thumb|A primeira edição russa de Cibernética, de Norbert Wiener, publicada em 1958. O ano de 1958 foi um marco para o estudo da cibernética na União Soviética, tendo também visto a tradução de The Human Use of Human Beings, de Wiener, e o lançamento de Problems of Cybernetics, um periódico soviético dedicado ao estudo da cibernética.
A cibernética na União Soviética apresentou características próprias, à medida que o estudo da cibernética — a disciplina transdisciplinar que investiga a retroalimentação causal circular em sistemas — entrou em contato com as ideologias científicas dominantes da União Soviética e com as reformas econômicas e políticas do país. À medida que a influência desses fatores evoluiu, também mudaram as atitudes soviéticas em relação à cibernética: da crítica antiamericana irrestrita do início da década de 1950, passando por sua legitimação após a morte de Stalin e até 1961, pela sua ampla difusão na academia soviética durante a década de 1960, até seu declínio nas décadas de 1970 e 1980.
Inicialmente, de 1950 a 1954, a recepção da cibernética pelo establishment soviético foi exclusivamente negativa. O Departamento de Agitação e Propaganda soviético, ligado à Agitprop, havia solicitado a intensificação do antiamericanismo na mídia soviética e, numa tentativa de cumprir as cotas do departamento, jornalistas soviéticos passaram a atacar a cibernética como uma "pseudociência reacionária" americana, denunciando-a e ridicularizando-a. Esses ataques foram interpretados como um sinal da posição oficial em relação à cibernética, e escritores soviéticos passaram, assim, a retratá-la como "uma encarnação completa da ideologia imperialista" durante o governo de Josef Stalin.
Após a morte de Stalin, as amplas reformas do Degelo de Kruschev durante o governo de Nikita Khrushchov permitiram que a cibernética se legitimasse como "uma ciência séria e importante" e, em 1955, artigos sobre cibernética foram publicados no órgão filosófico estatal Voprosy Filosofii, depois que um grupo de cientistas soviéticos percebeu o potencial dessa nova ciência.
Dentro da cultura científica anteriormente repressiva da União Soviética, durante a desestalinização do governo de Khrushchov, a cibernética começou a servir como termo abrangente para áreas da ciência soviética anteriormente desacreditadas, como a linguística estrutural e a genética. Sob a liderança do acadêmico Aksel Berg, foi formado o Conselho de Cibernética, uma organização abrangente destinada a fornecer financiamento para essas novas áreas da ciência soviética. Na década de 1960, essa rápida legitimação colocou a cibernética na moda intelectual, e "cibernética" tornou-se uma palavra da moda entre cientistas preocupados com suas carreiras. Além disso, a administração de Berg deixou descontentes muitos dos ciberneticistas originais da organização, gerando reclamações de que ele parecia mais concentrado em questões administrativas do que na pesquisa científica, como demonstravam seus grandes planos de expandir o conselho para abranger "praticamente toda a ciência soviética". Na década de 1980, a cibernética havia perdido relevância na cultura científica soviética, pois sua terminologia e função política foram sucedidas pelas da informática na União Soviética e, posteriormente, nas ex-repúblicas soviéticas.
Crítica oficial: 1950–1954
A recepção inicial da cibernética na repressiva cultura científica dos meios de comunicação e das publicações acadêmicas sancionados pelo Estado soviético foi exclusivamente negativa. Segundo os planos do Departamento de Agitação e Propaganda soviético, a propaganda antiamericana deveria ser intensificada a fim de "mostrar a decadência da cultura e da moral burguesas" e "desmascarar os mitos da propaganda americana" após a formação da OTAN. Essa exigência levou editores de jornais soviéticos a uma busca frenética por temas a criticar, para cumprir tais cotas de propaganda.
