A Era Compostelana ou Época de Xelmírez foi uma das épocas de maior brilho e de maior desenvolvimento económico da história da Galiza. Desenvolveu-se durante o século XII, na sequência do período de regência do arcebispo Xelmírez da cidade de Santiago de Compostela.
Esta etapa da história da Galiza é definida assim por Ramón Villares:
Evolução
A Era Compostelana parte do contexto de uma época de crescimento populacional e de expansão do fenómeno urbano. Isto propiciou que surgissem ou que reabrissem com maior força o artesanato e o comércio, este último motivado em boa parte pelos excedentes resultantes da expansão da agricultura. Também durante esta época nasceu o Caminho de Santiago como fonte de receitas e como a ponte que comunicou, em quase todos os sentidos, a Galiza com o resto da Europa, sendo boa prova disso a magnífica literatura medieval expressa na língua galego-portuguesa.
miniatura|esquerda|Miniatura medieval do mosteiro de Toxosoutos onde se representa Diego Xelmírez ordenando cavaleiros a dois jovens na companhia de uma comitiva de aristocratas. Século XIII.
Em 17 de setembro de 1111, a nobreza galega, encabeçada pelo conde de Traba e por Diego Xelmírez, coroa em Santiago de Compostela o filho de Urraca e Raimundo de Borgonha, Afonso Raimúndez, como rei — temerosos de que do novo casamento entre Urraca e Afonso de Aragão houvesse descendência, algo que viria a frustrar os seus projetos políticos e, igualmente, os direitos do futuro "Imperador", como legítimo sucessor de Afonso VI —, sendo o futuro Afonso VII de Leão e Castela na cronologia espanhola. Sustentava o novo rei a força militar do bispo compostelano e a do conde Pedro Froilaz de Traba, que fora seu protetor e tutor durante toda a sua infância. O sentido da coroação era preservar os direitos do filho de Raimundo de Borgonha sobre o Reino da Galiza, num momento em que Urraca, já viúva, entregava de facto Castela e Leão ao seu novo marido, Afonso, o Batalhador, de Navarra e Aragão. Na realidade, a cerimónia compostelana teve, num primeiro momento, muito mais de simbólica do que de efetiva. Tanto assim que Xelmírez, Pedro Froilaz e outros nobres galegos se dirigiram posteriormente a Leão para entronizar Afonso Raimúndez na sede régia. No caminho, no lugar concreto de Viadangos, saiu-lhes ao encontro Afonso, o Batalhador, travando batalha e frustrando os planos da nobreza galega. Até à maioridade de Afonso VII e à morte da sua mãe, todo o conjunto noroeste viverá uma etapa de convulsão, com frequentes alianças e contra-alianças entre mãe e filho e ainda entre esta e o seu marido aragonês, com Diego Xelmírez sempre presente nelas.
Neste clima de guerra e aproveitando que Calisto II, tio do rei da Galiza, chega ao Papado, Xelmírez consegue o arcebispado para Santiago de Compostela (1120). As pretensões do bispo eram que Compostela fosse reconhecida como igreja metropolitana da Galiza, contra os direitos tradicionais que Braga detinha desde os tempos de São Martinho de Dume. Calisto II não aceita tanto e decide criar uma nova jurisdição que constituía uma anomalia no poderio eclesiástico peninsular e que, além disso, exercia o seu poder não sobre os territórios galegos em que estava geograficamente localizada, mas sobre a antiga jurisdição de Mérida (atual Estremadura e terras a sul do rio Douro).
