca de 72 000 migrantes cruzaram ilegalmente a fronteira de Marrocos para a cidade autônoma espanhola de Ceuta. A maioria entrou nadando ao redor do quebra-mar de Tarajal ou atravessando a pé ao longo da costa, furando a barreira fronteiriça de Ceuta e sobrecarregando as instalações de acolhimento locais, levando o governo local a solicitar que a Espanha declarasse uma emergência nacional. Um número menor de migrantes também entrou em Melilla, atravessando a divisória da fronteira do outro exclave espanhol no norte africano.

O incidente ocorreu três semanas depois de o Supremo Tribunal de Espanha ter decidido que o procedimento legal conhecido como retorno sumário não podia ser aplicado aos migrantes interceptados enquanto tentavam chegar a Ceuta ou Melilla por via marítima, exigindo, em vez disso, a utilização do procedimento de imigração normal. O Ministério do Interior da Espanha afirmou que as redes de contrabando de migrantes exploraram a decisão para incentivar as travessias marítimas.

Migrantes entrevistados afirmaram que as autoridades marroquinas relaxaram as restrições na fronteira, permitiram e incentivaram a passagem, possivelmente para pressionar politicamente o governo espanhol.

Antecedentes Incidente fronteiriço de 2021 entre Espanha e Marrocos O incidente foi frequentemente comparado pela mídia internacional ao incidente de fronteira Marrocos-Espanha de 2021, durante o qual cerca de migrantes entraram em Ceuta em dois dias, principalmente nadando ao redor dos quebra-mares, e entre os migrantes existiam várias crianças que não estavam acompanhadas. Esse episódio aconteceu após uma deterioração nas relações diplomáticas entre Espanha e Marrocos, que aconteceu principalmente por causa da hospitalização de Brahim Ghali, que é o secretário geral da Frente Polisário, que foi tratado no Hospital San Pedro em Logronho devido a um caso de COVID-19, em que a Espanha não enviou um aviso prévio a Marrocos. A resposta inicialmente limitada das forças de segurança de Marrocos foi amplamente interpretada em Espanha como uma forma de pressão diplomática. Isso expôs os limites da capacidade de acolhimento de Ceuta e a dependência da Espanha na cooperação de Marrocos na fronteira.

Massacre de Melilha de 2022

Em 24 de Junho de 2022, cerca de 2000 migrantes e requerentes de asilo se reuniram nas primeiras horas desse dia para cruzar a fronteira de Melilha e entrar em território espanhol. Após um pisoteamento acontecer num conflito entre forças espanholas e marroquinas, 23 migrantes e requerentes de asilo foram mortos.

Aumento das tentativas de travessia (2024-2025) As tentativas coletivas de entrar por terra e por mar continuaram nos anos subsequentes. Em Agosto de 2024, várias centenas de pesssoas tentaram chegar a Ceuta nadando pela quebra-mares, apresentando-se do nevoeiro. No mês seguinte, autoridades marroquinas mobilizaram uma grande operação de segurança para prevenir uma migração em massa que tinha sido organizada via redes sociais, que incutiu milhares de jovens a se reuniram perto da fronteira e tentarem entrar em território espanhol juntos. Em Julho de 2025, pelo menos 54 menores desacompanhados e cerca de 30 adultos chegaram a Ceuta nadando de Marrocos, novamente explorando os problemas de visibilidade.

Regularização em massa de migrantes na Espanha em 2026 Em Janeiro de 2026, o Primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez anunciou um programa de regularização para migrantes que viviam ilegalmente em Espanha; mais de um milhão de pessoas candidataram-se, excedendo as projeções do governo por cerca de um quarto. A ação foi criticada na época pela oposição como inconstitucional e ilegal. Depois, em Agosto de 2026, em uma carta à Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, 22 chefes de governo da União Europeia, a maioria deles da centro-direita ou da extrema-direita, descreveram a decisão de regularização da Espanha como um importante "fator de atração" que levou à crise fronteiriça da Ceuta. Essa iniciativa, liderada pela primeira-ministra italiana Georgia Meloni, foi inserida no contexto das forças de direita europeias unidas contra Sánchez. Além disso, a Itália e a Alemanha, em particular, foram notadas pelo Financial Times pelo que consideraram hipocrisia, uma vez que "também legalizaram discretamente o estatuto das pessoas que chegaram irregularmente ao seu próprio território".

Desenvolvimento Em 31 de julho, o governo espanhol declarou que cerca de migrantes entraram em Ceuta em questão de horas, desde a manhã do dia anterior. Os centros de acolhimento, especialmente os destinados a menores não acompanhados, excederam a sua capacidade, deixando milhares de migrantes sem alojamento. As autoridades espanholas e da cidade marroquina de Beni Ansar fecharam a fronteira com Melilla após tentativas de entrada de migrantes.