O primeiro a se aproveitar da cibernética foi o jornalista científico Boris Agapov, acompanhando o interesse americano do pós-guerra pelos avanços na tecnologia de computação. A capa da edição de 23 de janeiro de 1950 da revista Time exibiu um desenho antropomórfico de um Harvard Mark III sob o slogan "Can Man Build a Superman?". Em 4 de maio de 1950, Agapov publicou no Literaturnaya Gazeta um artigo intitulado "Mark III, a Calculator", no qual ridicularizava o entusiasmo americano pelo "doce sonho" dos usos militares e industriais dessas novas "máquinas pensantes" e criticava o criador da cibernética, Norbert Wiener, como um exemplo dos "charlatães e obscurantistas que os capitalistas colocam no lugar de verdadeiros cientistas".
Embora não tivesse sido encomendado por nenhuma autoridade soviética e nunca mencionasse a ciência pelo nome, o artigo de Agapov foi interpretado como um sinal de uma posição crítica oficial em relação à cibernética; exemplares de Cibernética, de Wiener, foram retirados de circulação nas bibliotecas, e vários outros periódicos seguiram o exemplo, denunciando a cibernética como uma "pseudociência reacionária". Em 1951, Mikhail Yaroshevsky, do Instituto de Filosofia da Academia de Ciências da Rússia, liderou uma campanha pública contra a filosofia do "idealismo semântico", caracterizando Wiener e a cibernética como um todo como parte dessa "filosofia reacionária". Em 1952, outro artigo mais explicitamente anticibernético foi publicado no Literaturnaya Gazeta, dando início definitivo à campanha e abrindo caminho para uma enxurrada de títulos populares que denunciavam o tema. No auge dessa crítica, um artigo publicado na edição de outubro de 1953 do órgão ideológico estatal Voprosy Filosofii, sob o pseudônimo "Materialista" e intitulado "A quem serve a cibernética?", condenou a cibernética como uma "pseudoteoria misantrópica" constituída por um "mecanicismo que se transforma em idealismo", apontando os militares americanos como o "deus a quem a cibernética servia".
Durante esse período, o próprio Stalin jamais participou dessa crítica virulenta à cibernética. O chefe do Departamento de Ciências soviético, Yuri Zhdanov, recordou que Stalin "nunca se opôs à cibernética" e fez todos os esforços "para promover a tecnologia de computação" a fim de dar à União Soviética vantagem tecnológica. Embora a escala da campanha fosse modesta, com apenas cerca de dez publicações anticibernéticas produzidas, Valery Shilov argumentou que ela constituiu uma "diretriz rígida para a ação" emanada dos "órgãos ideológicos centrais", uma declaração universal de que a cibernética era uma pseudociência burguesa a ser criticada e destruída.
Poucos desses críticos tinham acesso a fontes primárias sobre cibernética. As fontes de Agapov limitavam-se à edição de janeiro de 1950 da Time; as críticas do instituto baseavam-se no volume de 1949 de ETC: A Review of General Semantics; e, entre os artigos soviéticos sobre cibernética, apenas o "Materialista" citava diretamente Cibernética, de Wiener. Citações sensacionalistas selecionadas de Wiener e especulações baseadas "exclusivamente em outros livros [soviéticos] já escritos sobre o mesmo assunto ou assunto semelhante" foram usadas para caracterizá-lo simultaneamente como idealista e mecanicista, criticando sua suposta redução de ideias científicas e sociológicas a meros "modelos mecânicos". As sombrias especulações de Wiener sobre a "segunda revolução industrial" e a "linha de montagem sem agentes humanos" foram distorcidas para retratá-lo como um tecnocrata que desejaria "o processo de produção realizado sem trabalhadores, apenas com máquinas controladas pelo gigantesco cérebro do computador", "sem greves ou movimentos grevistas e, além disso, sem insurreições revolucionárias". Segundo Slava Gerovitch, "cada crítico levou a crítica um passo adiante, inflando gradualmente a importância da cibernética até que ela fosse vista como uma encarnação completa da ideologia imperialista".