Braga ficava assim rodeada pela jurisdição de Compostela e, perante este perigo, converte-se no centro do movimento independentista do Condado de Portugal. Em 1128, o líder da nobreza galega Fernão Peres de Trava e Teresa de Portugal, que exerciam um poder autónomo no espaço galego-português, são vencidos pelo filho desta última, Afonso Henriques. Este seria o germe do futuro reino português separado da Galiza e de Leão. À sua morte, Afonso VII dividiu os seus reinos (1156), cedendo a Galiza e Leão a Fernando II, que já vinha usando o título de "Rei da Galiza" pelo menos desde 1152tenente Gallicie rex Fernandus (códice do mosteiro de Xuvia, 1152); Adefonsus Ymperator, una cum coniuge súa dona Riga dominante regnante in tota Yspania. Sancius rex in Castella. Fredenandus rex in Galicia. (documento do mosteiro de Vilanova de Oscos, 1153); Imperatoris Adefonsus, regis Fernandi imperat Galletia. (ibidem, 1155); Adefonsus dei gratia hispaniarum imperator laudat et confirmat. Sanctius filius eius rex Castelle laudat et confirmat. Fernandus filius eius rex Galletie laudat et confirmat. (documento da catedral de Lugo, 1155)..
Fernando II desenvolve uma política de concessão de cartas de povoamento, que já fora iniciada pelo seu pai, e funda, entre outras, as vilas de Padrón, Ribadavia, Noia e Pontevedra, dando também um impulso fundamental à Catedral de Santiago de Compostela. O seu filho Afonso IX manteve a mesma política, fundando ao longo da costa Betanzos, A Corunha, Baiona, Ferrol e Neda. Estas vilas de reguengo constituem uma verdadeira revolução na estrutura social da época porque, por um lado, inauguram a diversificação económica, rompendo com a autarquia dos séculos anteriores e facilitando o desenvolvimento das atividades piscatórias e pré-industriais orientadas para a transformação de matérias-primas, sobretudo peixe salgado, comercializado através dos portos; por outro lado, servem para consolidar socialmente uma série de "linhagens" ou "casas" que têm a sua origem nos segundos da grande nobreza e na pequena nobreza local, que repartem entre si os cargos municipais e administrativos (alcaides, vereadores, juízes, merinhos). Cria-se assim uma protoburguesia no reino, que chega mesmo a introduzir os seus membros nos mosteiros rurais: priores de nome e fidalgos de vocação, mais preocupados com os interesses das suas casas do que com os ideais monásticos. É uma política de fortalecimento do elemento urbano face à grande nobreza.
Também se produz, ao longo deste século, um rápido crescimento da população que, no meio rural, se traduz em mais braços para trabalhar a terra e, como consequência, abrem-se novos espaços e colonizam-se e lavram-se terras virgens sob a direção dos grandes mosteiros. Isto, unido à melhoria dos instrumentos agrícolas e ao aperfeiçoamento dos sistemas de cultivo, gera um aumento da produtividade que irá repercutir-se no nível de vida. A repartição dessa maior produtividade entre os camponeses e os senhores realiza-se mediante o estabelecimento dos foros.
As transformações económicas e sociais acarretam mudanças profundas na mentalidade e inicia-se, nas vilas, uma renovação religiosa pela mão das ordens mendicantes, sobretudo dos franciscanos, que trazem germes de reformas sociais.
Com estes monarcas, o centro vital dos reinos é, logicamente, Compostela, onde reside a corte galega, e o seu esplendor ficou perpetuado pelo Mestre Mateus no granito da catedral e, sobretudo, no Pórtico da Glória e em Praterias. Da prosperidade do reino dão testemunho também as inúmeras construções românicas que ainda pontilham a Galiza. A outro nível, menos visível, a cultura galega reflete-se na criação literária, que ficou plasmada, por um lado, na redação da Historia Compostellana e do Códice Calixtino.
Afonso VIII deu em herança os reinos da Galiza e de Leão às filhas que tivera com Teresa de Portugal: Dona Sancha e Dona Aldonça. Porventura estes dois reinados, o de Fernando II e o de Afonso IX — na realidade, Afonso VIII na cronologia galego-leonesa —, constituem o momento central da possibilidade de constituir um espaço galego-leonês próprio, num momento em que a monarquia patrimonial dava já lugar à de caráter territorial.
Ver também
Bibliografia
Categoria:História medieval da Galiza Categoria:História de Santiago de Compostela Categoria:História cultural da Galiza