Pelo menos 141 pessoas morreram afogadas ao tentar nadar até o quebra-mar, sendo 78 encontradas em águas espanholas e 63 nas águas marroquinas. Diversos meios de comunicação também relataram a descoberta de dezenas de corpos nas proximidades da costa de Ceuta e do norte de Marrocos durante as semanas anteriores, associados a tentativas de travessia por mar, embora nem todas as mortes pudessem ser diretamente relacionadas aos eventos da crise de julho de 2026.

Foram relatadas explosões no lado marroquino da fronteira. Vários ataques incendiários foram relatados em Beni Ansar, perto da fronteira com Melilla.

O governo espanhol rejeitou o pedido de Ceuta para declarar estado de emergência nacional, argumentando que a migração não se enquadra no quadro legal que rege tais declarações. Em vez disso, anunciou o envio de mais policiais e uma coordenação mais estreita com as autoridades marroquinas. O Ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, viajou para Ceuta para supervisionar a resposta do governo.

No dia 31, o governo espanhol declarou que o fluxo migratório estava em processo de reversão, e que indivíduos já haviam sido repatriados de volta ao Marrocos. Um dos marroquinos que entrou em Ceuta afirmou que não havia comida para eles na cidade, e as forças espanholas expulsaram de lá os que não saíram por conta própria.

Em 4 de agosto, reuniram-se as lideranças dos 27 países da União Europeia para discutir a crise e os conflitos internos decorrentes do evento. O ministro Marlaska assegurou que, dos 72 000 migrantes, apenas 2 000 permanecem em território espanhol. O ministro irlandês Jim O’Callaghan declarou: "Felicitamos a Espanha por sua rápida resposta à situação em Ceuta e expressamos nossas mais sentidas condolências pela trágica perda de vidas. As fronteiras externas da UE são responsabilidade compartilhada, e a migração requer uma resposta europeia unificada". As demais lideranças também elogiaram a gestão da crise por parte do governo espanhol. Em resposta à suspensão do acordo de Schengen no território italiano, Marlaska classificou essas medidas como "desnecessárias" e que pediu que "sejam suspensas o quanto antes", argumentando que o incidente não comprometeu a circulação do espaço Schengen e garantiu o rigor dos protocolos do tráfego de Ceuta com o continente. "Nenhuma pessoa pode sair de Ceuta sem um controle documental efetivo, nem mesmo os próprios cidadãos da União Europeia. Nenhuma pessoa pode se mover livremente de Ceuta para o continente”, afirmou o ministro.

Reações O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, considerou a crise inédita e uma violação da soberania territorial da Espanha, e a atribuiu a boatos espalhados por máfias de tráfico humano. Ele anunciou o envio de reforços de 60 militares, e foi presencialmente a Ceuta acompanhar os esforços de repatriação.

O governo da Itália, liderado por Giorgia Meloni, anunciou a suspensão da aplicação do acordo de Schengen, que prevê a abolição de controles fronteiriços internos entre seus signatários, em relação à chegada de indivíduos oriundos da Espanha que não eram cidadãos da União Europeia, e fechou suas fronteiras aéreas e marítimas com o país, apesar de Ceuta e Melilla não estarem sujeitas às regras do Espaço Schengen e possuírem um controle migratório especial para viagens entre os enclaves e o resto do território espanhol e europeu. Itália, Finlândia e Dinamarca solicitaram que a Espanha fosse suspensa do acordo, o que foi rejeitado pela Comissão Europeia, considerando que o tratado não prevê a possibilidade de suspensão de um Estado-membro.

O primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, afirmou que a crise era motivo para reforçar a vigilância nas fronteiras terrestre e marítima, mas rejeitou a suspensão das regras de Schengen. França e Alemanha também anunciaram reforços nos controles fronteiriços. O antigo Secretário de Estado dos Assuntos Europeus e comentador político Bruno Maçães afirmou na rede social X que os Estados Unidos e Israel estavam «profundamente envolvidos e intensamente ativos» na utilização do incidente para criticar o governo de Sánchez.

Em carta aberta, 22 países do bloco europeu solicitaram ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen e ao primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, uma reunião emergencial prevista em 4 de agosto para o debate da crise. O documento almeja uma ação conjunta em prol do reforço das fronteiras e atribui ao governo espanhol o desencadeamento da crise, em razão da decisão do Supremo Tribunal Espanhol em conceder autorizações de residência à migrantes que viviam em situação irregular. Sánchez nega essa relação, classificando-a como "egoísta, polarizante e ilegal" movida por "preconceitos, notícias falsas e interesse político", em carta dirigida à UE.

Nigel Farage, líder do Reform UK, criticou as políticas migratórias de Espanha, argumentando que estas incentivavam a migração ilegal e alertando que situações semelhantes se poderiam propagar ao Reino Unido e à Europa, apelando a controlos fronteiriços mais rigorosos e descrevendo a crise como um desafio mais amplo para a segurança e a governação europeias.

Ao final da oração do Angelus no dia 2 de agosto, Papa Leão XIV demonstrou preocupação com os eventos em Ceuta e fez um apelo para que sejam tomadas medidas que almejam a "paz, estabilidade e justiça".

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