Legitimação e ascensão: 1954–1961 thumb|Josef Stalin e Nikita Khrushchov, em 1936; a morte de Stalin (à direita) e a ascensão de Khrushchov (à esquerda) em 1953, juntamente com o degelo político subsequente, permitiram que a cibernética fosse legitimada na União Soviética.
A cultura acadêmica reformada da União Soviética, após a morte de Stalin e as reformas da era do degelo de Khrushchov, permitiu que a cibernética superasse as antigas críticas ideológicas e recuperasse sua reputação pública. Para os cientistas soviéticos, a cibernética surgiu como uma possível via de escape das armadilhas ideológicas do stalinismo, substituindo-as pela objetividade computacional da cibernética.
O cientista da computação militar Anatoly Kitov recordou ter encontrado por acaso Cibernética na biblioteca secreta do Escritório Especial de Construção e percebido imediatamente que "a cibernética não era uma pseudociência burguesa, como as publicações oficiais a consideravam na época, mas o contrário — uma ciência séria e importante". Ele se juntou ao matemático dissidente Alexey Lyapunov e, em 1952, apresentou ao Voprosy Filosofii um artigo favorável à cibernética, que a revista endossou tacitamente, embora o Partido Comunista exigisse que Lyapunov e Kitov ministrassem palestras públicas sobre cibernética antes da publicação; ao todo, foram realizados 121 seminários entre 1954 e 1955.
Um acadêmico muito diferente, o filósofo soviético e antigo fiscal ideológico Ernst Kolman, também aderiu a essa reabilitação. Em novembro de 1954, Kolman proferiu uma palestra na Academia de Ciências Sociais condenando a repressão à cibernética diante de uma plateia surpresa, que esperava uma exposição das críticas stalinistas anteriores, e depois se dirigiu ao escritório do Voprosy Filosofii para que sua palestra fosse publicada.
O início de um movimento cibernético soviético foi, portanto, assinalado pela primeira vez por dois artigos publicados conjuntamente no volume de julho–agosto de 1955 do Voprosy Filosofii: "The Main Features of Cybernetics", de Sergei Sobolev, Alexey Lyapunov e Anatoly Kitov, e "What is Cybernetics", de Ernst Kolman. Segundo Benjamin Peters, esses "dois artigos soviéticos prepararam o terreno para a revolução da cibernética na União Soviética".
O primeiro artigo — escrito por três cientistas militares soviéticos — tentou apresentar os princípios da cibernética como uma teoria científica coerente, reformulando-a para uso soviético; seus autores evitaram deliberadamente qualquer discussão filosófica e apresentaram Wiener como um anticapitalista americano, para evitar qualquer confronto politicamente perigoso. Eles definiram como princípios fundamentais da cibernética: Teoria da informação; a teoria das máquinas eletrônicas automáticas de cálculo de alta velocidade como teoria de processos lógicos auto-organizados; a teoria dos sistemas de controle automáticos, em particular a teoria da retroalimentação.
Em contraste, a defesa de Kolman da cibernética reproduzia a forma das críticas stalinistas que ela havia sofrido. Kolman criou uma historiografia espúria da cibernética — que inevitavelmente situava suas origens na ciência soviética — e corrigiu os supostos "desvios" dos filósofos anticibernéticos, empregando citações estrategicamente escolhidas de autoridades marxistas e epítetos filosóficos, como "idealista" ou "vitalista", sugerindo que os adversários da cibernética incorriam nos mesmos erros filosóficos criticados décadas antes por Marx e Lenin, dentro de seu quadro de materialismo dialético.
Em 1955, o Centro de Computação da Academia de Ciências da União Soviética foi criado e começou a funcionar em Moscou.Вычислительный центр АН СССР // Советский энциклопедический словарь. редколл., гл. ред. А. М. Прохоров. 4-е изд. М., "Советская энциклопедия", 1986. стр.261