Ibraim ibne Adame (; Bactro – c. 161–162 A.H. / 777–779), nome completo Abu Isaque Ibraim ibne Adame ibne Mançor (), foi um asceta, sufista e tradicionalista muçulmano. Proveniente de uma família árabe estabelecida no Coração, deixou Bactro e levou uma vida itinerante, passando pela Síria, Iraque, Hejaz e Anatólia, onde se sustentou por meio do trabalho manual e participou de expedições contra o Império Bizantino. Manteve relações com destacados ascetas e estudiosos de sua época, entre eles Sufiane Atauri, Alfudail ibne Iade, Abu Hanifa e .

Ibraim tornou-se uma das figuras de destaque do ascetismo islâmico inicial. Seus ensinamentos enfatizavam a renúncia aos bens mundanos, a obtenção de sustento lícito pelo próprio trabalho, a sinceridade, o combate aos desejos do ego e a transformação do conhecimento religioso em prática. Embora também estudasse e transmitisse hádice e fosse geralmente considerado um transmissor confiável, dedicou-se relativamente pouco à transmissão de tradições. Sua reputação entre os sufistas posteriores foi elevada, e seu nome foi incorporado a diferentes tradições espirituais.

Em torno de sua figura desenvolveu-se uma extensa tradição hagiográfica que o transformou num rei ou príncipe de Bactro que abandona o poder e a riqueza para dedicar-se à vida ascética, embora essa condição régia não seja sustentada pelas fontes árabes mais antigas. A narrativa difundiu-se pelas literaturas persa e turca e posteriormente por outras tradições islâmicas, dando origem a numerosas reelaborações de sua vida. Entre as obras que contribuíram para sua difusão está a Tadhkirat al-Awliyāʾ, de Faridadim Atar. Sua figura alcançou ainda a literatura europeia no , quando Leigh Hunt a utilizou no poema Abou Ben Adhem.

Vida

Ibraim ibne Adame nasceu em Bactro, no Coração. Seu nome completo era Abu Isaque Ibraim ibne Adame ibne Mançor, sendo também registrado como Abu Isaque Ibraim ibne Adame ibne Mançor ibne Iázide Alijeli. As fontes divergem quanto à sua origem tribal: algumas associam sua família aos ijelitas, ramo dos becritas, enquanto outras a vinculam aos tamimitas. Há também uma tradição segundo a qual teria nascido em Meca durante uma peregrinação realizada por seus pais. As informações sobre sua condição social são igualmente contraditórias. Algumas fontes posteriores afirmam que seu pai ou avô governava Bactro e apresentam o próprio Ibraim como rei ou príncipe, enquanto outros registros, considerados mais verossímeis, indicam apenas que provinha de uma família rica e prestigiosa, possuidora de numerosos servos. As fontes árabes mais antigas não sustentam sua condição régia, e a imagem do príncipe que renunciou ao trono é considerada um desenvolvimento hagiográfico posterior.

As narrativas sobre sua conversão ao ascetismo são numerosas e de caráter hagiográfico. Na versão mais conhecida, quando ainda jovem, Ibraim teria saído para caçar e ouvido duas vezes uma voz que lhe perguntava se havia sido criado para aquilo e se aquela era a atividade que lhe fora ordenada; ao ouvir a mesma advertência pela terceira vez, proveniente da sela de seu cavalo, decidiu abandonar seus bens e dedicar-se à vida ascética. Segundo essa tradição, partiu em direção a Meca acompanhado por cerca de sessenta jovens que buscavam conhecimento, entre os quais Abedalá ibne Almubaraque, embora posteriormente tenha se separado do grupo. Outras versões relacionam sua transformação à contemplação da pobreza de um mendigo ou a episódios envolvendo . Ibne Asáquir, por outro lado, afirma que Ibraim deixou sua terra natal para escapar de Abu Muslim, hipótese que, caso correta, situaria sua partida de Bactro por volta de 129 A.H. (747). A hipótese moderna de que a narrativa de sua renúncia teria derivado da história de Buda também foi proposta, mas sua validade foi contestada.

Depois de deixar Bactro, Ibraim levou uma vida itinerante e percorreu a Síria, o Iraque, o Hejaz e a Anatólia, passando por cidades como Meca, Medina, Jerusalém, Damasco, Hómece, Beirute, Baçorá, Cufa, Alexandria, Antioquia e Tarso. Teria passado pelo menos vinte e quatro anos em Damasco. Procurava obter o próprio sustento mediante trabalho manual e é descrito trabalhando como guarda de pomares, trabalhador braçal e moleiro. Ao saber em Meca da morte do pai, retornou à sua terra natal, distribuiu os bens segundo o testamento paterno, entregou aos demais herdeiros a parte que lhe cabia e voltou a Meca. Algumas fontes afirmam ainda que havia se casado antes de deixar Bactro e tivera um filho, do qual teria derivado sua cúnia Abu Isaque; aparentemente não voltou a se casar, embora tenha afirmado que constituir família era preferível à condição em que ele próprio vivia.

Ibraim participou de expedições terrestres e navais contra o Império Bizantino e teria morrido durante sua última expedição naval, numa ilha cujo nome não é registrado. As fontes fornecem numerosas datas para sua morte, entre elas 130, 140, 161, 162, 163, 164 e 166 A.H., embora 161 A.H. (777–778) e 162 A.H. (778–779) sejam as mais frequentemente mencionadas. Também divergem quanto ao local de seu sepultamento, que é situado, entre outros lugares, na Síria, em Ascalão, Baguedade, numa ilha bizantina e no Egito. Uma tradição considerada mais plausível, apoiada numa referência de seu sobrinho, o poeta , situa seu túmulo em algum ponto próximo à costa da Síria.

Ascetismo e pensamento

Ibraim manteve relações com alguns dos mais destacados ascetas e estudiosos de seu tempo. Encontrou-se em Meca com Sufiane Atauri e Alfudail ibne Iade, com os quais manteve relações de amizade, e correspondeu-se com Sufiane e . Também esteve relacionado a Abu Hanifa e manteve estreita amizade com , outro importante representante do ascetismo do Coração. Ibraim dividia o ascetismo em três categorias: obrigatório, supererrogatório e de precaução. O primeiro consistia em afastar-se daquilo que era religiosamente proibido; o segundo, em contentar-se com pouco mesmo entre as coisas permitidas; e o terceiro, em evitar aquilo cuja licitude fosse duvidosa. Atribuía especial importância à obtenção de sustento lícito pelo próprio trabalho e considerava a verdadeira pobreza não como simples ausência de bens, mas como a ausência do desejo de possuí-los. Embora ocasionalmente se retirasse para lugares isolados, Ibraim não defendia o afastamento permanente da sociedade. Recomendava frequentar os estudiosos, participar das orações comunitárias, realizar a peregrinação e o jiade e combater os desejos do ego. Também atribuía grande importância à sinceridade e à ocultação das próprias virtudes, afirmando que o homem deveria esconder suas boas ações assim como esconderia seus pecados. Considerava a busca de fama incompatível com a sinceridade e advertia contra o desejo de reconhecimento entre as pessoas. Em suas concepções sobre pecado e arrependimento, sustentava que a insistência no pecado impedia a verdadeira devoção e que o arrependimento exigia o abandono efetivo da conduta censurável.

Sua atitude ascética também se manifestava na relação com o poder político. Ibraim evitava a proximidade dos governantes e criticava aqueles que procuravam obter vantagens materiais por meio deles. Segundo uma tradição, quando o califa Almançor lhe pediu um conselho, respondeu que o governante deveria agir com justiça e recordar a responsabilidade perante Deus, recusando a recompensa que lhe foi oferecida. As máximas atribuídas a Ibraim enfatizam igualmente o desapego em relação aos bens mundanos, a disciplina do ego, o temor de Deus e a necessidade de transformar o conhecimento religioso em prática. Sua reputação entre as gerações posteriores foi elevada. Junaíde Albaguedadi atribuiu-lhe posição destacada entre os primeiros mestres da vida espiritual, e seu nome foi incorporado a diferentes tradições sufistas. Uma corrente conhecida como recebeu dele sua denominação, e Ibraim também foi incorporado à cadeia de transmissão espiritual . Tentativas modernas de explicar seu ascetismo como resultado de influência direta do budismo existente na região de Bactro ou de vinculá-lo ao xiismo foram consideradas insuficientemente fundamentadas.

Atividade como tradicionalista

Ibraim também se dedicou ao estudo e à transmissão de hádice. Entre os estudiosos dos quais recebeu tradições são mencionados Abu Isaque Açabii, , Catada ibne Diama, Maleque ibne Dinar, Alamaxe, Abu Hanifa, Alauzai, Sufiane Atauri, Xaquique Albalqui e Xuba ibne Alhajaje. Os críticos de hádice geralmente o consideraram um transmissor confiável, embora algumas tradições atribuídas a ele fossem transmitidas de forma . Ibraim transmitiu relativamente poucos hádices, pois temia que a dedicação excessiva à coleta e transmissão de tradições levasse o estudioso a negligenciar a prática daquilo que aprendia e despertasse nele o desejo de obter reputação. Por essa razão, embora estudasse hádice e transmitisse tradições, não se dedicou intensamente à atividade de transmissão.

Na literatura

As narrativas hagiográficas desenvolvidas em torno de Ibraim ibne Adame transformaram sua biografia em tema de diferentes tradições literárias. A representação de Ibraim como rei ou príncipe de Bactro que abandona o poder e a riqueza para seguir uma vida ascética, ausente das fontes árabes mais antigas, aparece posteriormente em e foi desenvolvida por autores posteriores. Na literatura árabe, as tradições a seu respeito permaneceram sobretudo em obras biográficas, hagiográficas e coleções de anedotas, enquanto sua história adquiriu desenvolvimento narrativo mais amplo nas literaturas persa e turca. Papel importante nesse processo coube à Tadhkirat al-Awliyāʾ, de Faridadim Atar, que dedicou amplo espaço às narrativas sobre sua vida.

A história alcançou especial popularidade na literatura turca, na qual circulou em prosa e verso. Os textos conhecidos como Edhemnâme narram episódios da vida lendária de Ibraim, particularmente o abandono da condição régia e da família e sua adoção da vida ascética. Diferentes versões manuscritas dessas narrativas foram preservadas, e a personagem continuou a ser reelaborada na literatura turca posterior. No teatro moderno, Necip Fazıl Kısakürek escreveu a peça İbrahim Ethem, publicada em 1978. Narrativas sobre Ibraim também circularam em urdu, malaio e javanês. Na literatura malaia, sua história aparece no Hikayat Sultan Ibrahim ibn Adham, no qual a tradição do soberano que abandona o reino recebeu desenvolvimento próprio. Versões da narrativa também foram transmitidas e reelaboradas na literatura javanesa. No , a figura de Ibraim alcançou ainda a literatura inglesa: Leigh Hunt utilizou seu nome no poema Abou Ben Adhem, publicado em 1834, no qual a personagem é associada ao amor a Deus e aos seres humanos.

Bibliografia

Categoria:Naturais de Bactro Categoria:Tamimitas Categoria:Ijelitas Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes