Abede Arrazaque Açanani (), cujo nome completo era Abu Becre Abede Arrazaque ibne Hamame ibne Nafi Açanani Alhimiari (; 743/4–826/7), foi um tradicionalista, jurista e exegeta muçulmano do Iêmem. Natural de Saná, estudou com algumas das principais autoridades religiosas de sua época, entre elas Mamar ibne Raxide, Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina e Maleque ibne Anas, e tornou-se uma destacada autoridade na transmissão do hádice.
Abede Arrazaque teve entre seus discípulos Ali ibne Almadini, Amade ibne Hambal e outros importantes tradicionalistas, e centenas de suas transmissões foram incorporadas às coleções de Albucari e Muslim. Embora sua confiabilidade tenha sido geralmente reconhecida, sua reputação foi objeto de controvérsias relacionadas a uma suposta inclinação ao xiismo e às transmissões atribuídas a seus últimos anos, após a perda da visão. A primeira acusação foi rejeitada por autoridades como Amade ibne Hambal, Iáia ibne Maine e Adaabi, enquanto parte das tradições recebidas depois de sua cegueira foi tratada com maior cautela.
Sua principal obra é o al-Muṣannaf fī al-ḥadīth, extensa compilação organizada segundo capítulos jurídicos que preserva mais de 21 mil tradições e constitui uma importante fonte para o estudo do hádice e da jurisprudência islâmica dos primeiros séculos. Também são atribuídas a Abede Arrazaque obras de exegese e outras compilações de tradições, entre elas o al-Tafsīr, o Kitāb al-Ṣalāt, o al-Amālī fī āthār al-ṣaḥāba e o al-Ṣaḥīfa.
Vida
Abede Arrazaque Açanani nasceu em Saná, no Iêmem, em 126 A.H. (743–744). Seu nome completo era Abu Becre Abede Arrazaque ibne Hamame ibne Nafi Açanani Alhimiari. Realizou seus primeiros estudos no ambiente familiar e começou ainda jovem a dedicar-se ao hádice. Por volta dos dezoito anos, estudou com Ibne Juraije, durante a permanência deste no Iêmen, e, aproximadamente aos vinte anos, iniciou viagens de estudo pelo Hejaz, Síria e Iraque, nas quais recebeu tradições de numerosos estudiosos. Entre seus principais mestres estiveram Mamar ibne Raxide, Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina e Maleque ibne Anas. Manteve relação particularmente estreita com Mamar, com quem estudou durante cerca de oito anos e de quem teria registrado aproximadamente dez mil hádices. No fiqh, recebeu ensinamentos de Alauzai, Sufiane Atauri e Abu Hanifa. Entre os numerosos estudiosos que transmitiram hádices por autoridade de Abede Arrazaque estiveram , Ali ibne Almadini, , e Amade ibne Hambal. Alguns de seus próprios mestres também transmitiram por sua autoridade: Sufiane ibne Uiaina e transmitiram, cada um, um hádice recebido dele. Suas tradições alcançaram ampla circulação nas principais coleções de hádice; Albucari incorporou 110 delas, enquanto Muslim incluiu 409.
Abede Arrazaque alcançou grande reputação entre os tradicionalistas e recebeu designações honoríficas como al-ḥāfiẓ al-kabīr, ʿallāma, shaykh al-Islām e muḥaddith al-waqt. Afirmava conhecer de memória 17 mil hádices, todos recebidos por ʿarḍ ou samāʿ, embora demonstrasse especial cuidado em transmitir suas tradições a partir de registros escritos. Sua confiabilidade foi geralmente reconhecida pelos estudiosos do hádice. acusou-o de falsidade, mas essa avaliação não foi aceita pelos principais tradicionalistas, e Adaabi considerou-a infundada. Abede Arrazaque também foi acusado de inclinação ao xiismo, sobretudo devido à afeição que demonstrava por Ali, à transmissão de hádices relativos às virtudes dos Ahl al-Bayt e à presença, entre suas tradições, de relatos desfavoráveis a Moáuia. Amade ibne Hambal, que permaneceu com ele durante aproximadamente um ano, afirmou, contudo, nunca ter ouvido de Abede Arrazaque algo que confirmasse sua adesão ao xiismo, enquanto Iáia ibne Maine rejeitou a ideia de que suas transmissões devessem ser abandonadas por essa acusação. Também se atribuía a Abede Arrazaque a opinião de que Abu Becre e Omar eram superiores a Ali em virtude. Adaabi considerou incorreto classificá-lo como xiita e interpretou sua posição sobretudo como expressão de afeição por Ali e de hostilidade àqueles que haviam combatido contra ele.
Nos últimos anos de vida, Abede Arrazaque perdeu a visão, circunstância que suscitou reservas quanto a parte das tradições transmitidas por sua autoridade nesse período. Segundo Amade ibne Hambal, depois que ficou cego começaram a circular como provenientes dele alguns hádices que anteriormente não constavam de seus livros. Por essa razão, Amade, Anaçai e recomendaram cautela em relação às tradições recebidas de Abede Arrazaque após a perda da visão, distinguindo-as daquelas transmitidas anteriormente a partir de seus registros escritos. Morreu em 211 A.H. (826–827). A principal obra de Abede Arrazaque é o al-Muṣannaf fī al-ḥadīth, uma extensa compilação de hádices e outras tradições organizada segundo capítulos jurídicos. A obra contém 21.033 tradições e constitui uma importante fonte para o estudo do hádice e da jurisprudência islâmica dos primeiros séculos. Grande parte do material procede de seus principais mestres, especialmente Mamar ibne Raxide, Ibne Juraije e Sufiane Atauri. O Muṣannaf foi editado por Ḥabīb al-Raḥmān al-Aʿẓamī e publicado em onze volumes entre 1971 e 1975. Também lhe é atribuído um al-Tafsīr, no qual reuniu tradições exegéticas recebidas de seus mestres. A obra preserva, entre outros materiais, parte da exegese de Catada ibne Diama transmitida por intermédio de Mamar ibne Raxide. Entre suas demais obras sobreviventes encontram-se o Kitāb al-Ṣalāt, dedicado à oração; o al-Amālī fī āthār al-ṣaḥāba, composto de tradições relativas aos companheiros de Maomé; e o al-Ṣaḥīfa, que preserva transmissões suas por diferentes cadeias de transmissão. Essas obras, juntamente com o Muṣannaf, conservaram parte substancial do material tradicional reunido por Abede Arrazaque e transmitido por seus mestres.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Saná Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida